quinta-feira, 30 de março de 2023

Questão de gosto

 

Questão de gosto

 

Nos dias quentes, seria bom se eu tomasse um sorvete mesmo não havendo previsão de chuva. Imprevisível, sinto um mal-estar arranhar a minha garganta. Narinas adentro, o ar seco instala em mim uma leve instabilidade.

Tenho sede, pigarreio. Ansioso, não ouço música e saio andar. Pra dar um tempo, bebo cerveja. Estupidamente modorrento, balbucio.

Porque me faz tagarelar, beber é imbecilidade energúmena. Que vá à breca a blindagem! Depois da segunda garrafa, o rancor ganha fluxo e desando com o sol, a aridez da boca e os sismos do estômago.

De vez em quando a cabeça se compadece de mim, ágil ao sondar minhas entranhas, por entender-me abismado em tédios comezinhos, ela provoca situações embaraçosas para que me prontifique a dar cabo dos meus borborigmos.

Como gente comum que padece de temperamento complicado, sou levado a demonstrar, de modo cabal e altaneiro, que tenho as armas e sou capaz de estratégias para me sair bem das complicações.

Me sairia levemente ferido se estivesse atento aos ardis do mundo, mas, homem distraído pelas banalidades cotidianas, eu não invento as histórias que presencio. Eu me complico.

Cansa-me a solidão, mas me quero melhor. Esgoto-me no exercício vão de conviver com gente que desdenha do mundo pra que a ela seja merecido o rótulo: desprezível. Torno-me outro, alguém detestável.

Pessoa de alma simples, reparo. Dentre as singelezas que valorizo, se a compaixão fosse mais praticada, eu pensaria alegremente.

No espírito desta época, o mundo revela tantas névoas tóxicas, que matam a cada ato de desamor, a cada desumanidade, dia a dia.

Me sentiria mais feliz se a alegria fosse realmente a prova dos nove, mas sei contar. Passo a passo, conto até dez pro sorvete.

Diuturno autocrítico, tento agir como camarada menos cri-cri e entro na doçaria. Dou uma olhadinha pros salgados, não babo. Sem reprimir vontades ou dissimular o que sinto, admito que não tenho pressão alta e, de momento, prefiro apenas açucarar a tarde.

Posso escolher, há pudins, tortas e bolos.

Ainda que a torta holandesa se destaque, os meus lábios pedem a torta de palmito. Volto-me, há metade apetitosa de uma torta de palmito na vitrine e a sedutora porção é que me leva à contradição.

Palmito! Palmito!

Para saciar este meu desejo pouco discreto, que me faz considerar como incomparável uma torta de palmito, como um, como dois, só não como um terceiro pedaço porque o dinheiro está curto.

Não venderei o relógio pra pagar duas bolas de chocolate e uma de morango, pois não me arrependo de ter pedido e repetido o palmitinho inigualável.

Como experimentei que sorvete com torta fazem um par perfeito, já que condicionei meu paladar, saberei ser controlado e, de pulso firme, eu não olharei as horas no relógio da igreja.

Além dos sinos, torre de igreja fica completa com relógio atrasado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2023.

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