Para
dar momento ao modorrento, tem-se o início.
Olho
pela janela. Bebo um gole. Há um cão latindo. Bebo outro gole. Um mendigo brinca
com o vira-lata. No entanto, o suco acaba. Encho o copo outra vez. Volto à
janela. Vejo, novamente, o cão e o camarada. Noto-os, que reprimem jactâncias,
praticam errâncias, estão ignorando ganâncias. Percebo que ajam assim, porque
sou eu que os conjecturo capazes de serem assim.
Supondo.
Bebericando. Todavia, não há copo que permaneça cheio o quanto se queira; o meu
esvazia de repente, mas não praguejo.
Tem
mais suco, porque fui eu que espremi as laranjas. E trouxe-as há pouco. Pelas
laranjas, fui ao supermercado. Sob chuva e vento, fui somente por elas, e trouxe
logo uma dúzia.
A
cada vez que faço laranjada, sempre espremo uma dúzia. Como gosto de beber
devagar, sem nenhum mal-estar, bebo tudo. Quando a fruta tem sumo abundante,
bebo mais que um litro. Bebo tudinho, sem que reste uma gota sequer, pois tomo
este tempo para mim.
Assim
como não gosto de laranjada adoçada, seja por mel, seja por açúcar, por nenhum
deles, ou mascavo ou demerara, sei, sim, senhor, que não é domingo que é dia de
laranjada, todo dia é.
Com
o fim do introito, vai, passado no mercado, o entrecho.
Disse
bom-dia à moça que pesa frutas e legumes. Tornei a dizer o meu bom-dia. Por
ignorado, temperou-me uma pitadinha de mal-estar, já aquele bom-dia de gente
educada encruando-me.
Tenho
esta índole, de ficar achando que o culpado de tudo sempre sou eu. Ou melhor,
sendo fiel à realidade, alimento-me deste espírito, que a mim me dou carne e
dores quando me sinto desarticulado pelas indiferenças do mundo. Ou seja,
quando as pessoas demonstram que estou a entediá-las, e não o contrário,
somatizo este tédio.
Aborrecido
com a falta de modos da funcionária da balança, eu sou abalroado. Sem afetar
estoicismo, acuso o impacto: ai!
Mesmo
massageando a canela, a minha dor, todavia, não chega ao moço que empurra o
carrinho.
Assim
como àquela moça o meu bom-dia não existiu, ao funcionário de reposição de
frutas e legumes meu ai! não despertou simpatia, nem sequer a preocupação dada
às caixas de uvas.
Para
que o rapaz manobrasse o carro carregado de caixas sem que a minha perna ajudasse
a orientá-lo, abri caminho. Em vão que a minha boa ação tivesse reconhecimento,
o sujeito seguiu que nem me viu.
Com
isso posto, que comece logo o epílogo.
Como
continuo sendo o tipo de pessoa que não voa nem cheirando pó de pirlimpimpim, fico
à janela. Embora nem me ensandeça o desejo de ser visto por um dos camaradas, seja
o cachorro, seja o cara, bebo a laranjada. É forçosamente sem pressa que a bebo.
Sem
irritar quem seja, passo a língua nos lábios. Nem pigarreando nem me lambendo, este
troço intragável seguirá impotável.
Que
moral tem tal croniqueta?
Só
o pícaro faz laranjada com as duas dúzias de limões.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 09 de novembro de 2025.
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