quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ovidiana

Ovidiana

 

Como me enrolo, paro um momento. Melhor parado do que dar com a cara no batente. Com o frio, batidinhas doem muito mais.

No escuro, puxo o cordão para desfazer o laço. Faz-se nó o que era laço. Quero abrir o capuz; mais o aperto à altura do queixo.

Se não fosse gente, neste instante de cegueira na madrugada, seria prática a visão dos morcegos. Das marmotas. Ou das toupeiras.

Mas, o meu conhecimento de enciclopédia alerta que os morcegos usam o som para não enfiarem a fuça numa empena.

Nunca vi uma toupeira. Logo, toupeiras têm olhos?

Eu conheço uma marmota que enxerga longe, é aquela que ganha a vida saindo da toca para prolongar o inverno ou encurtá-lo.

De acordo com o desejo cristalino de quem patrocina tal espetáculo, muita raposa vira estola em pescoço de pele refinada.

Para pescoços tão ecléticos, haja raposa, vison e chinchila.

Não quero virar raposa, vison ou chinchila.

Como a madrugada anda gelada à breca, me sairia bem hibernando trinta anos nos próximos três meses.

Hibernar. Dormir. Talvez roncar.

E roncaria, tanto e tão fortemente, que acordaria assustado comigo. Despertaria temeroso. E teria garras para arranhar pinheiros, paineiras e ipês. E abraçaria com tal vigor que mudaria afetos em desafetos.

Roncar. Acordar. Deixar o desastroso rastro.

Sem falar que acordaria uma fome monstruosa. E pra matar a fome, as abelhas teriam de crescer magicamente, já que estão morrendo.

E a magia da natureza não está na transformação de lebre em gato; tamborins é que seduzem os mágicos a arrancar do couro a nota grave que atravessa o toque. Funk virando rock.

Fedendo a gambá, dormir. Mas eu não bebo.

Mesmo sem olhar de lince, tiro o capuz.

Todavia, como animal que sangra, a unha de uma mão machuca o canto da unha da outra. Percebo o que faço. Sinto onde dói.

Já que louro que sonha com gavião despenca do poleiro, quero ir à forra, cair na farra, subir a serra, zanzar na feira. Pra bicar pera, laranja, goiaba e uma penca de banana.

Estou com sono. Preciso deixar de ser banana. Quero acreditar em mim. Quero fiar-me no que penso. Quero-me liberado da xepa, da xepa toda. Penso, curo. Lavo o dedo. Haverá feira, e pastel de queijo.

Não bato no peito como gorila. Não temo nas sombras os sombras. Não hei de correr de cobra. Sonho, não aguardo. Semeio e colho.

Sei a que riso a minha pantomima de mico estimula.

A névoa da noite não zurra, umedece. Se apetece, amolece.

Pois ao largo, à espreita, a caravana não disfarça. São hienas e são lobos. Vão em matilhas os matreiros nos descampados das campinas.

O corvo não se espanta com o tamanho do milharal.

A barriga ronca na madrugada fria. Faz muito frio.

Num átimo, percebo que é preciso cobrir a careca. E cubro.

Vejo no espelho o reflexo do rei alce empacado no vão que realço: o luar que me acode acorda o joão-de-barro que traz a aurora: menos aspirina, mais purpurina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de junho de 2022.


terça-feira, 28 de junho de 2022

Banho de alegria

 

Banho de alegria

 

Mal acorda, a menina corre ver se o presente está na sala.

Ele não está.

O que terá acontecido? Será que não fez o pedido como deveria ter feito, com firmeza corajosa em vez de graciosa que respeita? Deveria ter rezado de novo, três vezes já não bastavam? Por que faltou o fervor das crianças que nunca mentem quando rezam, terá sido entregue em outra casa? Por que teve gente que disse que nunca mais iria mentir? Será que escrever à lápis deu a impressão de que não estava louca de tanto que queria? Não teriam entendido a sua letra? Será que escreveu com letra muito miudinha? Deveria ter escrito em letra de forma assim como no cartaz pra tomar vacina? E se tivesse usado caneta que nem os adultos usam? Se caprichasse no inglês com caneta vermelha, vai ter chance de ganhar a bendita bicicleta?

A menina olha a árvore. O suporte está bem encaixado; o vento não vai derrubá-la. Os galhos estão como a ensinaram: de baixo pra cima, dos maiores pros menores; na ponta, a estrela.

Mesmo montada certo, ela não funcionou.

Será que não funciona direito por que fez tudo sozinha? Se mamãe tivesse ajudado, o Papai Noel teria recebido a mensagem? Se o papai tivesse colocado as bolinhas, os ajudantes do Papai Noel apressariam o pedido que não foi enviado? Com os pais orientando tudo, tem como a bicicleta chegar ainda hoje?

A mãe aparece. Por que a árvore se não é Natal?

A filha diz que tem coisa errada.

A mãe verifica. Meu anjo, está tudo certo. A mãe lê a ‘bicleta’ escrita à mão na tira de papel espetada na ponta da estrela. O seu aniversário é um dia diferente do Natal.

A menina quer o mesmo que a prima ganhou de aniversário.

A mãe diz que a prima ganhou uma bicicleta do Papai Noel porque o dia do aniversário dela é perto do Natal, dois dias depois. Que isso é normal quando a gente nasceu perto de um dia importante. Tem quem receba presente no Carnaval ou no Dia de Finados. Só que precisa ter nascido próximo dessas datas que tanta gente tem consideração, não é pelo Carnaval nem por ser Finados.

ꟷ É claro, meu bem, que muita gente ganha presente no Natal, mas a data mais importante na vida de cada pessoa é o dia do aniversário.

