quinta-feira, 9 de março de 2023

Que quartzo!

 

Que quartzo!

 

O professor escrevia datas e nomes relativos à Guerra do Paraguai, as alunas e os alunos copiavam. Com o dever patriótico de copiar datas e nomes, sabiam de cor: baderneiros dançam na vida.

Por conta das centenas de fotos de quem passou as férias na praia, no fundão a aula era outra: não ser apanhado de celular em punho.

Como professores têm olhos na nuca, a história tomou outro curso: que Stanislaw trocasse de lugar com o Torelly ou os aparelhos seriam confiscados.

Embora arteiros costumem contestar, a ordem foi cumprida: aquele à direita passou-se à esquerda, e a pomba da paz pousou no poste.

Era um poste, não o busto de bronze de eminente preboste.

Na dúvida, busque-se num mapa de aplicativo: no Itororó, a Duque de Caxias cruza com a Barão de Itararé.

Para avançar por vereda diversa, há mestres que ministram aula de outro quilate. Pondo em tela que “a criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer”, anote-se que: são oito as barbatanas do tubarão, canguru tem marsúpio; mas cara de pau, até Pinóquio.

Platônicos de plantão, passado o apagador, tirem outra ilação.

Com a luz acesa, o quarto é diminuto. Para tomá-lo do tamanho que se queira, feche-se os olhos. Esvazie-se de imagens; torne profunda a escuridão em que se esteja abarcado. Nem assim o real fica abstraído na circunstância: gente acordada na cama é pinto no lixo.

No escuro, sinta-se a necessidade de conservar-se deitado. Já que a mente é uma máquina de gerar abstrações, não lute consigo.

Se for filosofar, pegue no sono ou acorde pra noite.

Cuide-se para não cair no desassossego de um sonho pesado. Seja precavido, prenda as cobertas. Acalme-se, procure lembrar-se do avô cheio de marra: ronco brabo não deixa ninguém banguela.

Banguela ficou um mochileiro. À traição, o esmurraram.

Uma vez ao ano, por um mês inteiro, o rapaz ficava numa pousada em algum lugar da Calábria, Campânia ou Basilicata.

Pra não aporrinhar com pormenores irrelevantes: foi comendo uma brachola que ele teve a ideia de registrar o que comia.

Foi a solução pro novelo das dívidas: em vez de gastar com cartões-postais para vendê-los no Patropi, o telefone virou instrumento para a reviravolta que tanto carecia.

Antes de postar cada uma das imagens, transformava-a em NFT. E a coleção da comida italiana avolumou-se. Chamou a atenção de muita gente. Criou-se o burburinho. E boca a boca a rede ficou sólida. Havia seguidores relapsos, de curtidas esporádicas, até os fanáticos que não só as davam, cobravam-nas.

Por zap, pediram ao viajante que enviasse uma seleção especial de torrones. Fotos sem truques, e imagens impressas.

Com providências já tomadas, que imbróglio.

Em Itaí, o pacote seguiu ao protocolo, mas, no interior do prédio, a encomenda foi entregue à pessoa que nada esperava da Itália.

Andrea é nome de homem, porca miséria!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2023.

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