domingo, 9 de novembro de 2025

O ar da sua graça

 

O ar da sua graça

 

Para dar momento ao modorrento, tem-se o início.

Olho pela janela. Bebo um gole. Há um cão latindo. Bebo outro gole. Um mendigo brinca com o vira-lata. No entanto, o suco acaba. Encho o copo outra vez. Volto à janela. Vejo, novamente, o cão e o camarada. Noto-os, que reprimem jactâncias, praticam errâncias, estão ignorando ganâncias. Percebo que ajam assim, porque sou eu que os conjecturo capazes de serem assim.

Supondo. Bebericando. Todavia, não há copo que permaneça cheio o quanto se queira; o meu esvazia de repente, mas não praguejo.

Tem mais suco, porque fui eu que espremi as laranjas. E trouxe-as há pouco. Pelas laranjas, fui ao supermercado. Sob chuva e vento, fui somente por elas, e trouxe logo uma dúzia.

A cada vez que faço laranjada, sempre espremo uma dúzia. Como gosto de beber devagar, sem nenhum mal-estar, bebo tudo. Quando a fruta tem sumo abundante, bebo mais que um litro. Bebo tudinho, sem que reste uma gota sequer, pois tomo este tempo para mim.

Assim como não gosto de laranjada adoçada, seja por mel, seja por açúcar, por nenhum deles, ou mascavo ou demerara, sei, sim, senhor, que não é domingo que é dia de laranjada, todo dia é.

Com o fim do introito, vai, passado no mercado, o entrecho.

Disse bom-dia à moça que pesa frutas e legumes. Tornei a dizer o meu bom-dia. Por ignorado, temperou-me uma pitadinha de mal-estar, já aquele bom-dia de gente educada encruando-me.

Tenho esta índole, de ficar achando que o culpado de tudo sempre sou eu. Ou melhor, sendo fiel à realidade, alimento-me deste espírito, que a mim me dou carne e dores quando me sinto desarticulado pelas indiferenças do mundo. Ou seja, quando as pessoas demonstram que estou a entediá-las, e não o contrário, somatizo este tédio.

Aborrecido com a falta de modos da funcionária da balança, eu sou abalroado. Sem afetar estoicismo, acuso o impacto: ai!

Mesmo massageando a canela, a minha dor, todavia, não chega ao moço que empurra o carrinho.

Assim como àquela moça o meu bom-dia não existiu, ao funcionário de reposição de frutas e legumes meu ai! não despertou simpatia, nem sequer a preocupação dada às caixas de uvas.

Para que o rapaz manobrasse o carro carregado de caixas sem que a minha perna ajudasse a orientá-lo, abri caminho. Em vão que a minha boa ação tivesse reconhecimento, o sujeito seguiu que nem me viu.

Com isso posto, que comece logo o epílogo.

Como continuo sendo o tipo de pessoa que não voa nem cheirando pó de pirlimpimpim, fico à janela. Embora nem me ensandeça o desejo de ser visto por um dos camaradas, seja o cachorro, seja o cara, bebo a laranjada. É forçosamente sem pressa que a bebo.

Sem irritar quem seja, passo a língua nos lábios. Nem pigarreando nem me lambendo, este troço intragável seguirá impotável.

Que moral tem tal croniqueta?

Só o pícaro faz laranjada com as duas dúzias de limões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2025.

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