terça-feira, 14 de abril de 2026

Nua e crua

 

Nua e crua

 

Você indo pela calçada quando mais à frente vai caminhando uma figura cujo jeitão lembra muito um amigo seu. Sem pensar, você chama pelo nome. Na dela, a pessoa vai indo.

Como o barulho está alto, o sujeito não escutou. Só por curiosidade, ele teria virado.

Você grita o nome. Espera. A pessoa não olha.

Não é possível que aquele velho amigo tenha ficado surdo desde a última vez que se falaram. Está fazendo o quê... Duas décadas?

De novo, você diz o nome. Finalmente, ele se vira.

Teria sido melhor se continuasse indo em frente.

Você para, olha pra trás. Quem estaria fazendo tanto estardalhaço? Não tem ninguém. Agindo feito criança, só você.

Seu amigo fez plástica. E daí?

Descobrir que o cara que fez a primeira comunhão junto com você foi capaz de uma peça dessas... Que o amigo fez mudanças no rosto sem nem mandar pelo zap uma foto com a nova cara...

Ele poderia ter pedido o seu número.

Como fica a transparência entre pessoas que são amigas?

E agora isso! Dar com outra pessoa sorrindo em quem você jamais iria pensar que pudesse ter um sorrisinho assim esquisito.

Quanta deselegância. Quanta falta de apreço.

Só que você também sorriu. Amarelo, mas sorriu.

Pensando bem, coloque-se no lugar desse que vai andando como se nada de anormal estivesse acontecendo.

O indivíduo mais indicado a prestar conta de ter torrado uma fortuna na transformação radical da própria aparência é ele.

Viver não dá folga a quem se esforça?

Você sabe que não é fácil acordar cedo todo santo dia.

Você paga caro pelo pão que nem o diabo amassa para você.

Isso de negar a confiança de mandar o zap com a cara nova, chega a ser um ato de traição. Depois a espuma do cão é sua.

Você vai dormir com a barriga roncando, e ronca também.

Você sabe que nem todo mundo está pronto para encarar o espelho quando mais ninguém está olhando.

Deixar as cortinas fechadas não é o mesmo que nem telefonar. E o sujeito nem para enviar o link da vaquinha.

Você não quer causar constrangimentos.

Você precisa da luz do sol.

As dores do outro? A sua mão arma um soquinho...

Você quer ser a janela.

Você, caramba, é essa janela!

Como chave-mestra que escancara portas e portões, você bate nos ombros desse velho amigo com a carne da cara toda esticadona.

Ele não te reconhece.

Com uma cara que é só sorriso, você:

— Tem horas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2026.

domingo, 12 de abril de 2026

O doberman e o ET

 

O doberman e o ET

 

Um homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, já à boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo.

Já que, no supermercado, estão em casa:

“Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. É bem bão. Deixa eu ir, que tô atrasado. Não atrasa pra feijoada, hein? Eu sempre chego antes. Então, tá. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Abração.”

Com o cronista atrás na fila, o sujeito do celular virou-se:

— Nossa! Nem te reconheci.

Só depois de bater no meu braço com o telefone é que tomei pé da cena: o Alcebíades, o cara que já foi, e o Guilherme eram as pessoas que conversavam a um metro e meio de mim.

O cronista os conhece desde o ensino fundamental.

Alcebíades sempre precisa de dinheiro. Ele não se contenta que os matos estejam capinados, ele vende enxadas. Quando o capilé entra, ele urina no chafariz. Há quem diga que o viu roubando as moedas, só para jogar no caça-níqueis do boteco atrás da igreja.

Guilherme é o oposto: nunca deixa governantes falando sozinhos. Como trabalha com comunicação, ele lutou pela instalação do telão na frente da câmara. E jura que nunca será candidato.

— Se minha foto aparecer na urna, é alucinação de bêbado!

Guilherme vê que o cronista tem pinhão na cestinha.

— Eu como pinhão só no inverno.

Como peso de musculação, o cronista brinca com o saco.

— Graças a Deus que o inverno não dura o ano inteiro. Vou falar a verdade. Não sei me controlar quando como pinhão.

— Caramba, cara. Se é pra confessar: eu adoro pinhão.

Já em casa, o cronista ri. Ele odeia pinhão. Trouxe logo seis quilos! A quem pertencerá aquele doberman que salta a cada pinhão que lhe é atirado?

Que a natureza tenha o seu curso, isso não importa ao Guilherme. Toda quarta-feira ele vai comer feijoada. Sempre com o parceiro.