ꟷ Se a árvore está como a senhora e o papai sempre montaram, a árvore tinha que ter ajudado a trazer o meu presente. Não é justo que minha prima tenha uma bicicleta tão bonita e eu não.

ꟷ Filhota, a gente tem o dia inteirinho pra resolver isso.

ꟷ A senhora jura que vai ligar pro papai falar pro Papai Noel mandar a minha bicicleta antes do almoço, vai jurar mesmo?

ꟷ Eu juro. Agora o papai está trabalhando. Então, quando for a hora do almoço, pedirei pro Papai Noel que traga hoje. Pode ser que chegue só à noite, porque o Papai Noel mora longe, bem longe. Ele vive lá na Lapônia, minha querida.

Já tirando o pijama pra entrar no banho, a menina disse que sabia que caneta não servia, pois é lápis que fala a língua da Laaapsôniiia!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de junho de 2022.

  

Nota:

Este texto foi inspirado na crônica O beijo 73, de José Carlos Oliveira, disponível em

https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16783/o-beijo-73

 

domingo, 26 de junho de 2022

Cem anos de solidão

 

Cem anos de solidão

 

Chega e-mail. Ter endereço eletrônico reconhecível não o isenta de arapucas no conteúdo. A entrada de correio virtual é que nem coração inocente que não trava como porta de banco, os farsantes têm acesso irrestrito. A prudência adverte precaver-se, uma vez que a identificação da pessoa como remetente talvez não seja algo criterioso.

Faz anos que não se falam. Seria presunçoso supor que haja traços na escrita que permitam alguma segurança para se afirmar quem tenha enviado o e-mail. Mas escrever e despachar são atos diferentes.

Apesar de muitas chateações e tantos prejuízos, a ingenuidade diz pra acreditar que a leitura da mensagem não provocará nenhum revés, já a tolice faz crer que não verá o provável vídeo de gatinho peralta.

Abrir o e-mail, apagá-lo ou adiar a decisão?

Há muitos modos de lidar com o mundo, eis o e-mail:

Estive doente. Tive a sensação de que estava muito mal, tanto que desconfiava de que escondiam de mim o quanto eu realmente estava doente. E fiz exames, tantos exames, muitos desagradáveis, doloridos, invasivos. Alguns foi preciso de serem feitos mais de uma vez. Precisei de ir de médico em médico, como se houvesse um mistério no estado do meu corpo. Na condição de paciente, eu sabia que não era somente o meu corpo que sofria, minha mente acompanhava ou agravava o que ele estava mostrando, certamente ambos, em interação indivisível.

Estar doente traz uma urgência que beira o insuportável. A falta de diagnóstico exato acelera o processo. Não ter o nome preciso provoca dores, tonturas e vômitos. Vomita-se porque o receio de que a comida cause mais sofrimento abala a ponto de ter-se medo de dormir. É dever do doente comer, dormir, medicar-se e, sobretudo, controlar-se.

Manter-se controlado. E pensar no corpo e na mente como agentes. Controlar a respiração para que corpo e alma trabalhem em harmonia.

Pra que o caminho da doença pra saúde seja curto, é preciso querer a cura. Curar-se de dentro pra fora e de fora pra dentro. Tornar-se ativo no processo. Agir na transição do negativo pro positivo, do péssimo pro excelente, do abominável pro adorável.

Aprendi. Senti que aprendi.

Um dia li esta história muito comovente.

Um homem tinha noventa e nove anos quando um dos filhos morreu num acidente de carro. Ele ficou muito triste. Sua tristeza era tanta que os filhos temeram que o pai fosse morrer.

Os filhos trouxeram papel de seda, tesoura, cola e linha. O pai não quis fazer bandeirolas. Mas os filhos cortavam de qualquer jeito e suas linhas eram de uma só cor.

O pai traçou retas num modelo, cortou as bandeirinhas, colou-as de modo aleatório e cruzou as fileiras pelo quintal.

Vendo o céu colorido, o homem compreendeu que o amor pelo filho morto e por seus filhos vivos não tinha nada que ver com bandeirinhas baloiçando à brisa. Ele nunca mais fez bandeirinhas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de junho de 2022.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Felicidade líquida

 

Felicidade líquida

 

Tão doces, bebericam cervejinha.

ꟷ Seria bom ter ido pescar, as contas não reclamariam.

ꟷ E elas são tantas que a gente bem merecia ter ido pescar.

ꟷ É porque relaxa que a vida aprova uma boa pescaria.

ꟷ Cabeça quente atrapalha a vida.

As vozes já aumentadas levemente.

ꟷ O banco não cobra tranquilidade, arrocha pelos juros.

ꟷ É uma vergonha. O banco lucra com gente que não pensa. Basta ver números que parecem bons, soam bem, são menores no valor, que a cabeça de vento nem liga pro aumento das parcelas.

Gole a gole, já um bom tanto alterados.

ꟷ E gerente ajuda quem corre pescar? Gerente diz que ajuda quem piora a situação pagando com o dinheiro que não tem.

ꟷ O pessoal do banco é inteligente, vive tentando. Como a gente é educada, não tem telefonema que não seja atendido, todos os e-mails recebidos merecem resposta. Os links? Não tem link que mandam pro celular que a gente não acesse. Pena que o dinheiro não seja fraterno com pobreza, ele aumenta a miséria indo pros terceiros.

Evitando a estupidez de secar a garrafa, pedem o que nem bebem.

ꟷ Você tem que comprar um barco maior, um que tenha motor forte. Cansa remar, o barquinho atual parece uma canoa mixuruca. E a gente não é atleta pra usar remos. Haja braço!

