Noite
passada
Para amanhecer ontem, a madrugada nada
teve de extraordinário. E noites sem pipocos nem zumbis a mim me agradam porque
abro as janelas, assisto ao espetáculo silencioso do céu misterioso.
O universo me desafia a entendê-lo além
dos mistérios, porque leio e respiro o que seja sagrado não como fonte no meio
da mata fechada, mas como clareira, lugar em que me sento, faço uma fogueira
quando sinto frio, me deito com as mãos na nuca, sem horror ao mundo.
Com o engenho humano de escutar o mundo,
não porque me seja sagrado o direito ao espanto, quero sondá-lo sem apelo a
escândalos.
De repente a tela do celular iluminou o
quarto, mas só notei que me telefonavam porque o aparelho vibrava a um palmo do
meu ouvido.
Nem repetirei o palavrão que me assaltou
de pronto, pois, outra vez nesta semana, esqueci o telefone ligado.
Sem vergonha alguma, posso dizer que não
atendi nem olhei quem me ligava de madrugada, pois tolices são desabonadoras.
Compreendo os tolos, mas compreensão não
é benevolência.
Não atendi, mas caí na besteira de ler
as notificações.
Que ignorante tenho sido, nem sabia que
há vinícolas gaúchas que nunca ouviram falar da Declaração Universal dos
Direitos Humanos. E como eu sei que os meus compatriotas sulistas são empresários
ciosos dos deveres trabalhistas em desuso, suplico-lhes que consultem outro
código que afrontam, a CLT. Como em rinha de plantadores de vinhas contra
trabalhadores aviltados é justo metermos o bedelho, assim, para que todo mundo saibamos
honrá-los como veros fraternos e solidários escravocratas, pelos hediondos crimes
cometidos, metamos.
Quantos vestígios de um Brasil tão imperioso,
pombas!
Uma vez acordado, fui à sala desligar o
alarme do despertador cujo pino de acionamento estava destravado.
Abri a janela para sentir o cheiro da
noite molhada. Aproveitei para apagar a lâmpada externa, que, mais uma vez,
esqueci acesa.
Já que me sentei na varanda para fumar,
deixei o pensamento sem amarras, naveguei ao léu das ondas, fui me esquecendo
do atarantado que ando sendo, nem apressei a aurora de logo mais.
Se pensar ao sabor dos acasos é uma
forma de meditação, medito quando estou só. Sem as estripulias da vida diurna, quero-me
sereno.
Pra amanhecer hoje, chove.
Contas e desencontros não abalam meu
sono, mas a chuva tem um barulhinho agradável de se ouvir.
Do outro lado da rua, protegido pelo
toldo da pizzaria que faliu, tem um homem que faz tempo eu conheço, é o
Malaquias.
Com mão à nuca, deitado em pé, tem uma
bituca apagada na boca. Apagada, porque ele não fuma desde que a pneumonia
pegou firme e veio a tuberculose e foi diagnosticado o enfisema.
Vendedor de vassoura e garrafadas, ajudante
de pedreiro, feirante, biriteiro, tocador de tarol em procissão, zabumba em
arrasta-pé e caixa de fósforo nas serestas, Malaquias é amante das auroras.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de março de 2023.
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