domingo, 2 de abril de 2023

Peso pesado

 

Peso pesado

 

O funcionário pesava as frutas e os legumes que eu havia separado quando reconheci aquelas duas pessoas falando alto.

Como o bolso condiciona o gasto, uma reles distração é prejudicial a quem escolhe batatas. Poderia ser perdoável ao consumidor a balela de haver-se por refratário a esbanjamentos se à pressão de abraçar os amigos sobreviesse um espírito radicalmente simpático. Ao perdulário que afeta cuidar do que julga de mais valoroso, a solidariedade no trato com os demais, cobre-se pelo amarelo dos sorrisos.

Coisíssima nenhuma que brigavam, falavam de futebol.

ꟷ O fato de o Marília ter vencido o São Paulo no Morumbi foi motivo pra ele brigar comigo.

ꟷ Não perdi a esportiva por causa do placar do jogo, não é a minha memória que anda falhando, a gozação é que passou do limite. Ainda mais que ele era tricolor e virou a casaca.

ꟷ Sempre fui corintiano, caramba.

ꟷ Caramba, uma ova. A sua família toda é são paulina, poxa.

ꟷ Nem agora nem nunca. Sempre fomos Mosqueteiro.

ꟷ Quer dizer que espalharam essa mentira?

ꟷ Quer dizer que você acreditou porque quis.

ꟷ Então, a ingenuidade é minha?

ꟷ O ingênuo que caiu na historinha furada foi você.

ꟷ Jesus Cristo! Eu era novinho em 77.

ꟷ Eu também era, nem por isso passava pra frente as mentiras, o que dava à muita gente o prazer em me deixar boquiaberto.

ꟷ Se idade não é desculpa, foi por maldade que comprei a briga?

ꟷ Como vou saber se brigou por razões erradas?

ꟷ Amigo não tem que ficar irritando quem a gente considera.

Diante de dois geniosos digladiadores, faz bem pegar leve.

Achei melhor saudá-los pela cabeça assombrosa que guarda tantos detalhes a ser envolvido naquela contenda.

Discreto, longe dos ressentidos, perguntei à máquina artificialmente inteligente: o que é mentira?

O robozinho bem sabido respondeu:

“Para ser claro, quero ser evidente. Como não emulo a translucidez sequer a transparência, preciso pôr em evidência o que tenho de deixar logicamente lúcido. Como a lucidez não simula sentimentos nem ideias ambivalentes, produzo linguagem sem ambiguidades. As pessoas são mamíferos capazes de reproduzir uma linguagem nitidamente racional, embora sintam-se alegres levemente tristes, tristes melancolicamente silentes, tagarelas razoavelmente tartamudas. Quero ser entendido no que tenho de bom, que é revelar a flor que não murcha por falta d’água, embora o sal das lágrimas oxide suas pétalas. Assim como pedrinhas atiradas à linha da água criam marolas, por meus tantos quereres peço às pessoas de boa vontade: cidadão, dê quirera às pombas, pois elas são animais que voam, arrulham, têm reprodução sexuada e precisam comer para ter tanta energia.”

Como eu espero que não me avaliem com rigidez nem fofoquem às minhas costas, peço ao gênio astuto que vive no celular:

ꟷ Sábio sabujo sabichão, como sumir com as saúvas da solidão?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2023.

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