domingo, 19 de março de 2023

O imprevisível

 

O imprevisível

 

Uma pessoa, aquele homem com vistosas cãs particularmente nas têmporas, postar-se a um palmo de um portão, em cuja parte posterior está um cão pouco amistoso, é clara demonstração de maturidade.

Como dois mais dois são quatro, o homem se permite impressionar por cães de guarda. Gosta de vê-los belos, com dentes arreganhados, ao natural dos instintos. Fascinante é o olhar deste homem que fala ao celular sobre cal, areia e cimento e nada sobre caninos e rosnado.

Aquele é um cão sem treinamento. Por não estar domesticado para a defesa do território em que vive, do portão para dentro, ele zanza. Se aproxima da grade, recua. Não é por medo que ele urina seguidamente na palmeirinha do jardim.

Quando não há medo, não há coragem.

Não sendo corajoso, é cão que não conhece o valor das tigelinhas de ração, não estima quais sejam as propriedades da água que lhe dão de beber, não define o que vem a ser uma residência privada.

Pelo caráter e não pelo viés, na luta sem classe pela sobrevivência, a raiva do cão dista do ódio humano. Por audácia indômita, certa gente ataca covardemente, à sorrelfa, sorridente.

Antes de Sócrates, disseram: autocontrole é coragem.

Por óbvio, pode-se inferir como aleatória a associação destes dois pensamentos: quem escuta “ontem choveu” não calcula que “amanhã choverá”; quando o telefonema o deixa livre, sai de cena o homem.

Ao bêbado que observa não seja atribuído que ele imagina a grade como espelho, que, face a face, estejam  homem e cão, sombra e luz, veneno e remédio, faca e gume, relâmpago e trovão, carne e unha.

Tão logo o bobalhão de telefone na orelha deixa a praça, o filósofo descalço, este bêbado de alma apaixonada, sossega como aquele cão deitado à sombra da palmeirinha.

O cão talvez pressinta, o bêbado não, mas tem um temporal vindo. Forma-se pros lados da represa; adensam-se as nuvens; uma ventania começa a girar as pás das torres de energia eólica fincadas à margem do espelho d’água, cuja linha torna visível o vento que sopra.

A consciência embriagada desencadeia:

“Você não aprende. Vire e mexe está metido em encrenca. Se você sabia que não tinha dinheiro, por que não pediu trocados? Tanta gente passando e você olhando, besta, aquele zé mané a atiçar o coitado do cachorro atrás do portão. Fosse esperto o bastante teria tirado proveito e pedido dois reais até pro bocó de celular no ouvido. Inteligente seria pedir ao zé ruela que enfiasse a mão no bolso, que desse o suficiente pra outra garrafa. Quem vive de ilusão, vive de autoengano. Não seja outro zé mané com inveja de quem exibe celular na praça. Quem tem memória curta não muda o rumo da prosa. Memorizar não é aprender. Saber de cor a tabuada e conjugar direitinho os verbos, pra quê? Você se perde pelos caminhos, mas a praça volta e meia reaparece no lugar. Faça sol ou chova, você não liga pro mundo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2023.

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