Imitação
perfeita
No café, enfia a bolacha na xícara.
Molinha, a bolacha não machuca a gengiva. A mistura tem mais leite. Cafeína
excita os nervos. Daí que não dorme. E tem aula cedinho. É compromisso a que
não pode faltar. Tem que pensar no futuro. Quando a gente vê, está velha. Jovem
sem tempo pra velhice acaba idoso.
— Que palavra estúpida — idoso. E dizer
isso é que nem cortar o dedo.
Ela não vai virar idosa com tatuagens.
Será velha com cicatrizes, como a avó.
Ela tem orgulho dela.
A sua avó nasceu bebê. Puxou o rabo do
gato. Enfiou a colher no ventilador. Caiu da bicicleta que nem tinha mais as
rodinhas. Tomou vacina que nem chorou. Foi estudar no colégio em que a mãe
estudou. Namorou quem ela queria. Fez a faculdade que o pai falou para não
fazer. Arrumou o emprego que pagava bem. Xingou Getúlio. Votou no Jânio.
Marchou pela família. Engravidou. Casou. Pediu demissão para montar a própria
banca. Não se arrepende do que gastou com a lua de mel. Os gêmeos ela deixou
com a mãe. O pai ralhou. Depois de um mês na Europa, ela voltou no dia do AI-5.
Trouxe camisetas e vidrinho de perfume. A boina que ela comprou em Barcelona
era apenas uma provocação.
— Esta boina não tem a sua cara, papai?
O pai dela posou para a foto rinhando os
dentes. Só que ele não a tirou nunca mais. E foi com a boina numa das mãos que
um dia o seu velho chegou com um retrato feito a carvão por um bicho-grilo da
Praça da Sé.
A filha viu a assinatura. O pai pagou
dez vezes mais o valor que o moço pediu. Era um recado. Como era a advogada do
desenhista, pai e filha se abraçaram. O pai pediu que fosse trabalhar numa
firma que cuidasse de grilagem de terras. Ela chorou.
Na parede da sala onde bate sol, o
carvão nunca descorou.
A mãe e o pai da avó morreram velhinhos.
Ela tinha noventa e três. Ele passou dos cem. Nunca ninguém falou que eles eram
idosos.
— Tem dia que a mamãe pede pra vovó não
abusar.
E a avó vai na piscina. Faz caminhada
mesmo no dia que vai nadar. Anda até o sol ficar forte. E volta a pé pra casa.
Quando chove ela não sai. Fica andando na esteira. E tem dia que ela dorme na
banheira. Ela diz que é bom pra descansar o esqueleto.
Na hora do almoço, a avó inventou de
trazer um cachorrinho.
A coisinha mais fofa. Uma bolinha de
pelos. Com o peso quase igual da mochila com os cadernos. Um bichinho com a
linguinha que não dá nojo de ser lambido na boca.
Só que a sua mãe disse que não era pra
deixar. A avó sorriu. Então, o cachorrinho lambia mesmo com a mãe dela olhando
que nem quando a gente enfia o dedo no nariz.
Só que daí a sua avó disse bem séria:
— Manú, nada de dar bolacha pro Chubaca.
Chubaca! Que nome mais feio.
Ela mudou. Ele tem cara de Xuxu. A gente
conhece a pessoa pelo nome. E tem o coração. Quando o coração fala, a gente
escuta. E tem que Xuxu é muito mais bonito. Então, agora o nome dele é Xuxu.
E a avó quis saber se era com cê agá ou
com xis. Vê se pode! Ela perguntou se era por causa da Xuxa.
Com as mãozinhas espalmadas e o pezinho
tamborilando:
— Que Xuxa?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 09 de abril de 2026.
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