quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O domingo do mundo

 

O domingo do mundo

 

Valha sempre a intenção, pois o bem-intencionado dá propósito ao desejo de persistir, e ele persiste porque tem em mente que o paraíso alberga quem dobra as cobertas, ajeita os lençóis, e reclama, que lhe entreguem uma colcha, sendo sábado.

Valha ser um sujeito bem-intencionado, não outro cara desejoso de entrar no refeitório, recusar café no leite, sentar-se onde queira e negar conversa com gente que diga, pela eternidade inteirinha, tão somente a verdade, que sempre há de ser domingo, sendo sábado.

Valha ter conhecimento da situação, a zanzar, fingindo zanzar, indo atrás de quem lhe fale a versão mais verídica, não indo atrás de gente que lhe aponte qual o caminho da modéstia.

Valha autoelogiar-se, pois, sendo pessoa modesta e paciente, não se deve deixar a cama desarrumada, até porque o inferno tem lugar de sobra a quem jura que não jura, nem em vão, porque o inferno acolhe, até, cobra que vive se comendo pelo próprio rabo.

Valha ser como aquele cara que não sorri à toa, só quando entende o subentendido do que está dito, porque um camarada sério, sobre rir à toa ou pirar que joguem café no leite, é boa-praça, é sujeito que troca de pele por conhecer o público que tem, é cara que aplaude a plateia que se diverte a ouvi-lo e alegra-se que o vejam como precisa ser visto, o justo que guarda sábados, não o domingo.

Valha ser, pobre-diabo de autêntico comedimento, cobra criada que precisa de nova pele a cada vez que precisa renovar-se, já, e sempre, em pele nova.

Valha por responsabilizar-se pela cama, já bêbado de si, feito gente que pensa que é, ainda que nem saiba que dia é, o entusiasmado que arde por mais outros sábados, porque lhe basta seguir sendo quem é, a pessoa, tão somente, que ele pensa que lhe seja permitido ser.

Depois de tomar umas, ele se aborrece que o tratem feito figurante. Com tantas verdades para dizer, ficar ao fundo? Que falta de simpatia. Mas, boa gente a ouvi-lo quando fala sem constrangimentos, é sensato distribuir perdões. Com uma história riquíssima, calamitoso é deixá-lo a dois passos do banheiro. Depois vão dizer que vira todas, resmunga demais, é o chato que não dá folga, quando o sábado é para gozar das boas coisas do mundo.

Mas, o mundo tem que saber o quanto está radiante. Tal qual o sol que não tem concorrente, brilhando feliz, despejando nas pessoas sua luz alvissareira, já que o sol é amor, ele quer irradiar o amor.

Com tanto amor, ele sabe que o paraíso está dentro de cada pessoa e, destemido, ele fala sobre arrumar a cama antes de sentar-se para o copo de leite, e tomá-lo sem pressa.

É preciso amar, ser o sol àquele bar.

Ele compartilha a razão para ter mudado de cargo. A mudança torna patente a verdade: com salário maior, a pessoa tem mais inteligência. E todo mundo de inteligência superior merece perceber o tanto que as suas preces estão atendidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2025.

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