ꟷ Concordo. Vou financiar uma lancha, pois eu quero potência.

ꟷ Que maravilha! Ir pescar atum no meio do mar.

ꟷ Nada de atum, robalo ou corvina. Bom é pegar marlim.

ꟷ E peixe-espada, então? Será a vitória!

ꟷ Mais do que vitória, é a glória!

Sem anunciar com espalhafato, babam.

ꟷ Quem pegou peixe-espada diz que a gente fica sem dormir. Nem com champanhe nem com cachaça, não dorme.

ꟷ Chega de ficar cochilando em beira de rio.

ꟷ E rio nem tem tainha pra gente assar na telha.

ꟷ Nem robalo nem pargo. Camarão e lagosta? Neca!

ꟷ Não vou voltar pra riachinho que só tem cará.

Lambuzam-se com a saliva.

ꟷ O negócio é levantar peixe graúdo que fica bem na parede.

ꟷ Vou forrar a parede de foto com peixão pra lá de metro.

Eufóricos, perdigotam.

ꟷ Na lancha dá pra tomar sol sem medo de bisbilhoteiro tirando foto da gente que nem repara na audácia da invasão.

ꟷ Lancha, nada! Vou financiar um iate que tenha quarto e cozinha.

ꟷ Nós merecemos, caramba. Chega de pensamento negativo.

ꟷ A gente trabalha que nem jumento. E rala que nem reclama. Está na hora de cobrar uma condição melhor.

ꟷ Claro! Estamos em condições de subir de vida.

Brindam que a cerveja salta pras roupas, pra mesa, pro chão.

ꟷ Viva! Aos pescadores que nunca desanimam.

ꟷ Viva! Aos pescadores!

ꟷ A felicidade é mostrar pro peixe a alegria de honrá-lo. Que ele dê trabalho, canse, que é assim que se põe o troféu na parede.

ꟷ Sem dúvida, a nobreza do peixe está na canseira que ele dá.

Na ponta do lápis, o dono do bar tem tudo somadinho.

ꟷ Viva! Eu aguento tomar um barril.

ꟷ Eu nem sei! Aos sete mares, um brinde! Viva!

Não é por excesso de alegria que o bar vai fechar, já é hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de junho de 2022.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Domingos, o sensato

 

Domingos, o sensato

 

Pelo calcanhar doendo, Cremilda sabe: é inverno.

Dias atrás foram lavados edredom, luvas de lã, cachecóis, moletons forrados. Já que fazia sol, uma montanha de roupa foi pro varal.

O frio vem, vista-se de acordo. É natural cuidar-se. Pelo preço dos remédios e pra esquentar a pança com pinhão e vinho quente.

Não foi penando com as cascatas de quem repudia neve e bonecos de neve que ela sentiu uma veia do peito agulhar o coração, foi lavando aquele gorro de motoqueiro.

Gorro ou toca? Uma balaclava de crochê. Bem bonita. Xadrez, com losangos em degradê. Vermelho, laranja, amarelo: e a série se repete por faixas pela cabeça toda. Desce pela nuca, cobre os ombros, só os olhos ficam à mostra.

Faz tempo que ganhou essa peça do Domingos.

Se bem recorda, havia um terreno baldio entre as casas.

O amigo era muito caprichoso. Cuidava bem da sua horta. Limpava o terreno com enxada. Arrancava matos que brotavam nos canteiros. Borrifava pesticida feito por ele. Tinha horror a agrotóxico, temia matar sem querer joaninhas, formigas, abelhas, os insetinhos de que nem sabia os nomes. E nem só isso, vivia preocupado com beija-flor, borboletas e os vários tipos de passarinhos que vinham esbaldar-se com o que o seu paraíso oferecia. E atarefado, Domingos passava o dia quieto, sem tempo para mexericos irrelevantes.

Dizem que seu pai tomou formicida quando ele era criança. Embora ninguém saiba os porquês de sua mãe tê-lo levado à porta de mosteiro franciscano quando ele era bebezinho. Até hoje muito se especula que seu hábito de comer rabanete teria começado por imitação à carmelita descalça que o batizou num monastério de terra distante. Dizem tantas histórias que isso beira a fábula.

Como pessoa predisposta a fugir de fanfarronices, Cremilda afirma que uma coisa louvável no amigo era o baú debaixo da cama.

Foi em uma noite generosa de frio polar que ele abriu a arca com a chave de bronze que trazia junto ao peito.

Mostrou um pergaminho cheio de ilustrações. Nele, a assinatura era difícil de ser lida. Parecia Founes, porém a forma da maiúscula também sugeria que fosse Nounes.

Uns arabescos góticos ou rococós podem ser bonitos de ver, mas, para embaraçar ainda mais, aquilo estava escrito em latim.

E a vizinha maravilhada com tão precioso tesouro não duvidou que o papel fora lavrado no século 17.

Domingos era senhor do que dizia. Abominava mentiras, mesmo as passadas em latim. Era digno e sério.

E descendo o indicador, o homem foi contando em pormenores que tal árvore mapeava muitas gerações de sua família. No cume daquele triângulo invertido estava o nome de um parente famoso, nascido num lugar chamado El Hogar.

Que ele cobrisse a careca com boina, batesse longas distâncias em bicicleta e se orgulhasse do seu sangue anarquista de La Mancha, ela, como boa amiga, não o vigiava por inveja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de junho de 2022.

domingo, 19 de junho de 2022

Danado de doido

 

Danado de doido

 

Sabe aquela sensação esquisita de que algo de ruim vai acontecer, a pessoa sente que a calma está por um fio e o danado do fiozinho não aguentará a pressão. Diante do instante, arranque-se pela raiz.

