domingo, 12 de março de 2023

A ilha amarela

 

A ilha amarela

 

Lá no fim do infinito, onde o olho suspeita que o silêncio exista como coisa mental, feito alucinação, onde céu e terra se fazem de dupla, com rosto no rosto, desse bolero mudo vem a figura caminhando pra cá.

Bem como o sol da manhã busca o zênite, pra tirar à sombra o que muito diz da seriedade da hora, a mancha enegrecida avança.

A quem lhe marcasse o passo, um taque-taque sem descompasso, esse quem perceberia naquele corpo a firmeza moral da pessoa.

A quem transubstancia distância em massa muscular, essa nuvem materializada gente nem percebe, mas sua cabeça carrega no gris do pensamento: com trabalho a ser feito, mãos e braços trabalharão.

Se pinceladas materialistas retocassem a paisagem, fale-se no sol que ilumina o chão que se move: além do homem, há uma rã.

Dos dois lados da estrada, é brejo.

Não um brejo pantanoso, um recanto. Sem antas, jacarés e sucuris, é brejinho cuja singeleza dispensa panorâmicas de drone. Tão singelo, radiante de vida, com passarinhos, borboletas e joaninhas.

Sem diminuir o passo, o homem vê a tal rã cruzando a estradinha. Antes da ponte, de uma margem à outra, ela passa devagar.

Aceitando a tentação de ignorar as capivaras do banhado, porque o brejo é várzea inundada por chuvas de verão, o observador pode ver que, às costas, o homem leva a sua mochila.

Quem é de hipóteses socioeconômicas diz que o trabalhador, pela necessária preservação da energia, leva somente o essencial, que é a marmita de arroz com feijão.

Por arrazoados ludo-políticos, quem é de sondar o inefável diz que homem algum vive só de arroz e feijão, daí a bola murcha.

Para quem tem outras presunções, o homem que caminha, a rã que salta e a bola murcha não apagam o vasto absurdo do mundo.

Por requisito realista, na fábula os animais humoristas são retirados para que os pensamentos da rã parada à beira do caminho ganhem as devidas aspas.

“Afora marmita e bola murcha, o sujeito dispõe de duas colheres, a de sopa pra comida fria e a outra pro assentamento dos tijolos.”

Embora a poeira colada na pele não produza paradoxos, é razoável que a rã pense que sua opinião tem fundamentações inevitáveis.

“As engrenagens do universo funcionam maravilhosamente porque nem duvidam que são mecanismos perfeitamente funcionais.”

Sentada no banco da pracinha, a uns sete metros do encontro sem estrondo da terra com o asfalto, a pessoa que observa não vê que uma tartaruga entra na cena em construção.

“A bola rolará depois do almoço. Os homens jogarão. Das operárias da obra, nenhuma jogará. Sem árbitro que dê palpites, haverá xingos. Pelo fuzuê do empurra-empurra, a pelada findará.”

O que a tartaruga não conjectura é que à engenheira, sem engasgar com o bife a cavalo, chegam as terríveis notícias de Gaziantepe.

Mais ao fundo, quase à cabeceira da ponte, em meio ao banhado, a frondosa ilha amarela é um ipê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2023.

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