domingo, 26 de março de 2023

Doideira

 

Doideira

 

Outro dia, fustigado pela demora de ter resolvida uma pendenga, o olhar de uma senhora me censurou por meus andrajos.

Com a cabeça travada no problema, eu saía de casa com camiseta esburacada, moletom com o elástico da cintura bambo e os meus tênis bons camaradas dos calos dos mindinhos.

Sei, digníssima transeunte, sei que lhe passo a imagem surrada de dorminhoco que se manda pro boteco tão logo acorde ao meio-dia.

Não a rechaçarei que tinha muito eu acordara, justo com o trem das sete que apitava quando partia da estação.

Se não pensava em empadinha nem caipirinha, o pior é que estava indo buscar outra panaceia pros males humanos, uma graninha.

Caso fosse informá-la sobre os meus assuntos, o dinheiro era para pagar o aluguel de um peruzinho.

Um conhecido de bar soube por mim que eu precisava transportar caixotes de madeira, desses que os feirantes levam frutas, e não existe gesto mais fraternal do que duas almas alegrinhas saudarem a solução de problema tão emblemático.

Então, logo depois do almoço, eu saía de casa vestido com o pijama do cidadão moderno, as roupas mais bem desalinhadas com a mente obcecada com o meu desempenho frente àquela tarefa manual de tão difícil execução.

Tinha que ir, pois esperar que a casa na árvore brote dos galhos é ser idiota. Eu fui, pois quem vive de sonho engorda rápido; e pra que o galho não envergue ou quebre, tenho que imaginar qual o limite seguro de peso. Menos preocupado comigo trabalhando na árvore, sopesava o peruzinho carregado que eu teria de empurrar morro acima.

Indo, quis parar na padaria para tomar uma média mas o segurança barrou o peruzinho. Pra não discutir com o intransigente, nem entrei.

Mais um na cidade, eu gosto de vagar sem medo. Ando apressado, diminuo o passo, vou ao léu do que ouço e vejo.

No vão da falha, a cidade pulsa: se desencanta, se reconta.

Já que as pessoas têm alegrias e misérias, se me isolasse em casa, não contrastaria o que me aparta com o que temos em comum.

Porque tem gente que trabalha por mudanças, projeto-me no sonho do mundo, vou pelas entranhas que meus pés palmilham.

É humano fazer planos. E se a superação dos obstáculos for aflitiva, será também estimulante.

Sim, práticas decepcionam e frustram. Contudo, como não sou de imitar os chatos que reclamam de tudo, tanto dos fracassos quanto dos êxitos, tomo sol.

No meu passo, não me quero parado, vegetando em angústias, vou porque usufruo e não me atropelo. Escuto, escutam-me; observam-me, observo-os. Experimento, vivencio o que não sei o que é, decodifico-o, leio-me, sou visto. Sinto alegrias e euforias. Já meio desnorteado, temo o desregramento. Na falta e na fartura, tento manter alguma meta.

Como não aproveitar a ladeira do morro onde moro?

Com a madeira que consegui juntar, caprichei no fórmula 1. Agora, para desatar o divertido, faltam apenas os rolimãs.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2023.

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