Se for para não cutucar os monstros da cachola, dá para segurar a onda ao mudar de assunto, ir cuidar da vida alheia, ir fazer compra, ou mentir um pouquinho, que lagartixa perde o rabo pra se defender.

Perder o rabo pra escapulir de uma vassourada dos infernos é bem diferente do que reagir de maneira apropriada, proporcional, sem ficar caçoando de mão molenga que nem tem força pra desfecho sério.

Tal sentimento, o estranhamento do mundo que aturde de repente, diz que o necessário pulso firme para comportar-se como pessoa nem um tanto amalucada é um beco sem saída quando o fingimento de ser quem não se é fica patente na fraqueza da paciência.

Pra salvar a lavoura, sangue frio. Mas saúvas são a culatra.

O estúrdio, que não consegue esconder a cara de pau, é bola que se oferece à dividida, a toda dividida. Chacotas vêm em avalanche, ao desgraçado resta testar o couro de que é feito; e explode, não murcha.

Quando posto em extrema tensão, o imbecil pune-se pela vergonha de rosnar à própria sombra, ganindo de medo do rabo que tem. Sem a malemolência pra improvisar, coça na pata as pulgas já na barriga.

O que se há de fazer?

Espero servir de exemplo.

Ainda ontem, esqueci a consulta. Peguei em apanhar das gôndolas só o que faltava em casa. Manobrista acossado pelo horário marcado, impus-me rapidez. Bateram na minha canela, não foi grave. Tornaram a bater-me na canela, no mesmo lugar. Era demais, que gente estúpida que nem vê direito por onde passa. Premido pelo tempo, deixei barato e larguei o carrinho pelo meio do caminho.

Sem comer nada, faltou-me açúcar. Desmaiei que foi uma grandeza de lindo. Jaca caindo de madura, ri. Não vendo constrangimento, riram também. Riram comigo. E riram pra mim.

Foi tranquilo, rir faz bem pra gente.

Houve quem achou de rir além da graça. Mesmo não tendo motivo pra ficar rindo, teve quem não soube parar.

Não fui só eu que fiquei sem saber onde enfiar a cara, o desconforto foi se espalhando. Um minuto, vá lá que seja compreensível. Dois, três, quatro, cinco, isso, todavia, ultrapassa o razoável.

Que tal um bamba cantar outra canção de outono? Um samba, um tango, um maxixe que mexe com a mente, que tal?

Vai ver a vida acalenta outra ideia, que seja dado ao mofo daninho o sol que quara, viceja e frutifica.

Sereno, gosto de me afinar por outro timbre. E do abacate plantarei o caroço. Que não atropelo a primavera, venha empós ao inverno.

Não sei se sou augusto com o mundo, a vida, comigo. Não desafino o violino. Pego outro bonde, entro no tom da alegria sem alvoroço.

Com um bocadinho de elegância: doideira é a gravata-borboleta vir pousar no meu gogó, que eu até sorrio endiabrado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2022.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Cara menina

 

Cara menina

 

Não tento entender por que estou fazendo essa cara. Quero saber como um cara pacato que nem eu só a vê de tempos em tempos.

Espelho não mente.

Faz um bocado que ele está refletindo, tanto e profundamente, que nem me reconheço. Não caiu no ensimesmamento assim que me pus diante dele, foi necessário negar-me refletido nos meus traços para lhe facilitar as cogitações, as mais provocantes.

Reparei que eu distorcia a realidade que se me apresentava porque desejava projetar-me no que sentia. Porém, sem reciprocidade.

Sentimentos confundem a mente.

É divertido encarar as caretas. Faço-as com alegria. Elas costumam ser hilárias, bobinhas, brejeiras, variando ao sabor das patacoadas que lembro espontaneamente. As caraças de infelicidade representam-me melancólico, triste, bem jururu, até tão patético. Daí que dramatizo.

Esta diversão dispensa incentivos, mas forço a barra.

Massageio o rosto. Faço bicos. Ponho pra dançar as sobrancelhas. Noto que o manto da insensibilidade tem furos, os olhos.

E vejo que cubro mal a presença que me leva à minha identificação como um relapso bicho-papão. De tão chata, lamento que esta pujante carranca seja irremovível.

Mergulhar na minha carne me faz agudo, machuco-me, dói-me ver como estou. Dores vêm fácil se não sei como evitá-las, são rugas.

Soltar os cachorros não é algo indiferente.

Focinho de um na fuça do outro, assombro-me comigo. A verve das ânsias devora-me. Não espumo. Não escancaro caninos. Raiva passa, rugas ficam. O grisalho nas têmporas também me acomoda.

Sinto que um espírito jovem late num velho desalmado.

Corrijo-me. Quero crer que sim.

Não resisto, descuido de mim pra atentar na vida. Porque viver não custa os olhos da cara. É sério. Quando encanta, é de graça.

Nem toda ruga é de preocupação.

O problema é perder o rumo, andar ao léu do que importa, esquecer que o sonho não precisa de hora marcada, quilômetros rodados.

E cuido de ir lá ꟷ às compras da dispensa; às oito horas da jornada; ao casamento do amigo que não chora nem mama ꟷ, vou nisso aí de ganhar o dia na mesmice de suar o tanto que suporto.

E venho para cá, e como o que dá sustento e durmo o que posso e sonho que o pesadelo dura muito, e fico nessa.

Ando malvisto no pedaço.

Sem meias palavras, a menina dos meus olhos está mudada. Pelo que vejo, essa menina nem é mais uma menina.

A menina que canta, essa espoleta que rebola e dança, ela é já uma senhora dada a recatos. Faltam-me desacatos.

Certas rugas riem.

