Por ficar grande parte do dia no
quintal, a mulher não está impedida de ver quem a observa; mas, à noite, por
causa das cortinas cerradas, ninguém nunca pode vê-la.
Realistas ou vãs, especulações são sarna
pra se coçar a quem não consegue deixar de imaginá-la vivendo fora de cena.
Teria a coceira ficado patente quando
marretou aquelas horrendas estátuas do seu jardim?
Desde que o Papai Noel não trouxe mais embrulhos
àquela casa, o que faz trancada depois que o sol se põe é um dos seus segredos.
Os tempos mudaram, não é mais necessário
postar cartinhas nem é preciso esperar que aos pés da árvore de Natal brotem
frutos, frágeis frutos, à pilha ou de montar, que não duram até o Carnaval.
Se não encharca a cachola com éter nem
se fantasia como odalisca nas folias das mil e uma noitadas, ela sabe que hoje
é possível enviar e-mail, mandar um zap, jurar como bandeirante que a lista
completinha de presentes foi expedida com quarenta e cinco dias de
antecedência, o que evidencia o seu caráter probo.
A mulher que não tem anões no jardim
sabe quem se comporta com a probidade de gente pacata, sensata, elegante.
Gente elegante não se mantém fria, é
cautelosamente simpática, é o tipo de pessoa que diz a verdade que precisa ser
ouvida sem que a diga com palavras pesadas, negativas, deprimentes.
Deitada entre os buldogues, a mulher que
toma o sol de antes das dez é de falar pouco, prefere a quietude a ser
incorreta, porque gente verborrágica não teme ser contraditória, teme que a
compreendam; ela se cala não porque a assombre escutar-se, é porque o seu
vocabulário anda carente de palavras potentes, que, ao serem ditas, causem
bem-estar, alegria, felicidade, amor.
Gente feliz também sofre por amor.
Se falasse na solidão, fatalmente
pensaria em abandono, mas seus cães estão devidamente banhados, alimentados, vacinados.
Se sofresse pelo esquecimento, logicamente
pensaria em egoísmo, pois os filhos nunca foram de esquecer aniversário, Dia da
Mulher, Dia das Mães e Natal.
Se é pra contar que fim tiveram os
anõezinhos, eles estão na estufa, onde tulipas, miosótis, cravos e crisântemos são
amados, assim como a sua matilha de protetores, com a mais fiel das paixões.
A vida, porém, não são apenas cães e
flores, às vezes chove.
Eis este mistério jamais desvendado
pelos palpiteiros que ousariam a ela perguntar, se dele tivessem notícia:
ꟷ O que acontece na sua cabeça para
prendê-los, deixá-los latindo e pulando ensandecidos contra a porta da
lavanderia e, como se nada estivesse errado, vá deitar-se na parte não
cimentada do quintal?
Não se diga que a resposta está na
ausência dos anões, ainda que a beleza vigorosa das plantas fique bem mais evidente
sem a distração daquelas figuras tão ridículas.
Temporãs ou terçãs, revoluções pipocam na
gente embora a mente permaneça preventivamente longe do fogo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de março de 2023.
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