domingo, 3 de outubro de 2021

Outra história

 

Outra história

 

Não reconheceu, mas foi reconhecido. A pessoa que o chamou pelo nome mereceu, abafados pela máscara, uns grunhidos.

Que sorte a dela, podia considerar positivos os meneios de cabeça, talvez pelo modo do nome pronunciado, o tom de voz a enunciá-lo aos quatro ventos e aqueles sons desprendidos do esquecimento.

Não se viu congelado ao concordar com aquele entusiasmo por ter sido dado como bem de saúde. Ao menos, sua fisionomia era de quem estava forte, sacudido, essas coisas que exames clínicos bisbilhoteiros pegavam afeição por desabrochá-las em regulares testes de sangue e avaliações de esteira.

Salutar é sentir-se provado por uma ligeira passada de olhos?

E do olhar desse mimoso misantropo não chispou nenhum fogacho de amor ao próximo, o que àquela meiga alma não desestimulou a dar felicitações pelo retorno à terra que a ambos era tão familiar.

A conterrânea, cuja identidade estava quase materializada naquele nomezinho, barata que lhe escapava pelos neurônios, não fazia ideia de que a tal da quarentena era fichinha pra quem não saiu tomar uma em alambique a légua e meia do coreto às moscas da matriz nem quis roer no pé cenoura, batata e rabanete, que isso era pra coelhinhos.

Quer tática mais tentadora que petrificar-se como gelo de estátua?

Por acintosa timidez, ele tinha tendência a deixar-se como estava a ver-se como ficava, uma vez que era capaz de moderações irredutíveis e reservas pétreas. Ou seja, era um cara despeitado.

Entretanto, permitia ser convidado a comentar efemérides literárias na rádio, nunca em jornal. E sentia um prazer obsceno escutar aquelas vozes falando das palavras-valise de Joyce ou dos fluxos de Clarice.

Se o soubessem comovido com a própria atuação naquelas horas tão próprias ao sono, ficariam admiradas as pessoas que o pegassem usando do copo d’água pra microfone ou do espelho do banheiro pra câmera. Fazendo-se de rogado por tamanha canastrice, nem dormia, tanto vibrava às fisgadas que lhe arrepiavam as penugens da nuca.

E tudo isso poderia ter-lhe escoado pelos pensamentos afora, mas fez compreender-se como bicho civil, um urso bípede de uma cortesia tal que poderia dar-se explicitamente gentil, humilde, e quiçá amoroso.

Como negar ao amor o amor em troca?

Com o amigo tão perto, ela não teve como resistir e derreteu a frieza dos formalismos com as formalidades do afeto: deu dois beijinhos, um em cada face, e aquele abração. Era, pois, escandalosamente folgazã.

E tinham esse escorpião na moita: a encarnação da adolescência.

Ela, portanto, tomou para si o dever de demonstrar-se sensibilizada. De fato, emocionou-se. Desejou-o enternecido: recordou-lhe o apelido, epíteto há muito não ouvido: Bento da Dita.

Todavia, fique registrado que era Pedro. Por causa do olho de vidro, era Zoio. E pros muito chegados, era Zoinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2021.

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