Recordo-me. A menina imaginária é a serelepe que chupa manga no pé. Espevitada, atira pedras no rio. A sapeca bate figurinha no bafo. A elétrica apanha pipa nos telhados. A moleca arremessa tênis nos fios da esquina. A desbocada joga descalça a pelada no terrão bruto.

De panelaço na janela, de arremedo de sanhaço, de cravo e canela, ela é quem chamo de minha, amada e Gabriela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2022.

terça-feira, 14 de junho de 2022

O homem e seu cão

 

O homem e seu cão

 

Sentado ao sol, espio a praça.

Não saí da casa gelada para resolver algum assunto. Pela canseira de ver-me arrastado às pendengas do dia a dia, dei vazão ao instinto de zanzar sem arrependimento.

O sol não é nenhuma novidade sequer o céu azul. A luminosidade é agradável. À sombra, faz frio. Tudo nos conformes, é outono.

Há eventos que são acontecimentos memoráveis quando tem quem encontre argumentos pra sustentá-los inesquecíveis?

Não é notícia uma equipe da prefeitura limpar um chafariz. Não ter quem registre a manutenção também não é fato relevante.

Entre os funcionários que estão na praça, há somente uma mulher.

Ela subiu numa árvore, podou galhos, desceu. Subiu em outra e fez de novo aquele trabalho. E as árvores foram podadas. Os restos foram jogados na caçamba de um basculante.

Ela e os demais vão embora de micro-ônibus.

Outra equipe chega para substituir aquela.

É hora de capinar matinhos e caiar guias. Estes trabalhadores estão agitados. Falam alto, pelos cotovelos, gracejam, exageram nas piadas, gostam de brincadeiras de mão, não se acham impertinentes.

O serviço demora mais do que o estipulado. A encarregada adverte que a falta de seriedade compromete o desempenho do time. Ninguém a contesta, e tudo fica na mesma.

Sem ter do que reclamar, o motorista apoia-se no micro-ônibus para fumar os seus cigarros mentolados. Ele sabe aproveitar, e vai fumando devagar. Não precisa apressar quem quer que seja, ele tem o dia todo. E hora extra ajuda muito. Caramba, como é bom baforar em paz.

Os ônibus vêm e vão. Os barnabés ralam ou não. Vida que segue.

Não vim pra tomar sol. Lagarteando gostoso, mal sei de mim.

Há pessoas que passam, não param, não cumprimentam ninguém, têm tanta coisa pra fazer que o tempo é curto. E pernas ficam melhores quando usadas corretamente, mantendo a inércia de fins por atingir.

Há pessoas que não se apressam. Quando reconhecem outras, são educadas nos cumprimentos. Se íntimas, as gentilezas são naturais. E gestos espontâneos geram mais naturalidade.

Há pessoas que nem percebem o quão afetuosas elas são. Vivem sem medir o dia pelo bem que fazem aos demais. Tornam mais leve o dia a dia. Não se atrapalham nem estorvam, fazem uma coisa de cada vez e da melhor maneira, sem a aflição de terminar logo. Gostando do que fazem, a alegria e a leveza são contagiantes por contato.

Um homem vem vindo. Um cachorro vem trazendo aquele homem. Os postes balizam o caminho. Nenhum deles é ignorado, ele cheira um por um e todos recebem uma carga da sua urina. Como o cão quer que venham, eles vêm.

São novidade que não ganha destaque ao sol de cada dia. Uma vez que nem o cão nem o homem são os mesmos de ontem. Amanhã eles também estarão diferentes. Talvez se houver ventania ou se o intestino estiver solto. Talvez isso, talvez aquilo.

Com um cão, o homem não causa estranheza.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de junho de 2022.

domingo, 12 de junho de 2022

O desenlace

 

O desenlace

 

Sozinho, é solitário ouvir passos distantes. A cidade não dorme nem um segundo sequer. E há parapeitos em passarelas, pontes, viadutos. Encolhido na cama, o coração silva de vez em quando. E a paixão que rege a fadiga dos ossos estimula à febre. É difícil lidar com homem que treme ao menor sinal de euforia noturna.

A noite veio calma. Em maré crescente, a lua varre o céu com a sua luz silente. Recolhido à chama da mansidão, o namorado quer a flama de quem não se contenta com o futuro.

Querem que pense no que se avizinha. Vem que vem. Com fôlego que assusta um pouco, e faz duvidar que tenha freio. Que seja possível fugir quando a colisão apresentar-se inevitável.

Queria dormir, mas outubro é um meteorito vindo na sua direção. É um tiro disparado do escuro além do horizonte. É o futuro que vem de bem longe. E futuro come o que pega pela frente.

Ê namorado que não dorme, o escuro do quarto não o protege. Sem ganas de defender-se, peça o sono dos cansados, queira sonho menos violento. E o futuro corta o caminho, cruza o amor com a frustração.

A escuridão gela o ar. Respira-se sem conforto. O sopro do rancor confrange o coração. O amargurado inveja quem oferece o que tem de melhor. Não que seja o mais caro, muito especial, sem igual.

Ele vem, e vem pronto pra derrubar quem esbarra, nocautear quem esmurra, zombar quando estapeia, escarrar em boca aberta, topar feito pedra, tontear de fome, imbecilizar com historinha, e causar estragos, tantos, porque é assim, bem assim. E que assim não seja.

O disparate vem de encontro a quem acha de marcar bobeira bem no caminho. Que calendário tem agendas a cumprir, cumpram-se.