Guilherme e Alcebíades têm esse ritual: jogar porrinha depois que palitam os dentes.

Tomando caipirinha, Guilherme espera. Como nunca foi de ter um relógio com a hora certa, aqueles quinze minutos sempre o autorizam a reclamar de todo mundo.

Na juventude, ele estudou que as uvas viram vinho quando pisadas. Para quem não ganha a vida produzindo vinho, tanto faz que haja areia assoreando parreiras. Na ponta do lápis, importante é o pinhão.

Mais cedo, a caminho da igreja, Alcebíades deu com o cronista:

— Os ventos vão e vêm há milhões de anos. Só que a gente precisa andar a pé. Faz bem você que nem carro tem.

Com as duas patas no chão, este ET rói o osso:

— Com mil truques na cachola, meu chapa, eu voo pela Via-Láctea. E cão algum escaparia de ser abduzido. Aliás, cadê o Brutus?

Pessoa que acende vela antes da chuva, Alcebíades não foi comer feijoada com o amigo. E rezou nove ave-marias e dez pais-nossos.

Ajoelhado, de olhos no Crucificado, Alcebíades assevera:

— É escandaloso, Senhor! É verdadeiramente escandaloso a tevê ter mostrado aquele pinguinzinho zanzando em Cananeia.

Com o doberman babando, o padre fecha a nave-mãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2026.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Imitação perfeita

 

Imitação perfeita

 

No café, enfia a bolacha na xícara. Molinha, a bolacha não machuca a gengiva. A mistura tem mais leite. Cafeína excita os nervos. Daí que não dorme. E tem aula cedinho. É compromisso a que não pode faltar. Tem que pensar no futuro. Quando a gente vê, está velha. Jovem sem tempo pra velhice acaba idoso.

— Que palavra estúpida — idoso. E dizer isso é que nem cortar o dedo.

Ela não vai virar idosa com tatuagens. Será velha com cicatrizes, como a avó.

Ela tem orgulho dela.

A sua avó nasceu bebê. Puxou o rabo do gato. Enfiou a colher no ventilador. Caiu da bicicleta que nem tinha mais as rodinhas. Tomou vacina que nem chorou. Foi estudar no colégio em que a mãe estudou. Namorou quem ela queria. Fez a faculdade que o pai falou para não fazer. Arrumou o emprego que pagava bem. Xingou Getúlio. Votou no Jânio. Marchou pela família. Engravidou. Casou. Pediu demissão para montar a própria banca. Não se arrepende do que gastou com a lua de mel. Os gêmeos ela deixou com a mãe. O pai ralhou. Depois de um mês na Europa, ela voltou no dia do AI-5. Trouxe camisetas e vidrinho de perfume. A boina que ela comprou em Barcelona era apenas uma provocação.

— Esta boina não tem a sua cara, papai?

O pai dela posou para a foto rinhando os dentes. Só que ele não a tirou nunca mais. E foi com a boina numa das mãos que um dia o seu velho chegou com um retrato feito a carvão por um bicho-grilo da Praça da Sé.

A filha viu a assinatura. O pai pagou dez vezes mais o valor que o moço pediu. Era um recado. Como era a advogada do desenhista, pai e filha se abraçaram. O pai pediu que fosse trabalhar numa firma que cuidasse de grilagem de terras. Ela chorou.

Na parede da sala onde bate sol, o carvão nunca descorou.

A mãe e o pai da avó morreram velhinhos. Ela tinha noventa e três. Ele passou dos cem. Nunca ninguém falou que eles eram idosos.

— Tem dia que a mamãe pede pra vovó não abusar.

E a avó vai na piscina. Faz caminhada mesmo no dia que vai nadar. Anda até o sol ficar forte. E volta a pé pra casa. Quando chove ela não sai. Fica andando na esteira. E tem dia que ela dorme na banheira. Ela diz que é bom pra descansar o esqueleto.

Na hora do almoço, a avó inventou de trazer um cachorrinho.

A coisinha mais fofa. Uma bolinha de pelos. Com o peso quase igual da mochila com os cadernos. Um bichinho com a linguinha que não dá nojo de ser lambido na boca.

Só que a sua mãe disse que não era pra deixar. A avó sorriu. Então, o cachorrinho lambia mesmo com a mãe dela olhando que nem quando a gente enfia o dedo no nariz.

Só que daí a sua avó disse bem séria:

— Manú, nada de dar bolacha pro Chubaca.

Chubaca! Que nome mais feio.

Ela mudou. Ele tem cara de Xuxu. A gente conhece a pessoa pelo nome. E tem o coração. Quando o coração fala, a gente escuta. E tem que Xuxu é muito mais bonito. Então, agora o nome dele é Xuxu.

E a avó quis saber se era com cê agá ou com xis. Vê se pode! Ela perguntou se era por causa da Xuxa.

Com as mãozinhas espalmadas e o pezinho tamborilando:

— Que Xuxa?


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2026.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A insânia da vez

 

A insânia da vez

 

Não foi por sugestão de um espírito demoníaco que, lendo crônica alheia, tive a ideia de usar o tal botão da liberdade, o foda-se.

Tão estimulante quanto café, encarei o mundo.

As pessoas usam o botãozinho nas situações mais corriqueiras. Tal utilidade universal é um recurso tão bom que a mão treme menos.

Nesta época, em que tudo se estabelece como embate entre a torta de palmito e a musse de limão, o pastelão é o resolutor universal de adversidades.

Ajustando o soco-inglês, diz a sensata sensatez:

— Tá na cara!

Desde que Buda era Gautama, passa pela mente da boa gente que chupa picolé que a vida seria menos terrível se os neurônios inflassem o bote salva-vidas quando brota um furo na cachola.

Como não dá para impedir que a água leve para o fundo o que não flutua, convém aprender a pensar.

Às pessoas que vestem colete salva-vidas o remador diz que suas preces trouxeram o bote para quatro braçadas da margem.

— Este rio não tem jacarés nem crocodilos.

Ninguém pulou na água.

— Não tenham medo. Estas águas estão livres de piranhas.

Um homem saltou. Ocupado em pegar o boné que saiu da cabeça, nadou até recuperá-lo. Já em terra, ele acenou.

Uma mulher abraçou a filha. A menina disse que tinha medo. A mãe disse que tudo ficaria bem. O remador as empurrou. Porque souberam nadar separadamente, elas chegaram à margem.

Sem se admirar da determinação de ambas, o rapaz que não tirava as mãos dos fones disse que não sabia o tanto que seus braços iriam aguentar. Ele nunca carregou um saco de arroz.

— Cara, eu peso mais de cem quilos.

E o bote estava indo pra mais perto da beira.

— A água nem vai chegar no queixo.

Um senhor, cuja perda muscular indica ter quase cem anos, acende um cigarrinho de palha. Traga uma, duas vezes. Tosse. Traga outra e mais outra. E tosse. Este senhorzinho fala devagar:

— Tá tudo bem. Jesus sabe que o Pai não vai ter problema comigo. Quando eu passar pelos portões, vou jogar xadrez, vou lavar as minhas cuecas e juro que vou fumar bem longe de quem não suporta quem dá um tapinha de boa.

Desde que ganhou o primeiro maço de cigarros no tiro ao alvo num parque de diversões, quando ele ia fazer quatorze anos, o bom homem fala devagarinho:

— Nunca filei cigarro. Nunca escarrei na cara de ninguém. Nunca deixei de fumar um dia sequer.

À porta do Paraíso, São Pedro não hesita. Assim que ouve o relato do recém-afogado, o santo não se deixa enrolar.

O Porteiro Celestial pensou:

O desgraçado não viu as nuvens vindo? Como é que ele não notou que o azul passou a cinzento?

Com cara de quem vive no lado oculto da lua, de fala doce, aquela fala mansinha até demais, o tal fumante:

— E aí, meu chapa, vai ficar nessa moleza?

Fedendo na mente a palha do bote, o portador da chave-mestra:

— Foda-se!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2026.

domingo, 5 de abril de 2026

Encruzilhada

 

Encruzilhada

 

Parado no caminho, sem nenhuma pedra que ajude a lembrá-lo que passara por ali, o homem pensou:

— Devo ter passado por aqui.

Ele coça a cabeça. Há uma montanha mais adiante.

— Irei até lá.

Do sopé ao topo, não faz cálculo algum. Subirá. Leve o tempo que for preciso para chegar lá em cima.

— Lá do alto, vou ver pra onde o caminho vai.

Sem água para beber e sem uma caverna onde deitar-se, o homem anda na direção do monte.

— Só devo ir em frente.

O homem está determinado a chegar ao topo. Sequer lhe ocorre a ideia de que antes tenha percorrido o trecho.

