O funcionário pesava as frutas e os
legumes que eu havia separado quando reconheci aquelas duas pessoas falando
alto.
Como o bolso condiciona o gasto, uma
reles distração é prejudicial a quem escolhe batatas. Poderia ser perdoável ao consumidor
a balela de haver-se por refratário a esbanjamentos se à pressão de abraçar os
amigos sobreviesse um espírito radicalmente simpático. Ao perdulário que afeta cuidar
do que julga de mais valoroso, a solidariedade no trato com os demais, cobre-se
pelo amarelo dos sorrisos.
Coisíssima nenhuma que brigavam, falavam
de futebol.
ꟷ O fato de o Marília ter vencido o São
Paulo no Morumbi foi motivo pra ele brigar comigo.
ꟷ Não perdi a esportiva por causa do
placar do jogo, não é a minha memória que anda falhando, a gozação é que passou
do limite. Ainda mais que ele era tricolor e virou a casaca.
ꟷ Sempre fui corintiano, caramba.
ꟷ Caramba, uma ova. A sua família toda é
são paulina, poxa.
ꟷ Nem agora nem nunca. Sempre fomos Mosqueteiro.
ꟷ Quer dizer que espalharam essa
mentira?
ꟷ Quer dizer que você acreditou porque
quis.
ꟷ Então, a ingenuidade é minha?
ꟷ O ingênuo que caiu na historinha
furada foi você.
ꟷ Jesus Cristo! Eu era novinho em 77.
ꟷ Eu também era, nem por isso passava
pra frente as mentiras, o que dava à muita gente o prazer em me deixar boquiaberto.
ꟷ Se idade não é desculpa, foi por
maldade que comprei a briga?
ꟷ Como vou saber se brigou por razões
erradas?
ꟷ Amigo não tem que ficar irritando quem
a gente considera.
Diante de dois geniosos digladiadores, faz
bem pegar leve.
Achei melhor saudá-los pela cabeça
assombrosa que guarda tantos detalhes a ser envolvido naquela contenda.
Discreto, longe dos ressentidos,
perguntei à máquina artificialmente inteligente: o que é mentira?
O robozinho bem sabido respondeu:
“Para ser claro, quero ser evidente.
Como não emulo a translucidez sequer a transparência, preciso pôr em evidência
o que tenho de deixar logicamente lúcido. Como a lucidez não simula sentimentos
nem ideias ambivalentes, produzo linguagem sem ambiguidades. As pessoas são mamíferos
capazes de reproduzir uma linguagem nitidamente racional, embora sintam-se alegres
levemente tristes, tristes melancolicamente silentes, tagarelas razoavelmente
tartamudas. Quero ser entendido no que tenho de bom, que é revelar a flor que
não murcha por falta d’água, embora o sal das lágrimas oxide suas pétalas.
Assim como pedrinhas atiradas à linha da água criam marolas, por meus tantos
quereres peço às pessoas de boa vontade: cidadão, dê quirera às pombas, pois
elas são animais que voam, arrulham, têm reprodução sexuada e precisam comer para
ter tanta energia.”
Como eu espero que não me avaliem com
rigidez nem fofoquem às minhas costas, peço ao gênio astuto que vive no
celular:
ꟷ Sábio sabujo sabichão, como sumir com as
saúvas da solidão?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de abril de 2023.
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