quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Uma dupla muito engraçada

 

Uma dupla muito engraçada

 

Como ninguém nos apresentou, simpatizamo-nos de imediato. Sem lirismo boboca, sentimos que as nossas almas sorriram. Embevecidos pela revelação de que, sem outra fortuna que não a mera casualidade, o mundo havia-nos levado a este encontro, sorrimos, então.

Nem sei precisar o motivo dessa sintonia ter começado, lembro que houve essa troca de sorrisos. Esqueci o assunto que nos fez comentá-lo, mas, por pura gratuidade, achamos de sorrir.

O que apraz rememorar é que uma palavra, uma qualquer, uma das tantas que dizíamos, uma que nem revelasse a nossa perspicácia, por corriqueira que fosse, foi palavrinha bastante para que sorríssemos.

Por recordar-nos a sorrir, não houve engano, saboreávamos a tolice que diríamos sem que nos escandalizássemos de tê-la dito.

Por dizer tal idiotice inocente, com a legítima carinha de idiotas, se nos percebêssemos pacóvios, nós garbalharíamos.

Garbosos, mas sem nos moldarmos pela temperança de gente que se emperiquita arguta, um ao outro afetávamos espontâneos, sorrindo, a havermo-nos dessa amizade bonançosa, menos volátil.

Éramos sólidos. Éramos os dentes que exibíamos ao sorrir. Éramos a graça de usarmos o sorriso como ponte.

Ainda que o mundo fosse hostil e terrificante, nós, já seduzidos pela simpatia, íamos e voltávamos, brincávamos, sentíamos que houvesse um rio a correr pelos nossos dentes.

O que agora eu sinto não me devolve ao presente, porque debaixo daquela espontaneidade sorridente corria um abismo.

Fujamos do exagero! Corrijamos! Busquemos a sensatez!

Digamos que, ao dar pela circunstância que camufla o gatilho, já o sorriso não sendo colete nem boia, é plausível sentir o gelo a seduzir-nos que andássemos sobre a película.

Ponderássemos! Refletíssemos! Exagerássemos!

Sendo do jeito que a memória se desvela, espantoso é pensar que a nossa gargalhada não pudesse soar agravante, ou energúmena, sem que déssemos com o gelo a trincar, abrir fissura, dar aos outros, já nos havendo dessa bucólica camaradagem, que éramos nós o abismo.

Como éramos autênticos, cochicharíamos a quem se dispusesse a escutar-nos: abismos sorriem.

Acreditávamos que a realidade sempre há de ser como é, portanto, éramos como poderíamos ser: sorrisos, dentes, não o fato de estarmos embriagados, bastante alterados para não vomitar depois de levar tapa ou tomar um safanão.

Bebíamos, porque tínhamos motivos para beber. Achávamos pelo que brindar. Abraçávamo-nos, porque sabíamos como viver pode ser muito divertido. Não iríamos minimizar que a minha esposa tinha sido a dele e que a esposa dele tinha sido a minha.

E daí que deixaram de falar uma com a outra?

Nós bebíamos.

E daí que se engalfinhavam quando se esbarravam?

Nós nos abraçávamos.

E daí que elas estavam grávidas do consorte anterior?

Nós gargalhávamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2025.

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