terça-feira, 21 de março de 2023

Na hora agá

 

Na hora agá

 

Quando a manga está estragada, não vai pro lixo a fruteira. Assim, a vida não fica resumida a pães sem manteiga, há cafés de meia hora e cafezinho com a barriga no tanque. Sim, é para tirar nódoa de manga que se põe de molho em alvejante a camiseta maculada.

Hoje é exemplo do que pode ser chamado de um dia bom.

Estou em dia com os afazeres, ando devagar, olho pros dois lados ao atravessar a rua e dou atenção a quem pede um minuto.

Se a pessoa ganha a vida tentando vender alguma coisa, se batalha na rua por um prato de comida, tenho até dois minutos.

Deixo que apresentem as maravilhas do produto que têm pra hoje, mas não enrolem nem titubeiem. Façam-me nelas acreditar que sabem o que, não só a mim, anunciam ao público em geral.

ꟷ Um instante, por favor. Posso colocar seu nome na oração?

Por não ser indiferente a quem avaliza as respostas que a religião tem a oferecer, não autorizo ninguém que ore por mim. Por um singelo motivo: não oro porque não tenho fé.

Medito; tento dar paz à cachola; busco a serenidade quando escuto música; respiro em silêncio pra que me sossegue o quanto posso. Mas eu só viajo pelo mundo afora com a Pastoral do Beethoven.

ꟷ Senhor, eu vendo sem medo este remédio, porque o produto tem resultado comprovado. Muita gente conhece. Tanta gente sabe que ele dá solução pra dor nas juntas, pro mal jeito no espinhaço, pro cansaço da cuca, pra cabeça que nunca relaxa. Se o senhor experimentar e não sentir melhoras depois de uma semana, venha me procurar que eu lhe devolvo na hora os seus dez reais. Olha, meu amigo, a verdade é uma só: não quero pros outros o que não quero pra mim. Bastou tomar meia garrafa pro sofrimento que eu tinha na sola do pé sumir de vez.

Sei não. Para juntar os cacos do coração, bom é cerveja.

ꟷ O doutor me permite uma palavrinha?

Quem dera estivesse apressado, que a minha real prioridade fosse bebericar uma cervejinha no boteco mais próximo. Mas, abstêmio e de bem com a humanidade, paro para ouvir-lhe o tal palavrório.

ꟷ Doutor, o excelentíssimo não irá se arrepender de ter parado pra de mim ouvir uma história triste, tocante, que mexe com a alma de toda gente que me ouve porque não conto carregando nas tintas da miséria e do padecimento. Falo a verdade, e Deus testemunhe que falo mesmo apenas essa verdade: a vida sabe ser cruel com quem nem tem armas para se defender das injustiças. Doutor, não é pra mim que peço ajuda, é por uma família de inocentes. O senhor há de concordar comigo que inocentes têm sempre que ser protegidos e amparados quando houver necessidade. Lamento dizer, mas é o caso. Excelência, seja solidário. Neste instante, doutor, tem um bando de infelizes querendo, na marra, tirar da praça uma família de maritacas.

ꟷ Doutor, colabore com a causa!

Decidido a quebrar no meio o estilingue que o menino em mim ainda me faz guardar em casa, assino meu nome com letra de forma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2023.

 

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