De novo, ele para. Não que tenha pensado na liberdade de escolher o momento certo para esta parada. Tem a boca seca, a cabeça quente e falta-lhe um cantil.

— Não vou achar água cavando com as unhas.

Há de haver algum graveto resistente. Com um pau que lhe sirva de ponteiro, cavaria até brotar o olho d’água.

Assim como parou, assim retomou o passo.

— Não me acontecerá nada. Eu sei. Eu acredito. Se tivesse que me acontecer algum ataque, já teria morrido. Eu confio. Eu aprendo a cada vez que não penso que poderia ter desistido quando era noite.

Assim que se lembra, é noite.

— Parece a réplica do caminho. A noite quer que eu me perca. Ali a montanha. Mais para cá, a curva é pra direita. Depois da montanha, o caminho serpenteia para a esquerda.

Do chão lá do pico dará pra ver: há uma água parada.

— Se reconhecesse a água, seria um lugar perigoso.

Ele falou:

— Perigoso sou eu. Vou arrancá-las, escamas da noite.

O homem gritou:

— Tem que responder quando te ameaçam.

A luz do sol atacou seus olhos. Tão de repente, caiu.

— Não abri nenhum buraco.

Ele quis sair do caminho para fazer um xis com os pés.

— Esta pedra tem que servir. Se depois eu voltar, farei mais um xis.

Mais cedo, ele veio por aqui.

— Sem buraco não há água nem anjo escamoso. Eu decidi que iria marcar a pedra onde quis apoiar minha cabeça.

Ele disse:

— Se mais tarde eu me deitar, vou esperar que as estrelas apontem uma flecha. E o inseto no âmbar diz:

— Não há pegadas que mostrem: vim pra cá.


Rodrigues da Silveira 

Ibiúna, dia 05 de abril de 2026.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fator humano

 

O fator humano

 

Quando a tevê transmite um evento em que alguns seres humanos agigantam a passada, sento-me de costas.

Vim comer um hambúrguer. Pedi batata frita.

Um convidado, especialista em engenharia aeroespacial, comentou que um terço dos brasileiros não acredita que o homem tenha pisado na Lua. Como prova de que caminhamos sobre o solo lunar, ele citou que há dezenas de fotografias das pegadas.

O sal das fritas me fez acenar. Ao garçom, eu disse que o suco de abacaxi era o par que faltava. E a perfeição seria o suco de manga vir o mais rápido operacionalmente possível.

A falta de polpa de abacaxi não era nenhum sinal. O rapaz não me disse para sentar de frente para a transmissão. Já que tudo era ao vivo, menos desejei escutar justificativas.

Na mesa diante da minha, mãe e filha sorriam, brincavam com uma batatinha. O foguete espacial fazia evoluções a um palmo da boca da garotinha. Nhac!

Quando o suco chegou, foi por um beirute que troquei o x-salada ― que eu nem tinha pedido.

O mesmo comentarista falou que a bandeira estar desbotada é por causa dos raios UV. Não há camada de ozônio que proteja o chão do nosso satélite natural.

Derrubo a faca. O funcionário me entrega outra.

Há uma interrupção. Embora o oxigênio líquido já tenha preenchido totalmente o tanque, faz dez minutos que os motores esperam para ser ligados. A fumacinha é evidência de que haverá lançamento.

Abocanho um pedaço do sanduíche.

Em tradução simultânea, informam que há um problema.

As fantasias não me impedem de mastigar.

A apresentadora fala em falha mínima. O comentarista diz que hoje os computadores fazem cálculos complexos numa rapidez espantosa. A apresentadora fala que os técnicos conseguirão corrigir as falhas. E o comentarista retoma a sua fala.

Atualmente os cientistas não precisam lançar na máquina o que era feito no papel. Os cérebros humanos estão preparados para delegar o que antes era um atributo da nossa espécie.

Com equipamentos evoluídos, um zero a menos não será culpa da nossa cachola.

A mãe e a menina vão embora.

A tradutora diz que o sistema de ejetamento está consertado.

A jornalista americana diz que o aquecimento está diminuindo.

O jornalista da tevê brasileira confirma que a contagem regressiva de dez minutos está iniciada. Com sucesso.

Tomei o copo todo. Comi o sanduíche.