Não quer pensar além da conta. Quer o sono, que não vem. Porque outubro há de vir, mas que não venha outro tiro no escuro. Aqueloutro outubro? Não dispare a mentira. Aquele outubro segue evidente. E não houve segredo sequer surpresa. O que foi dito foi o que se cumpriu. E foi assim. Está sendo. Pra que não siga sendo, interrompa-se o fluxo.

Agora é junho. Hoje é domingo. Tem o Dia dos Namorados.

O namorado gostaria de ter comprado um buquê de rosas, enviou a foto. Queria jantar, bombons e motel, e não pôde. E o que pode?

O futuro continua o mesmo. Vem alargando anos, meses, dias. Vem comendo instante a instante. Fazendo cara de que sabe que isso tudo tem acontecido como imaginado, elaborado, implementado. No roteiro do previsto, o futuro são mágoas, feridas, fraturas, fissuras, chagas. O futuro é lágrima que não rola, é o amanhã que não sacia, é a fome da ampulheta desgovernada.

Outubro, outubro, outro rumo pro futuro. Outubro, está muito escuro em junho. Outubro, que futuro?

Amanhece, a namorada acorda. Não sonhou com macarronada ao meio-dia. Ela conta que são duas, são pessoas enamoradas.

Elas que se abracem, se beijem, se desejem.

Com afetuoso pudor, que o amor tenha praça pra se manifestar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2022.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O elefante

 

O elefante

 

Já sei, eu fui o elefante na sala de jantar.

Estava bem desconfiado de que um terremoto sacudiria a modorra, tomando café da manhã foi o que me surpreendeu. Fiquei paralisado, boquiaberto.

Via TV, a minha aposta pro dia foi ratificada.

E não acho café-pequeno sorrir abestalhado, até porque a corrente de eventos desconcertantes começou cedo.

Como se diz, a carranca me pegava de orelha a orelha.

Queria ter engolido o que mastigava. A vida, entretanto, não atende expectativas, nem as suplicadas de joelhos.

Fazer o quê, fui pego de boca na botija. A boca era a minha; a botija, a reação a opinião controversa.

Ouvi. Repeti-a em voz alta, pensei estar meio grogue de sono. Não estava, não. Tinha ouvido a barbaridade. Teve quem a analisasse.

Para que uma opinião seja compreendida com correção, não basta considerar os lados a favor e contra, recomenda-se escolher um deles.

Às vezes, no afã de esmiuçar até a raiz do problema, vai se tirando casca depois de casca, como cebola. Mas nem tudo tem no seu âmago um talinho verde que germina com o tempo. Muita coisa tem vento, tem só o cheiro que agrada ou incomoda.

Penso na água sanitária quando o ralo do banheiro é lavado. Passo mal quando respiro o ar que sobe. Pro nariz não arder, uso a mão. Até um corte de nada queima na hora. Poderia ter calçado luva.

Deve ser por isso que lavo o banheiro de quinze em quinze dias, só encurto o intervalo se a urina seca torna sufocante sentar um instante no vaso.

Costumo abrir uma revista. Leio sem pressa, que o mundo vai estar lá fora ainda que eu demore. Fico o tanto que me for necessário.

Quando as letras saltam da página, a mão agita mole a bandeira de todas as rendições, permaneço o que preciso. Minha digestão engrena melhor quando as tripas rodam sem amuamentos.

No fundo, trago cá dentro esse rebelde que não se sujeita dócil.

Quando criança, brincava de tudo com todos. Adolescente, entrava na moda da turminha. Como ligo pra não dançar, jogo como adulto.

Não sou adulto que se alimenta do bom e do melhor. Custa caro.

Uma bolachinha de banana adoça a boca, como numa boa. Gosto tanto que vou comendo sem calcular o custo. Me delicia o pacote todo.

Que a gastrite esqueça de mim por um momento, e me deixe comer. Acho bom que o estrago ocorra depois, bem mais tarde, que nem vou voltar à origem. Azedo, sem os porquês.

Uma vez empanturrado, com o estômago pegando fogo, quero mais é cutucar a ferida, achar o que muito me contraria.

Biscoito de gergelim não estorvaria o andamento natural do mundo, não mergulharia no contrafluxo. Eu experimentaria a ebulição de vibrar sem rubor, de boca fechada, o mindinho saliente.

Não falo pra inglês ouvir. Que bicho está pegando? Sei que piranha ataca jacaré, mas piracucu come piranha.

Controvérsia pra lá, controvérsia pra cá, controversemos.

No duro, morde em mim um Bakunin que adora pão integral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2022.


terça-feira, 7 de junho de 2022

Milonga da simpatia

 

Milonga da simpatia

 

Como saí com a alma que estava no corpo, tinha que me arranjar. Às vezes, sorrio como imbecil quando ouço besteira das grandes. E há reação que me surpreende, porque o fio afiado do humor solta na lata o que bem entende. Este espírito traz um porco pra chafurdar nas boas maneiras? Sou de ranger os dentes, debochar ou me apagar.

Sentei um instante. Assim que entrei, corri sentar na poltrona atrás da pilastra. Não estava a fim de me exibir, pois nem me acho um cara exibido. Teria de esperar, esperaria como se ali não estivesse.

Se fosse recostar-me no muro do jardim, daria uns cinco minutos à fuzarca dos passarinhos. Buscaria aviões no céu se tivesse realmente algum interesse. Mas, em pé, o meu pescoço latejaria em alarme.

Tenho um desvio num bendito ossinho na nuca, e xeretar no celular com a cabeça inclinada acordaria a dorzinha velha companheira. Tinha que ficar sentado e com o telefone na linha dos olhos, era razoável que me antecipasse aos dramalhões do esqueleto.

Que motivos eu tenho pra confiar em quem faz o que não deve?

