Que
me deu uma vontade de comer cachorro-quente, rapaz, que o melhor para mim é
pensar no aquecimento global. Com duas salsichas, ketchup e mostarda, assim eu
não salivo pelo fruto vexatório. Concordo que o desespero por comida e a morte
dos ursos polares tiram mais o sono que um cachorro-quente com duas salsichas,
ketchup, mostarda. Ursos polares morrendo de fome, entretanto, não comem
salsicha com o prazer explicitamente indecoroso do meu gato.
Faz
dezessete anos que o meu gato sumiu. Foi o meu primeiro, cujo nome era Félix, e
eu não estava preparado para conservá-lo em casa. Ao cabo de uma semana, quando
o telhado tinha uma orquestra a miar uma versão, polifônica e promíscua, de Cio
da Terra, o meu bichaninho escafedeu-se.
Lembrei
desse sumiço, pois, noutra noite aí, o marido de uma amiga saiu querendo uma
gaita e, já fazendo três anos quase inteiros, quede que o musicista não veio para
sapecar aquele Brasileirinho duca.
Quede
que volte? Quede que mie? Os catitos, cadê?
Jogando
no liquidificador, noves fora, bem se toque em se lambuzar de mel e bem se
abunde na baba o quanto gostei, dancei, pulei, viciei, pois bem se faça
o bem que se peça, tendo pão e chorinho como chão de cada dia.
E
a minha amiga se livrou do gato, dando-me. Por quê? Ela ganhou do gaitista
farrista, aquele fio de uma égua.
Rapaz,
não me corrija. Sei fazer conta. É que às vezes falo de modo a confundir. Mas eu
não me atrapalho com as confusões que eu causo, pois faz parte da pessoa de personalidade
como a minha.
Não
abuse de mim, abusado, pois não estou determinado a abusar da boa-vontade. Só
confundo um tanto. Em vez dos dezessete, cinco? Ou cinco pelos dezessete? E o
Félix continua sumido, né?
Rapaz,
isso importa? Tem mesmo que bater pau?
Nem
os ursos polares nem os marimbondos ligam para mim quando levanto a cortina
para mostrar as conexões.
Os
marimbondos? Francamente, que ignorância.
Tem
aquela música do Ataulfo, que a gente assobia, que laranja na beira da estrada,
a laranja madura, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé.
Me
faz este favor, rapaz? Você permite que eu conte da vez em que o Ananias foi
censurado pelos três pontinhos no cheque? Quer saber por que o advogado exigiu que
não assinasse com o frufru?
O
Ananias é desses que aprendem uma besteira e sai imitando, sai copiando como se
fosse moda a ser replicada de pronto.
O
que teve de ouvir é que o advogado era integrante de um grupo seleto, com
responsabilidades inalienáveis para com a comunidade, e que os três pontos
apontavam quem era da fraternidade, quem estava incluído no elenco de gente
ética da cidade.
Por
que, respeitando a ordem de não fazer mais aquilo, ao despedir-se, bati três
vezes com o indicador no antebraço do conselheiro?
Não
há improviso com força bastante que silencie, despiste, apague ou desminta o
que o óbvio ulula, que o Ananias é onanista.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 11 de novembro de 2025.
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