Sem saber se selenitas têm carta na manga, desvio dos buracos a caminho de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2026.

terça-feira, 31 de março de 2026

Os rocamboles do Anacleto

 

Os rocamboles do Anacleto

 

No dia 23 de fevereiro, a pessoa mais velha que eu conheço fez 97 anos. Fui abraçá-la, claro. Principalmente, fui escutá-la.

Este amigo tão querido é mesmo um sujeito ímpar. Pelo destemor em contar histórias que fazem dele o mais inventivo seguidor do Barão de Münchausen, o Anacleto é uma das sensações de uma cidadezinha mineira chamada São Francisco do Belo Monte.

Como saímos depois do almoço, pernoitamos em Mariana.

De tão exausto, dormi depois das três. Modo de dizer, pois os pios de uma coruja eram assombrosos. Assim, meio vigilante, meio vigiado, a aurora entrou sem bater.

E foi bom, já que meu estado mental pedia que Hélio corresse tirar de mim os augúrios mais tenebrosos.

Da cama do hotelzinho em Mariana ao abraço no meu aventureiro camarada, até a minha enfermeira poderia vencer a jornada a pé.

São vinte e quatro quilômetros que ela faria em cinco horas, mesmo tendo de parar num posto ― para fazer o número um.

Além de cuidar de mim, a Eurídice é a irmã mais nova do Anacleto. Vivemos juntos o bastante para que nosso filho caçula nos pedisse que batizássemos o Aurélio, o nosso primeiro bisnetinho.

Ela e eu já temos planos pro futuro: vamos nos casar antes de 2029, ano em que ela fará setenta anos.

Minha amada entrou na história quando Ganimedes, o avô paterno do Anacleto, voltou para Minas. Tuberculoso, o grego mais dionisíaco que tive o prazer de servir em Petrópolis foi para casa disposto a morrer na cama em que seus pais o geraram.

A morada da única família grega de São Francisco fica na Serra das Maritacas. Além dessas barulhentinhas, a fazenda tem bois, riachinho e uma capelinha, dedicada à Santa Bárbara.

As mãos da protetora não desviaram o raio que matou Ganimedes. Apesar dos cento e três anos de intelecto intacto, o ancião foi pescar no açude da propriedade. Ao lado do corpo, tinha uma tilápia.

Também tinha uma tilápia no caminho do Anacleto, que, num lapso de racionalidade extrema, programou-se para atravessar a pé o canal de Corinto.

Um mês depois da morte do avô, meu indomável amigo decidiu-se pela travessia que o pai do seu pai realizou em agosto de 1889.

Heráclito não fraquejou. Não mesmo, já que os tabloides de Corinto checaram a informação com o próprio “protegido de Hera”, que saiu se vangloriando pelo Peloponeso inteiro.

Nesse Século XIX, alguém caminhar sobre o gelo em pleno verão europeu era uma façanha. Bravo, Heráclito!

Assim sendo, é verdade que os vinte e quatro quilômetros em linha reta foram feitos, sem nenhum ziguezague, nas relatadas três horas e quarenta e sete minutos.

Como o número 47 entrou na história, urge mencionar que Anacleto derramou champanhe em Carmen Miranda ― numa festa no Palácio Quitandinha.

Segundo ele, foi naquele cassino que, em 1947, a mais brasileirinha dos marquenses acertou no milhar ― casando-se com um americano, produtor de cinema.

Em uma biografia da cantora, pode ser que isso não se revele mais uma rocambolice do meu amigo.

Já que é pra falar de boca cheia: naquele ano de 1947, ao completar 18 anos, Anacleto, em vez de ir servir o Exército, foi para Maracangalha com o Dorival Caymmi.

Foi dessa realidade que nasceu aquela canção...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2026.

domingo, 29 de março de 2026

Desempate

 

Desempate

 

Minutinhos antes das dez, um caminhãozinho para do outro lado da rua. O motorista confere se estão fechados todos os botões da camisa. De ouvidos treinados, ambos assistirão à missa.

Quando o relógio da matriz passa uma semana inteira badalando os seus sinos com dois minutos de atraso, ele diz aos pés apressadões que as perninhas andam pedindo um chazinho de camomila para não ficarem à mercê de palpitações bizarras.

A principal sequela de gente que abusa das ideias é não crer que as garras dos pombos dão outro ritmo aos ponteiros ― pela trepidação.

― E pelo alvoroço que os coitos produzem, nossa!

O fato da hora certa querer chegar dois minutos depois do momento preciso não é nenhum recurso brincalhão da máquina. Há semana que o relógio da matriz fica endiabrado, isso quando os minutinhos cismam de concordar com o mundo, que avisa:

― Atrasos compensam quando adiantamentos são adiados.