Sabendo de antemão que poderia irritar ou irritar-me, sentei, cruzei as pernas, pus-me ereto. Com a cabeça apoiada na coluna, fiz questão de me proporcionar a melhor postura. Quis o estresse sob controle, pra que as chances de não incomodar ninguém aumentassem. Navegaria por páginas e páginas sem Penélope a espetar uma agulha de tricô na minha espinha.

Entre não fazer o que não devia ou um improvável arrependimento, a sala ficou interessante. Entrou uma mulher trazendo uma caixa.

Fiz que não era comigo. Embora acompanhasse a cena de soslaio, apostei no nonchalance. De vez em quando, ergui os olhos eletrizados pela bisbilhotice. Levantei-os com a discrição de quem não tem certeza de que esteja mesmo sendo discreto. Certo, fiz o que devia.

Já a mulher... Coisa encantadora foi vê-la em ação.

Sem exagerar-se fascinante. Ao natural, em sua leveza magnética. Ela foi à assistente, viu confirmado o horário da sua consulta e veio se sentar na poltrona à minha frente.

Eu não a conhecia. Nunca a vira. Nem mesmo ali. E olha que tenho vindo três vezes por semana nos últimos dois meses. Viria mais vezes se o doutor me ouvisse, e a probabilidade de vê-la seria maior.

Não morro de medo de dentista, o que me aborrece mesmo é ficar anestesiado numa cadeira odontológica.

Descartada a dor, o que dará nos nervos, o que me desnorteará, vai ser passar quase uma hora querendo descobrir se o bolo era de morango ou chocolate.

Se pudesse parar de pensar, eu suportaria o papo furado. Meteria o pau no preço da gasolina. Arrancaria a cabeça da inflação. Mandaria pelos ares tudo que aflige, e tanto tira o sono como o apetite.

Na sua hora, a mulher passou ao consultório. Voltaram com o bolo. O aniversariante nem usava luvas. Tinha uma meia dúzia aguardando a vez. Mas, todo mundo comeu um pedaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de junho de 2022.

domingo, 5 de junho de 2022

Pas de deux

 

Pas de deux

 

A mulher ouviu que o mundo não é lugar muito fácil. Nele sobrevive quem faz o possível pra não ficar exposto ao perigo. Como não se deve correr riscos, fundamental é ficar atento. Quando a realidade apresenta um problema que parece sem solução, a inteligência humana descobre um jeito. Porque a humanidade é engenhosa, não há de ser um desafio que a impedirá de superar o que lhe barra seu caminho. Ela acha meios de avançar. Vislumbrando o ponto que lhe favoreça, o homem esperto assegura o passo adiante. E ele faz com que os demais progridam sem sacrifícios inúteis. Para que a sua jornada seja exemplar, o homem não luta em vão. Há propósito e há de haver perseverança. Se a suçuarana ronda a picada, que o facão abra novas trilhas. Se a montanha dificulta o caminho, que a broca esventre a terra. O generoso lega a sua marca. É humano contar com a tenacidade de quem vence na vida. Quem vem atrás que se oriente pelo destemor. Entretanto, há pessoas que não se deixam guiar. E perdidas na travessia sombria, cegas à luz do destino, ignoram-se sem norte.

A mulher soube escutar o que disseram.

O causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade moralmente instrutiva. Que tivesse a força de um pito corretivo. Porque adultos quando precisam tomar bronca, que se sintam sacudidos. Sem que haja espaço pra listar incongruências, falsidades, besteirinhas.

Quem contava começou mal, pois não soube dizer onde aconteceu. Numa cidade, no meio do mato, à beira de rio ou de piscina. À noite, à tarde, de madrugada. Se chovia ou estava abafado. No bar da esquina, comendo pizza, num carro estacionado, indo pro litoral.

Ô historinha mal contada, sem graça, cheia de furos. Precisaria que fosse falada por gente nascida pra mentir sem levantar suspeitas. Que as pessoas ficassem interessadas apenas no que era dito.

Acharam um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. Em esplendor esquisito, cresceu foi uma sombra.

E aquela fumaça era opaca, inodora. Calada, ela flutuava.

O homem tinha o lampião como um tesouro. Se o lampião soltou o gênio, deveria atender os três pedidos. Não roubou e não comprou, foi a sorte que o fez ser o dono. Sendo dono, o certo era que tivesse poder sobre o demônio do lampião.

Como tinha a sensação de que era dono de um demônio do bem, o homem do lampião esperava que houvesse entendimento.

Enquanto pensava, o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta sem freio, achando ridículo não fechar a matraca, ele sabia que um tagarela incomoda muita gente.

Travando ponto a ponto, o segundo pedido veio socorrê-lo. Deveria ter previsto a dificuldade de falar de modo lúcido, coerente, agradável de se ouvir.

Desaparecida a gagueira, o homem nem precisou formular o pedido derradeiro: ele gargalhou com todos os dentes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2022.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Assim, assado

 

Assim, assado

 

Amendoim torrando é tentador. Sem nada pra me tirar de casa, fico de água na boca. Imagino o salgadinho. Só preciso esperar que esfrie pra descascá-lo. Posto a nu, posso temperá-lo ao ponto.

Seco, sem casca, salgado ꟷ é comigo torná-lo irresistível.

Espero o tempo necessário no forno; a areia do gato já foi entregue. A ração dos peixinhos está servida; aguento o que for preciso para não queimar os dedos. Dou conta do cotidiano, vivo simplesmente. Se tirasse a assadeira antes da hora, confirmaria a precipitação.

Seguro as pontas. Assovio uma canção que o instante quer que lhe cante. Canto nada, cantarolo na cabeça. Consigo ouvir o que me põe na cadência do tempo certo. Acho que sim, eu posso cantarolar.

