terça-feira, 14 de março de 2023

Canção noturna

 

Canção noturna

 

Se é pra se sentir só, melhor acompanhado.

Quando a janela tem cortinas bonitas, a paisagem não fica reduzida ao exterior da casa, ela adentra o cômodo de modo suave. A transição do exterior pro interior se dá de forma emocional, não sentimental.

O formato da janela enquadra, mas o vão é vereda pro que entra e pro que sai. Como membrana de célula, a porosidade torna possível o fluxo. Fluindo, a beleza de perceber-se vivo produz encantamento.

O cotidiano acorda o pensamento, faz com que a mente se debruce sobre a percepção deste estado do espírito. Ou seja, a pessoa que se sente encantada, procura entender-se. A consciência racionaliza, quer compreensível o sentido. Porque pensa, desencanta-se.

A realidade se enreda nas explicações, pois, na mente, elas vão se engatando umas nas outras como se a trama criasse vida. Anestesiada pela razão, a pessoa age como se estivesse tramando melhor. O tecido do que se apresenta como resposta nem aponta pra pergunta.

Que encanto de pessoa vai pra rua enquanto chove?

A lógica do ciclo da água institui que há evaporação, condensação e chuva, mas este mecanismo natural acarreta o incômodo da pessoa que lê por horas, tem a bunda achatada e raciocina: sem almofada no assento da cadeira, o jeito é dar uma volta.

Se isso explica o homem parado debaixo de chuva, é discussão pra quem estuda comportamento humano. Com permanência prolongada, é isso que permite observá-lo sem induções levianas.

Descalço, de óculos e de pijama, eis um homem resignado: há mais de um minuto, está na chuva.

O pijama azul bebê é conhecido. Aquela careca circula pelo bairro faz pouco tempo, há uns seis ou sete anos. O careca de pijama gosta mais da chuva que dos remédios manipulados sob medida.

O camarada azul bebê é criança coberta por rugas. Ele se comporta como fossem justos os oito anos que julga ter. A vizinhança conhece a história da primeira vez. Tocavam dobrado pela Padroeira Aparecida, foi um escândalo. Basta vir um temporal, ele nem sente que se apagam novamente os setenta e nove.

O que emociona é vê-lo tão tranquilo. Por certo, se os especialistas aceitarem o diagnóstico vulgar, a luta é pela impassibilidade por atos e palavras, em pijaminha quarenta e oito.

Há quem surte como diabo pondo abaixo o que encontra pela fuça; esse carequinha, no aguaceiro, ousa ficar parado.

Quem entende de estruturas psíquicas pode dizer o quão vibrante é uma cachola ao querer saber dos efeitos enquanto os produz.

Se crianças brincam em enxurrada, esse careca limpa os óculos.

Tal figura é inconfundível.

O luminoso da farmácia apresenta defeito. Tanto pisca que mexe com o quarteirão. O luminoso da lotérica também pisca. Piscam um e outro, como velhos conhecidos papeando.

O bebê carequinha escuta aquela canção iluminada, tanto gosta de escutá-la que sua alma canta em silêncio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário