Quando a manga está estragada, não vai
pro lixo a fruteira. Assim, a vida não fica resumida a pães sem manteiga, há
cafés de meia hora e cafezinho com a barriga no tanque. Sim, é para tirar nódoa
de manga que se põe de molho em alvejante a camiseta maculada.
Hoje é exemplo do que pode ser chamado
de um dia bom.
Estou em dia com os afazeres, ando devagar,
olho pros dois lados ao atravessar a rua e dou atenção a quem pede um minuto.
Se a pessoa ganha a vida tentando vender
alguma coisa, se batalha na rua por um prato de comida, tenho até dois minutos.
Deixo que apresentem as maravilhas do
produto que têm pra hoje, mas não enrolem nem titubeiem. Façam-me nelas acreditar
que sabem o que, não só a mim, anunciam ao público em geral.
ꟷ Um instante, por favor. Posso colocar
seu nome na oração?
Por não ser indiferente a quem avaliza
as respostas que a religião tem a oferecer, não autorizo ninguém que ore por
mim. Por um singelo motivo: não oro porque não tenho fé.
Medito; tento dar paz à cachola; busco a
serenidade quando escuto música; respiro em silêncio pra que me sossegue o
quanto posso. Mas eu só viajo pelo mundo afora com a Pastoral do Beethoven.
ꟷ Senhor, eu vendo sem medo este
remédio, porque o produto tem resultado comprovado. Muita gente conhece. Tanta
gente sabe que ele dá solução pra dor nas juntas, pro mal jeito no espinhaço,
pro cansaço da cuca, pra cabeça que nunca relaxa. Se o senhor experimentar e não
sentir melhoras depois de uma semana, venha me procurar que eu lhe devolvo na
hora os seus dez reais. Olha, meu amigo, a verdade é uma só: não quero pros
outros o que não quero pra mim. Bastou tomar meia garrafa pro sofrimento que eu
tinha na sola do pé sumir de vez.
Sei não. Para juntar os cacos do
coração, bom é cerveja.
ꟷ O doutor me permite uma palavrinha?
Quem dera estivesse apressado, que a
minha real prioridade fosse bebericar uma cervejinha no boteco mais próximo.
Mas, abstêmio e de bem com a humanidade, paro para ouvir-lhe o tal palavrório.
ꟷ Doutor, o excelentíssimo não irá se
arrepender de ter parado pra de mim ouvir uma história triste, tocante, que
mexe com a alma de toda gente que me ouve porque não conto carregando nas
tintas da miséria e do padecimento. Falo a verdade, e Deus testemunhe que falo
mesmo apenas essa verdade: a vida sabe ser cruel com quem nem tem armas para se
defender das injustiças. Doutor, não é pra mim que peço ajuda, é por uma
família de inocentes. O senhor há de concordar comigo que inocentes têm sempre que
ser protegidos e amparados quando houver necessidade. Lamento dizer, mas é o
caso. Excelência, seja solidário. Neste instante, doutor, tem um bando de infelizes
querendo, na marra, tirar da praça uma família de maritacas.
ꟷ Doutor, colabore com a causa!
Decidido a quebrar no meio o estilingue
que o menino em mim ainda me faz guardar em casa, assino meu nome com letra de
forma.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de março de 2023.
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