Há pessoas que são guiadas pelo cheiro, não me tomo dessas. São pessoas que salivam porque têm farta imaginação, observo-as porque me quero diferente. Acham bom comer quando querem, negando-se o prazer de sentir as sutilezas do gosto. São essas pessoas arrebatadas que nem se percebem manipuladas pelos sentidos.

Têm olhos, boca e nariz distraídos pela gula, diz a razão.

Penso que vivo de modo simples, sereno, pé no chão. A maior parte do tempo, acredito que consigo dar conta de mim. Não presto conta do que penso. Me responsabilizo pelo que faço, me responsabilizem pelo que realizo. Não cedo um milímetro antes do próximo passo? Concedo a mim o direito de andar, parar, avançar, recuar, saltar, cair, falar, ouvir, morder e assoprar.

Gente que roga praga quando se vê obrigada a transformar desejo em realidade não é gente sem tempo, é quem tem muito que fazer. Pra comer amendoim torrado, precisa ligar o forno? Tem supermercado na esquina, é um pulinho. Paga no cartão pra nem lavar a mão, é óbvio.

Semáforo regula o trânsito, não quem dirige.

Só quem vai ao volante sabe o quanto dói tornar-se obediente a leis que engessam, imobilizam, paralisam. Raciocina o contrafeito.

Se controlam o cruzamento, ele burla. Nem que gaste dez minutos, contornará o problema. Ainda há ruas sem sinal pra asfixiar o livre fluxo de pilotos com suas máquinas potentes.

O amendoim torrado será conduzido em segurança do mercado até sua casa. O amendoim que vem embalado de fábrica pode muito bem ser consumido no carro. Se o amendoim tem código de barras, deveria pagar antes pra comê-lo depois? Coma-se na fila do caixa.

Há quem abra uma lata de refrigerante. Não qualquer refri, mas um guaraná. E um guaranazinho vai bem com amendoinzinho salgado.

Há quem se ache uma pessoa bacana, gente que não menospreza a estupidez quando a gente se manifesta.

Caramba, a gente também tem boca. Que nem é pra ficar engolindo sapo. Uma perna de rã bem temperada, porém!

Putz. Não é todo mundo que ousa fazer o que quer, como bem quer, onde quer, pois acha mesmo que é livre pra ser quem acha que é.

Não é a batata que está assando, é o amendoim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2022.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O monstro

 

O monstro

 

Tentava organizar as ideias mesmo debaixo da garoa. Pensei: que faça sol. Mas a garoinha não me ouviu. Murmurei que o céu ficaria bem melhor se ficasse ensolarado. A garoa fina, irritante, deu uma de surda.

Não sabia como energizar o pensamento. Ainda não sei. Tanto que concluí que a situação me era adversa porque fraquejava. Pois é, nos momentos decisivos, costumo me descontrolar.

Deixo de ser positivo, duvido em demasia, tenho medo.

Quem dera despertasse em mim a potência de domesticar a minha vontade em obra, insistiria na bravura. Que o sol entendesse o pedido, poderia ter mudança. Mas a garoa, bem burrinha, se fez de difícil.

Precisava zombar da coragem que tanto imagino, veio o vento.

Eu podia inocentar a segunda-feira. Ou crer que a fina garoa gelada estava me fazendo um bem. Havia opções. A cabeça não tinha força o bastante pra parar de cismar.

Garoas são o tempo e o ser humano nasce perdedor. O remediável: usa-se guarda-chuva, busca-se abrigo em marquise, ou ambos.

Eu esperava o tempo melhorar quando Luisinho veio conversar.

Lamentamos o clima. Agouramos o dia. Pedimos um cafezinho.

O bom de um cafezinho é que ele nunca falha. Pensamentos bobos surgem. A gente bem que tenta segurar o riso, mas o alívio é maior.

Pessoas que ficam de bem consigo têm esse talento pra fazer o sol brilhar no céu. Basta esquecer-se enquanto ri.

Luisinho inveja os povos, os cientistas malucos, seus doutores que sempre aprimoram as ideias malucas. Ainda que a chuva aperte, o sol castigue como o diabo, o café esfrie no copo, eles nunca desistem.

Pessoa que ri de si vive melhor? Vive o instante.

Ideias malucas são serraia em calçada estreita às sete da manhã? A multidão nem vê o buraco porque tem logo que bater o ponto.

Discordamos por prazer. Gostamos de falar. A gente se desentende como duas cabeças num corpo único.

Ele bebia seu café com açúcar, o meu era sem.

Ele nem ligava pras gotas da garoa, eu me encolhia todo.

Assim na vida, assim na morte, que dá azar ter sorte. Ou não.

Pois um leão alado com bocarra maior que o juízo só tem condições mentais pra julgamentos sumários. Tem que pagar pelo erro. Errar todo mundo erra, e o caminho passa pela criatura porque as pessoas deram de passar pelo mesmo lugar. Elas vão pela via de mão única, passam às portas da caverna da guardiã das estradas e seguem pro abismo.

É abismo o IPVA, o IPTU, o ISS, o INSS.

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são o riso. Xô, abismo!

Devorado por dentro, e por acaso.

Nada de carpa ou cará? Quem dera saber. Não fora num domingo? Quisera lembrar-me. Tinha tratores descendo a Quinze carregados de verdura? Do Pocinho de São Sebastião pra Ibiúna sem TV a cabo, era sábado, o último de maio.

Paga promessa quem pode pagar, quem não pode mas deve, quem precisa dar jeito, quem perde por esperar, quem se desespera.

Quede que ninguém morde a cachorra das gentes?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de maio de 2022.