quinta-feira, 9 de abril de 2026

Imitação perfeita

 

Imitação perfeita

 

No café, enfia a bolacha na xícara. Molinha, a bolacha não machuca a gengiva. A mistura tem mais leite. Cafeína excita os nervos. Daí que não dorme. E tem aula cedinho. É compromisso a que não pode faltar. Tem que pensar no futuro. Quando a gente vê, está velha. Jovem sem tempo pra velhice acaba idoso.

— Que palavra estúpida — idoso. E dizer isso é que nem cortar o dedo.

Ela não vai virar idosa com tatuagens. Será velha com cicatrizes, como a avó.

Ela tem orgulho dela.

A sua avó nasceu bebê. Puxou o rabo do gato. Enfiou a colher no ventilador. Caiu da bicicleta que nem tinha mais as rodinhas. Tomou vacina que nem chorou. Foi estudar no colégio em que a mãe estudou. Namorou quem ela queria. Fez a faculdade que o pai falou para não fazer. Arrumou o emprego que pagava bem. Xingou Getúlio. Votou no Jânio. Marchou pela família. Engravidou. Casou. Pediu demissão para montar a própria banca. Não se arrepende do que gastou com a lua de mel. Os gêmeos ela deixou com a mãe. O pai ralhou. Depois de um mês na Europa, ela voltou no dia do AI-5. Trouxe camisetas e vidrinho de perfume. A boina que ela comprou em Barcelona era apenas uma provocação.

— Esta boina não tem a sua cara, papai?

O pai dela posou para a foto rinhando os dentes. Só que ele não a tirou nunca mais. E foi com a boina numa das mãos que um dia o seu velho chegou com um retrato feito a carvão por um bicho-grilo da Praça da Sé.

A filha viu a assinatura. O pai pagou dez vezes mais o valor que o moço pediu. Era um recado. Como era a advogada do desenhista, pai e filha se abraçaram. O pai pediu que fosse trabalhar numa firma que cuidasse de grilagem de terras. Ela chorou.

Na parede da sala onde bate sol, o carvão nunca descorou.

A mãe e o pai da avó morreram velhinhos. Ela tinha noventa e três. Ele passou dos cem. Nunca ninguém falou que eles eram idosos.

— Tem dia que a mamãe pede pra vovó não abusar.

E a avó vai na piscina. Faz caminhada mesmo no dia que vai nadar. Anda até o sol ficar forte. E volta a pé pra casa. Quando chove ela não sai. Fica andando na esteira. E tem dia que ela dorme na banheira. Ela diz que é bom pra descansar o esqueleto.

Na hora do almoço, a avó inventou de trazer um cachorrinho.

A coisinha mais fofa. Uma bolinha de pelos. Com o peso quase igual da mochila com os cadernos. Um bichinho com a linguinha que não dá nojo de ser lambido na boca.

Só que a sua mãe disse que não era pra deixar. A avó sorriu. Então, o cachorrinho lambia mesmo com a mãe dela olhando que nem quando a gente enfia o dedo no nariz.

Só que daí a sua avó disse bem séria:

— Manú, nada de dar bolacha pro Chubaca.

Chubaca! Que nome mais feio.

Ela mudou. Ele tem cara de Xuxu. A gente conhece a pessoa pelo nome. E tem o coração. Quando o coração fala, a gente escuta. E tem que Xuxu é muito mais bonito. Então, agora o nome dele é Xuxu.

E a avó quis saber se era com cê agá ou com xis. Vê se pode! Ela perguntou se era por causa da Xuxa.

Com as mãozinhas espalmadas e o pezinho tamborilando:

— Que Xuxa?


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2026.

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