Lá no fim do infinito, onde o olho
suspeita que o silêncio exista como coisa mental, feito alucinação, onde céu e terra
se fazem de dupla, com rosto no rosto, desse bolero mudo vem a figura caminhando
pra cá.
Bem como o sol da manhã busca o zênite,
pra tirar à sombra o que muito diz da seriedade da hora, a mancha enegrecida
avança.
A quem lhe marcasse o passo, um
taque-taque sem descompasso, esse quem perceberia naquele corpo a firmeza moral
da pessoa.
A quem transubstancia distância em massa
muscular, essa nuvem materializada gente nem percebe, mas sua cabeça carrega no
gris do pensamento: com trabalho a ser feito, mãos e braços trabalharão.
Se pinceladas materialistas retocassem a
paisagem, fale-se no sol que ilumina o chão que se move: além do homem, há uma
rã.
Dos dois lados da estrada, é brejo.
Não um brejo pantanoso, um recanto. Sem
antas, jacarés e sucuris, é brejinho cuja singeleza dispensa panorâmicas de
drone. Tão singelo, radiante de vida, com passarinhos, borboletas e joaninhas.
Sem diminuir o passo, o homem vê a tal
rã cruzando a estradinha. Antes da ponte, de uma margem à outra, ela passa devagar.
Aceitando a tentação de ignorar as
capivaras do banhado, porque o brejo é várzea inundada por chuvas de verão, o
observador pode ver que, às costas, o homem leva a sua mochila.
Quem é de hipóteses socioeconômicas diz
que o trabalhador, pela necessária preservação da energia, leva somente o
essencial, que é a marmita de arroz com feijão.
Por arrazoados ludo-políticos, quem é de
sondar o inefável diz que homem algum vive só de arroz e feijão, daí a bola
murcha.
Para quem tem outras presunções, o homem
que caminha, a rã que salta e a bola murcha não apagam o vasto absurdo do mundo.
Por requisito realista, na fábula os animais
humoristas são retirados para que os pensamentos da rã parada à beira do
caminho ganhem as devidas aspas.
“Afora marmita e bola murcha, o sujeito
dispõe de duas colheres, a de sopa pra comida fria e a outra pro assentamento
dos tijolos.”
Embora a poeira colada na pele não
produza paradoxos, é razoável que a rã pense que sua opinião tem fundamentações
inevitáveis.
“As engrenagens do universo funcionam
maravilhosamente porque nem duvidam que são mecanismos perfeitamente
funcionais.”
Sentada no banco da pracinha, a uns sete
metros do encontro sem estrondo da terra com o asfalto, a pessoa que observa
não vê que uma tartaruga entra na cena em construção.
“A bola rolará depois do almoço. Os
homens jogarão. Das operárias da obra, nenhuma jogará. Sem árbitro que dê palpites,
haverá xingos. Pelo fuzuê do empurra-empurra, a pelada findará.”
O que a tartaruga não conjectura é que à
engenheira, sem engasgar com o bife a cavalo, chegam as terríveis notícias de
Gaziantepe.
Mais ao fundo, quase à cabeceira da
ponte, em meio ao banhado, a frondosa ilha amarela é um ipê.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de março de 2023.
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