Para corroborar que os ponteiros geraram empatia, nós arrolamos o testemunho daquele cidadão que ouve missas do outro lado da rua:

― Ontem fui pegar uma geladeira. E cheguei adiantado. Assim que me viu, o homem abraçou outro carreteiro. Dei como certo e justo que a culpa era dos pombos.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando seus sinos com três minutos adiantados, é louvável especular sobre o futuro. Já que a copulação dos pombos influencia as pessoas, pululam outras segundas intenções.

Segundo o mesmíssimo motorista que transporta bugigangas:

― Daqui sete dias, virei pegar a geladeira que me será entregue. E chegarei atrasado três minutos. E o homem compreenderá que sempre quis fazer jus aos vinte reais da gorjeta.

Depois de um coito bem-sucedido, o pombo apontará:

― Quanto mais curto o voo, mais longuíssimo é o passado.

Quando os sons dos sinos chegam do passado três minutos antes, os sons dos sinos que chegarão dois minutos atrasados saberão a que se destina o amor dos pombos.

Por outro lado, o homem que premia o motorista do futuro acha que está pagando o certo a quem lhe trouxe a geladeira sem conhecer sua esposa ― nem pelo nome.

Tal homem, cuja esposa não conhece o motorista só pela fama, dá eco àquela trepidação que ocorre no meio da missa:

― Assiiiim seeeeja.

E o caminhãozinho não se abala, apenas se constrange.

Quando o chão da praça sente que os minutinhos são o resultado do embate entre o sexo dos pombos e os vinte reais a quem nem devia recebê-los, então, fica confirmado que o valor do bico está na bicada.

Diz o pombo à pomba que arrulha olhando pra baixo:

― A força da vida está na bicadinha em cima da geladeira.

A pomba nem se volta:

― Pinguins, meu amor. E eles quebram o bico quando caem.

Para apoiar nossa intenção de sermos justos, fomos persuadidos a dar o testemunho do ponteirinho:

― Achar que as chances são maiores quando não fazer nada é dar fé que geladeira, caminhãozinho e padre fazem parte de um jogo maior que a vida.

― Par ou ímpar, pombinhos do relógio? ― matuta o vira-lata, bom maroto.

Para que a missa das dez começasse às dez, demos cinquentinha pro rapaz da manutenção do relógio tomar um trago na feira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2026.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia. Sem filhos, eram um casal harmônico. Depois que nasceram, a alegria da desestabilização os fez roucos, pelos gritos; descabelados, por apartarem os briguentos; religiosos, por rezarem durante o sexo ― filhos, filhos, filhos.

Mauro Maurício, o primogênito, gosta de pescaria. Nada o demove de ir cedo pro alto-mar. A sua esposa sempre tem outros planos. Desde o casamento, há vinte e dois anos, quer tirar selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser, e Ele há de querer.

Se não orasse mais, estariam divorciados desde que ela foi atacada por uma frota de caravelas no Ano Novo de 2000. E o maridão lhe deu 50 reais pro protetor solar. Nem foram R$ 100!

O do meio, Paulo Patrício, chegou à maioridade jogando games. E por ter herdado um imóvel, viaja semanalmente para Paraty.

A casa foi posta em testamento por conta das suas palhaçadas num hospital oncológico. Ele colocava nariz vermelho e uma peruca de juba roxa, só a sua figura já fazia rir quem nem tinha casa em Paraty.

Já a filha...

Aquela meninota carinhosa com coelhinhos e chinchilas radicalizou na puberdade. Passou a ler autoajuda, a fazer meditações holísticas. Aderiu a uma ONG, cujos protestos oceanos afora a afastaram de seus pais.

Assim que souberam que Cecília Sueli quase morreu em Abrolhos, há quinze anos não pronunciam o nome dela.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha!

Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz.

― Se não bastasse a idade, um surfista!

Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio. E foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista que nunca foi de pegar onda tem o hábito de ficar na beira-mar. Uma hora por dia, lá está ele a admirar as aves.

Ele até gostaria de chamar de gaivotas, atobás e fragatas, se lhes conhecesse as características.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Como o seu nome é Márcia, ele a chama, ou a ela se refere, pelo seu nome ― Márcia.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2026.

terça-feira, 24 de março de 2026

Patropi premiado

 

Patropi premiado

 

O que penso. O que acho que penso. O que eu sinto quando acho o que penso. O que penso quando acredito ter achado o que tanto eu procurava. O que acontece comigo quando acabo encontrando o que eu nem procurava.

