terça-feira, 28 de março de 2023

Sol e chuva

 

Sol e chuva

 

Por ficar grande parte do dia no quintal, a mulher não está impedida de ver quem a observa; mas, à noite, por causa das cortinas cerradas, ninguém nunca pode vê-la.

Realistas ou vãs, especulações são sarna pra se coçar a quem não consegue deixar de imaginá-la vivendo fora de cena.

Teria a coceira ficado patente quando marretou aquelas horrendas estátuas do seu jardim?

Desde que o Papai Noel não trouxe mais embrulhos àquela casa, o que faz trancada depois que o sol se põe é um dos seus segredos.

Os tempos mudaram, não é mais necessário postar cartinhas nem é preciso esperar que aos pés da árvore de Natal brotem frutos, frágeis frutos, à pilha ou de montar, que não duram até o Carnaval.

Se não encharca a cachola com éter nem se fantasia como odalisca nas folias das mil e uma noitadas, ela sabe que hoje é possível enviar e-mail, mandar um zap, jurar como bandeirante que a lista completinha de presentes foi expedida com quarenta e cinco dias de antecedência, o que evidencia o seu caráter probo.

A mulher que não tem anões no jardim sabe quem se comporta com a probidade de gente pacata, sensata, elegante.

Gente elegante não se mantém fria, é cautelosamente simpática, é o tipo de pessoa que diz a verdade que precisa ser ouvida sem que a diga com palavras pesadas, negativas, deprimentes.

Deitada entre os buldogues, a mulher que toma o sol de antes das dez é de falar pouco, prefere a quietude a ser incorreta, porque gente verborrágica não teme ser contraditória, teme que a compreendam; ela se cala não porque a assombre escutar-se, é porque o seu vocabulário anda carente de palavras potentes, que, ao serem ditas, causem bem-estar, alegria, felicidade, amor.

Gente feliz também sofre por amor.

Se falasse na solidão, fatalmente pensaria em abandono, mas seus cães estão devidamente banhados, alimentados, vacinados.

Se sofresse pelo esquecimento, logicamente pensaria em egoísmo, pois os filhos nunca foram de esquecer aniversário, Dia da Mulher, Dia das Mães e Natal.

Se é pra contar que fim tiveram os anõezinhos, eles estão na estufa, onde tulipas, miosótis, cravos e crisântemos são amados, assim como a sua matilha de protetores, com a mais fiel das paixões.

A vida, porém, não são apenas cães e flores, às vezes chove.

Eis este mistério jamais desvendado pelos palpiteiros que ousariam a ela perguntar, se dele tivessem notícia:

ꟷ O que acontece na sua cabeça para prendê-los, deixá-los latindo e pulando ensandecidos contra a porta da lavanderia e, como se nada estivesse errado, vá deitar-se na parte não cimentada do quintal?

Não se diga que a resposta está na ausência dos anões, ainda que a beleza vigorosa das plantas fique bem mais evidente sem a distração daquelas figuras tão ridículas.

Temporãs ou terçãs, revoluções pipocam na gente embora a mente permaneça preventivamente longe do fogo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2023.

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