domingo, 5 de março de 2023

Parabéns

 

Parabéns

 

Pobre de mim que estou perdido. Vim sem lista, não porque a tenha deixado em casa, não a fiz porque nem pensava em vir para cá.

Primeiro, fui à praça.

Quando estou estressado, sigo o roteiro que fazia quando tinha um cachorro. Erro por travessas, encomprido o caminho, ando mais lento que o costumeiro, passo pelo coreto, contorno o chafariz, abençoa-me a Santa a cada vez que desfilo a seus pés, sigo apostando que a fadiga há de informar à minha cabeça que ambos, o meu cão imaginário e eu, nos exercitamos o bastante.

Se é enganosa a felicidade de ter desviado o foco, é satisfatório não pensar em trabalho. Usufruir do bem-estar faz-me pensar em gratidão. E agradeço ao capital por erguer da lama a mais bela catedral em que o presente dá de desvelar-me um bocadinho feliz.

À deriva entre as gôndolas, de cestinha vazia, acham-me.

― A Branca de Neve tem que desculpar ― disse o garoto.

― Menino, não deixe a gente constrangida ― disse a avó.

― O meu neto quer ser escritor como você ― disse o avô.

Dito assim, não dá para entender muita coisa deste encontro.

Tão logo o avô contou que eu era escritor, a criança lembrou-se da história que a sua avó lhe conta à mesa do café, daí aquele abraço nas minhas pernas e seu carinho ao afagar meu rosto.

― O senhor conhece a Branca de Neve?

― Olá, rapazinho. Como você está?

― Diz pro moço se está tudo bem com você.

Nossos narizes resvalam-se enquanto ele fala comigo:

― Está tudo bem, moço. Mas o senhor conhece a Branca de Neve?

― Você não vai nem me falar qual é o seu nome?

― Se apresenta direito, Enzo. Diz pro moço como você se chama.

― Meu nome é Enzo, moço. Mas se o senhor é escritor de verdade, então, o senhor conhece a Branca de Neve.

― Olha, Enzo, eu conheço a história da Branca de Neve porque na casa dos meus pais tinha muitos livros.

― A Branca de Neve mora num livro?

― Não, não. A Branca de Neve mora do País do Faz de Conta.

― E quantas vezes o senhor já foi ao País do Faz de Conta?

― Sempre que leio uma história de mentirinha eu estou lá.

― Eu sabia! Quando a vovó conta história eu fico na casa dela, não vou pro País do Faz de Conta porque não sei ler.

― Não fique chateado com isso, pois você é bem novinho. Quantos anos você tem, Enzo?

― Faz com os dedinhos quantos anos você tem.

A criança mostra que tem três anos.

― Tá vendo? Na idade certa, você vai...

― O senhor tem que falar pra Branca de Neve que não foi por querer que soltei pum.

― Enzo, não fala essas coisas pro homem.

― Mas, vovô, o pum escapou.

― Tudo bem. Todo mundo solta pum. Eu também solto pum.

Quem acha melhor esclarecer é a avó:

― Sabe o livro do Ilan Brenman? Aquele que fala das princesas que soltam pum? Ele ama de paixão. Toda vez que a gente toma café junto, eu tenho que ler. Nossa Senhora! Como o meu príncipe ri.

― Eu soltei pum na hora que fui assoprar as velinhas do bolo, daí a Branca de Neve dormiu profundamente porque cheirou meu pum bem fedorento, moço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2023.

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