terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ananias

 

Ananias

 

Que me deu uma vontade de comer cachorro-quente, rapaz, que o melhor para mim é pensar no aquecimento global. Com duas salsichas, ketchup e mostarda, assim eu não salivo pelo fruto vexatório. Concordo que o desespero por comida e a morte dos ursos polares tiram mais o sono que um cachorro-quente com duas salsichas, ketchup, mostarda. Ursos polares morrendo de fome, entretanto, não comem salsicha com o prazer explicitamente indecoroso do meu gato.

Faz dezessete anos que o meu gato sumiu. Foi o meu primeiro, cujo nome era Félix, e eu não estava preparado para conservá-lo em casa. Ao cabo de uma semana, quando o telhado tinha uma orquestra a miar uma versão, polifônica e promíscua, de Cio da Terra, o meu bichaninho escafedeu-se.

Lembrei desse sumiço, pois, noutra noite aí, o marido de uma amiga saiu querendo uma gaita e, já fazendo três anos quase inteiros, quede que o musicista não veio para sapecar aquele Brasileirinho duca.

Quede que volte? Quede que mie? Os catitos, cadê?

Jogando no liquidificador, noves fora, bem se toque em se lambuzar de mel e bem se abunde na baba o quanto gostei, dancei, pulei, viciei, pois bem se faça o bem que se peça, tendo pão e chorinho como chão de cada dia.

E a minha amiga se livrou do gato, dando-me. Por quê? Ela ganhou do gaitista farrista, aquele fio de uma égua.

Rapaz, não me corrija. Sei fazer conta. É que às vezes falo de modo a confundir. Mas eu não me atrapalho com as confusões que eu causo, pois faz parte da pessoa de personalidade como a minha.

Não abuse de mim, abusado, pois não estou determinado a abusar da boa-vontade. Só confundo um tanto. Em vez dos dezessete, cinco? Ou cinco pelos dezessete? E o Félix continua sumido, né?

Rapaz, isso importa? Tem mesmo que bater pau?

Nem os ursos polares nem os marimbondos ligam para mim quando levanto a cortina para mostrar as conexões.

Os marimbondos? Francamente, que ignorância.

Tem aquela música do Ataulfo, que a gente assobia, que laranja na beira da estrada, a laranja madura, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé.

Me faz este favor, rapaz? Você permite que eu conte da vez em que o Ananias foi censurado pelos três pontinhos no cheque? Quer saber por que o advogado exigiu que não assinasse com o frufru?

O Ananias é desses que aprendem uma besteira e sai imitando, sai copiando como se fosse moda a ser replicada de pronto.

O que teve de ouvir é que o advogado era integrante de um grupo seleto, com responsabilidades inalienáveis para com a comunidade, e que os três pontos apontavam quem era da fraternidade, quem estava incluído no elenco de gente ética da cidade.

Por que, respeitando a ordem de não fazer mais aquilo, ao despedir-se, bati três vezes com o indicador no antebraço do conselheiro?

Não há improviso com força bastante que silencie, despiste, apague ou desminta o que o óbvio ulula, que o Ananias é onanista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2025.

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