quinta-feira, 2 de março de 2023

Noite passada

 

Noite passada

 

Para amanhecer ontem, a madrugada nada teve de extraordinário. E noites sem pipocos nem zumbis a mim me agradam porque abro as janelas, assisto ao espetáculo silencioso do céu misterioso.

O universo me desafia a entendê-lo além dos mistérios, porque leio e respiro o que seja sagrado não como fonte no meio da mata fechada, mas como clareira, lugar em que me sento, faço uma fogueira quando sinto frio, me deito com as mãos na nuca, sem horror ao mundo.

Com o engenho humano de escutar o mundo, não porque me seja sagrado o direito ao espanto, quero sondá-lo sem apelo a escândalos.

De repente a tela do celular iluminou o quarto, mas só notei que me telefonavam porque o aparelho vibrava a um palmo do meu ouvido.

Nem repetirei o palavrão que me assaltou de pronto, pois, outra vez nesta semana, esqueci o telefone ligado.

Sem vergonha alguma, posso dizer que não atendi nem olhei quem me ligava de madrugada, pois tolices são desabonadoras.

Compreendo os tolos, mas compreensão não é benevolência.

Não atendi, mas caí na besteira de ler as notificações.

Que ignorante tenho sido, nem sabia que há vinícolas gaúchas que nunca ouviram falar da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E como eu sei que os meus compatriotas sulistas são empresários ciosos dos deveres trabalhistas em desuso, suplico-lhes que consultem outro código que afrontam, a CLT. Como em rinha de plantadores de vinhas contra trabalhadores aviltados é justo metermos o bedelho, assim, para que todo mundo saibamos honrá-los como veros fraternos e solidários escravocratas, pelos hediondos crimes cometidos, metamos.

Quantos vestígios de um Brasil tão imperioso, pombas!

Uma vez acordado, fui à sala desligar o alarme do despertador cujo pino de acionamento estava destravado.

Abri a janela para sentir o cheiro da noite molhada. Aproveitei para apagar a lâmpada externa, que, mais uma vez, esqueci acesa.

Já que me sentei na varanda para fumar, deixei o pensamento sem amarras, naveguei ao léu das ondas, fui me esquecendo do atarantado que ando sendo, nem apressei a aurora de logo mais.

Se pensar ao sabor dos acasos é uma forma de meditação, medito quando estou só. Sem as estripulias da vida diurna, quero-me sereno.

Pra amanhecer hoje, chove.

Contas e desencontros não abalam meu sono, mas a chuva tem um barulhinho agradável de se ouvir.

Do outro lado da rua, protegido pelo toldo da pizzaria que faliu, tem um homem que faz tempo eu conheço, é o Malaquias.

Com mão à nuca, deitado em pé, tem uma bituca apagada na boca. Apagada, porque ele não fuma desde que a pneumonia pegou firme e veio a tuberculose e foi diagnosticado o enfisema.

Vendedor de vassoura e garrafadas, ajudante de pedreiro, feirante, biriteiro, tocador de tarol em procissão, zabumba em arrasta-pé e caixa de fósforo nas serestas, Malaquias é amante das auroras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário