quinta-feira, 16 de março de 2023

Mão aberta

 

Mão aberta

 

Quando a campainha soou, por medo de permanecer insensível ao mundo, à mulher agachada bastou aquele único toque para abandonar a caixa de sapatos, cujo ventre aberto expunha fotos e docs.

Antes de entrarem, nomeando folhagens e flores, ela foi específica em suas observações. Vergonhoso é revelar-se relapso, porque jardins são cartões de visita. Diante de canteiros sujos e selvagens, só gentes sujas e selvagens vão querer botar as patas dentro de casa. Nada mais distante da verdade que imaginá-la um antro para bestas indômitas, o que, de maneira alguma, a sua residência era.

“Não semeie sem a necessária preparação da terra, primeiro afofe-a. Não a irrigue em demasia, pois água em abundância mata as raízes. Corrija displicência com intransigência, arrebanhe, um a um, assim que identificá-los, todos os tufos de erva daninha.”

Como os gatos exalam o nonchalance dos charmosos, ela sabia ser agressivamente ordinária com suas unhas elegantes.

Convicta de que é pelo exemplo que se educa, “deixe de nove horas com estas pragas que infestam tudo quanto é cantinho; elas sabem ser bonitinhas apenas para encobrir a desgrama que produzem”, a mulher arrebatou um brotinho de beldroega.

Exaltada como um cão que fareja perigo no cheiro que desconhece, nela latiu forte a compaixão, uma abrupta afeição pelo cuidado com os canteirinhos do seu jardim.

“Roseiras são um tipo de bicho bem traiçoeiro, como o bugio.”

Sem medir a obscuridade do que disse, a mulher largou a plantinha arrancada, que foi acabar aos pés da roseira.

“Meu avô vivia falando que a minha mãe foi moça imprudente, que não punha fé no seu conhecimento de homem do campo. A minha mãe tinha razão, bugio é bicho do mato que não vandaliza penteadeira atrás de vidro de laquê. No calorão da madrugada, era ridículo querer dormir com a janela do quarto fechada.”

Batendo as mãos para limpá-las da terra, a mulher verificou melhor as unhas. Havia terra, e um galhinho fino foi-lhe útil na limpeza.

“Na verdade, quem se parecia muito com bugio era o meu avô.”

Para arrebatar um tufo de capim, ela voltou a ajoelhar-se.

“Com mamãe fazendo as vezes de enfermeira, tive de conviver com ele em nossa casa. Sem receber um real, ela dormia de porta aberta e se levantava para ir acudi-lo ao menor ruído no meio da noite.

Fosse por uma tosse esporádica, ajeitava suas cobertas. Por uma respiração murmurante, tinha um chá quentinho. Quando chamada, ela não tropeçava na angústia de socorrê-lo no que lhe fosse urgente.

O fato é que o meu avô não precisava bater no peito ou escancarar os dentes, suspiros e gemidos já demarcavam a influência.”

A mulher pôs um punhado na mão, friccionou a terra com o polegar.

“O solo anda pobre. Até o cheiro já não é o mesmo.”

Tão logo a senhora ofereceu-lhe um salário e meio:

ꟷ Não sou jardineiro, dona, eu vim pra acertar a internet.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2023.

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