O que eu faço quando nem sei o que vou fazer?

Azeitar o ego. Embora minimizá-lo, ajude. A quem me conhece, é a minha marca pessoal ― o uso da terceira pessoa.

Podemos conversar sobre as tragédias brasileiras, tão cotidianas, tão doridas. Poderíamos debater. Podíamos ter dialogado até o limite, até que o tapa na cara nos leve aos tapinhas nas costas.

― É isso. A mão do dissenso é a mão do consenso.

― Dialógico, dialético e diabético. Não me furte o melodrama, que o meu corpo entra na conjuração.

― Melhor não meter açúcar nesta história.

― Eu poderia dosar, se soubesse como.

― Para lá, para cá e um dedo acima do chão.

― Um dedo abaixo.

― Maravilha! Atolar um dedo na lama.

― Para que os minerais façam com minha pele o que não pagarei aos profissionais.

― Rejuvenescer sem botox.

― Sem rejuvenescimento. Falo de levantar-me do lamaçal pra que as pessoas fiquem horrorizadas com o último vilão.

― O último vilão! Ele nunca deixa de salpicar o pântano dentro da nossa média.

― Um palpite de café, três joinhas de leite e uma escarrada.

― A náusea dá o toque para demover mundos.

― Se o mundo é nauseabundo, tiram-me os óculos.

― Não desligo a tevê nem fecho as abas, e engasgo.

― Ciranda, cirandinha?

O que nego. O que sinto quando acho que consigo negar sem que me chamem hipócrita. O que acho quando creio ter negado o que eu tanto queria negar. O que acontece comigo quando acabo negando o que nem percebia enquanto lavo o rosto.

O que é confessado quando se admite que a alegria depende de a pessoa alegrar-se tanto que já nem tira a moringa do sol?

― Sem gabolices, a moringa vazia é que faz a diferença.

― Como essencial é recriar-se a cada dia, a moringa da gente tem que ser bem tratada. Ela precisa do devido preenchimento.

― Nem pouca água nem pouco sol.

― Pra não mofar nem estorricar, a medida certa.

― Se o milhão de moléculas satisfaz, dobre-se o cobre.

― Porque o zilhão de toneladas consumiu o Cauê, registre-se que a indignação drummondiana corre pelas casas, praças e catedrais.

― Seremos drummondianos até quando Itabira não contribua mais com minérios, mineiros e mineirinhos.

Com quais figurinhas carimbadas fica confirmado que a seriedade do passado nunca negará que o álbum vai se completar amanhã?

― Indivíduos e indivíduas, vamos combinar!

― Sim! Depois da Copa, delatemos uns aos outros!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2026.

domingo, 22 de março de 2026

A muda

 

A muda

 

Às vezes faço coisas pelas quais prefiro nem me desculpar, de tão vexatórias. Sábado passado, em vez de almoçar na casa de um casal amigo, a Clotilde e o Aristeu, fui tomar cerveja. Se apenas bebesse, não teria voltado para casa tão somente de cueca.

Só que o botequim que frequento tem a estufa dos salgadinhos ao lado do caixa. Quem toma cerveja, precisa ir ao banheiro. A chave da salvação fica no caixa, logo...

As portas da desgraça abriram-se: uma coxinha.

― Põe na conta, Olavo.

Os amigos chegaram. Se vieram cedo, beberíamos muito.

A bexiga ganha prioridade quando tenho que me segurar, batendo os dedões dos pés um no outro. E lá fui eu.

De passagem, só pela chave, vi algo comovente. O quibe era de ontem. O último. Antes de seguir o meu caminho, comi-o. Porque sou um sujeito piedoso, não fui capaz de ignorar o coitado. Com aqueles olhinhos suplicando por uma boca, Olavo acrescentou cinco reais na minha conta.

O papo fluía. A boca não ligava pros mosquitos. A língua deu pinta que sabia falar como os anjos.

Por conhecer os meios para impedir que a conversa desandasse, me inclinei. Ouvi melhor, mas não entendi. E anuí.

Como a urina pressionava, fui pro beco ao lado do bar.

