Como
ninguém nos apresentou, simpatizamo-nos de imediato. Sem lirismo boboca,
sentimos que as nossas almas sorriram. Embevecidos pela revelação de que, sem
outra fortuna que não a mera casualidade, o mundo havia-nos levado a este
encontro, sorrimos, então.
Nem
sei precisar o motivo dessa sintonia ter começado, lembro que houve essa troca
de sorrisos. Esqueci o assunto que nos fez comentá-lo, mas, por pura gratuidade,
achamos de sorrir.
O
que apraz rememorar é que uma palavra, uma qualquer, uma das tantas que
dizíamos, uma que nem revelasse a nossa perspicácia, por corriqueira que fosse,
foi palavrinha bastante para que sorríssemos.
Por
recordar-nos a sorrir, não houve engano, saboreávamos a tolice que diríamos sem
que nos escandalizássemos de tê-la dito.
Por
dizer tal idiotice inocente, com a legítima carinha de idiotas, se nos percebêssemos
pacóvios, nós garbalharíamos.
Garbosos,
mas sem nos moldarmos pela temperança de gente que se emperiquita arguta, um ao
outro afetávamos espontâneos, sorrindo, a havermo-nos dessa amizade bonançosa, menos
volátil.
Éramos
sólidos. Éramos os dentes que exibíamos ao sorrir. Éramos a graça de usarmos o sorriso
como ponte.
Ainda
que o mundo fosse hostil e terrificante, nós, já seduzidos pela simpatia, íamos
e voltávamos, brincávamos, sentíamos que houvesse um rio a correr pelos nossos dentes.
O
que agora eu sinto não me devolve ao presente, porque debaixo daquela
espontaneidade sorridente corria um abismo.
Fujamos
do exagero! Corrijamos! Busquemos a sensatez!
Digamos
que, ao dar pela circunstância que camufla o gatilho, já o sorriso não sendo
colete nem boia, é plausível sentir o gelo a seduzir-nos que andássemos sobre a
película.
Ponderássemos!
Refletíssemos! Exagerássemos!
Sendo
do jeito que a memória se desvela, espantoso é pensar que a nossa gargalhada
não pudesse soar agravante, ou energúmena, sem que déssemos com o gelo a trincar,
abrir fissura, dar aos outros, já nos havendo dessa bucólica camaradagem, que
éramos nós o abismo.
Como
éramos autênticos, cochicharíamos a quem se dispusesse a escutar-nos: abismos
sorriem.
Acreditávamos
que a realidade sempre há de ser como é, portanto, éramos como poderíamos ser:
sorrisos, dentes, não o fato de estarmos embriagados, bastante alterados para não
vomitar depois de levar tapa ou tomar um safanão.
Bebíamos,
porque tínhamos motivos para beber. Achávamos pelo que brindar. Abraçávamo-nos,
porque sabíamos como viver pode ser muito divertido. Não iríamos minimizar que
a minha esposa tinha sido a dele e que a esposa dele tinha sido a minha.
E
daí que deixaram de falar uma com a outra?
Nós
bebíamos.
E
daí que se engalfinhavam quando se esbarravam?
Nós
nos abraçávamos.
E
daí que elas estavam grávidas do consorte anterior?
Nós
gargalhávamos.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de outubro de 2025.
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