Na ruazinha sem saída, o muro é alto, todo rabiscado. Nele há um grafite. Garanto que há beleza. Ele é a reprodução elaboradíssima, e fiel, da capa do volume 4 da obra Nausicaä do Vale do Vento. Além da princesa guerreira que está no título do mangá, Miyazaki pôs ainda Chikuku, que é uma criança.

Quase urino num cachorro que usava o poste.

Na volta para minha banqueta junto ao balcão, fizeram-me parar. Como não atinei de pronto, mostraram-me que estavam equipados. E levaram o dinheiro que tinha na carteira.

― Graças a Deus! Foram bons contigo.

Tomamos outra garrafa.

― Ainda bem que você não anda com cartões.

Dividimos uma porção de calabresa.

― Fazer o B.O. teria que ser a primeira providência.

Sem escolta, fui ao mictório.

Como eu estava demorando pra voltar, bateram na porta. E nada.

O dono do bar abriu-a.

A cena era deplorável: só de cueca, a barriga dava o apoio que eu achava suficiente para lavar a calça, as meias e a reputação.

Em direção ao ralo, um corregozinho amarronzado ia deixando os restos do que havia saído de mim.

Do jeito que me encontraram, levaram-me pro beco. Como o bar não tinha mangueira, baldes e baldes foram necessários. A faxina foi o bastante para que me despachassem pro pronto-socorro.

Fiquei no soro. Deram pílula. Aplicaram sei lá o quê. Se muito não me engano, fiquei lá só uma hora.

Para não estragar o sábado de ninguém:

― Todo mundo pode ficar tranquilo. Hoje eu vim preparado.

Sim. A sacolinha tem mesmo uma muda de roupa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2026.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Evolução científica

 

Evolução científica

 

Para não perder o amigo, digo a verdade. Ele acha que relutância é coisa de gente marrenta. Não sou turrão. Mesmo sabendo que não escrevo ficção científica, o Luisinho insiste.

A ideia é simples: como as pessoas são sessenta por cento água e a água não se conforma em ficar acomodada num baldinho de cinco litros, os seres humanos têm que ser enquadrados.

Quem come batata frita sabe que ela fica mais saborosa quando bem salgadinha. Só que o sal aumenta a pressão. O problema é que a pessoa que come batatinha precisa de guaraná pra tirar a salmoura da boca. E tal combinação ― do sal das fritas com a cafeína do refri ― reforça a lógica da autossabotagem:

― Mais com mais sempre dá menos.

― E isso te leva a deduzir o quê?

Que começam as abelhinhas nos ouvidos. Os pés imploram que o chão não goste de ser o convés do Titanic depois que o barquinho foi abalroado pelo iceberg. O nariz resolve que sangrar é o melhor modo de diminuir a falta de ar. Como a coisa tende a ficar pior, a dorzinha no peito cai bem com o desmaio.

― E o rosto assegura: quando a gente perde os sentidos, tudo que é sólido machuca sem dó.

― Onde estão os benditos robôs que não nos acodem?

― Eis o papel das benditas máquinas: obrigar os seres humanos a serem menos compulsivos.

― Malditos comedores de batata frita!

Luisinho me encara com o desdém de quem conhece a verdade, e precisa dizê-la sem interrupções. Afinal, a verdade só libertará aquele que aceitá-la como o veneno bem dosado que fortalece.

― Foi isso que a tia Maricota te disse, Luisinho?

Ao antever que abrir e fechar geladeira faz bem pros bíceps:

― Pois é, gente que fica abrindo e fechando geladeira está perdida entre o sorvetinho de chocolate e de flocos.

Já que a primeira lei da nova era robótica é a preservação da vida humana, as geladeiras só serão abertas com biometria. Isso impedirá que a pessoa coma torresmo antes de dormir.

Em milionésimos de segundo, o cérebro eletrônico pescará a ficha médica do inconsequente e, sem detença nem trapaças, determinará: nada de comida gordurosa.

― Luisinho, quem come torresmo na hora de dormir?

Para que meu amigo não acabe desterrado no limbo de gente que não confia na inteligência dos seres humanos, recorro ao ChatGPT:

Quando conheceremos geladeira com leitura biométrica?

E a resposta do robozinho é: Entre 3 e 8 anos você deve começar a ver geladeiras com biometria sendo vendidas ― mas como recurso opcional, não padrão.

Luisinho tira o boné, coça a cabeça e completa:

― Para comprar essa geladeira de rico, vou ter de ficar sem fritas por um baita tempo.

Se o ouvisse, Tia Maricota seria certeira:

― E o guaraná também?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2026.