Cara
menina
Não tento entender por que estou fazendo
essa cara. Quero saber como um cara pacato que nem eu só a vê de tempos em
tempos.
Espelho não mente.
Faz um bocado que ele está refletindo,
tanto e profundamente, que nem me reconheço. Não caiu no ensimesmamento assim
que me pus diante dele, foi necessário negar-me refletido nos meus traços para
lhe facilitar as cogitações, as mais provocantes.
Reparei que eu distorcia a realidade que
se me apresentava porque desejava projetar-me no que sentia. Porém, sem
reciprocidade.
Sentimentos confundem a mente.
É divertido encarar as caretas. Faço-as com
alegria. Elas costumam ser hilárias, bobinhas, brejeiras, variando ao sabor das
patacoadas que lembro espontaneamente. As caraças de infelicidade representam-me
melancólico, triste, bem jururu, até tão patético. Daí que dramatizo.
Esta diversão dispensa incentivos, mas
forço a barra.
Massageio o rosto. Faço bicos. Ponho pra
dançar as sobrancelhas. Noto que o manto da insensibilidade tem furos, os
olhos.
E vejo que cubro mal a presença que me
leva à minha identificação como um relapso bicho-papão. De tão chata, lamento
que esta pujante carranca seja irremovível.
Mergulhar na minha carne me faz agudo,
machuco-me, dói-me ver como estou. Dores vêm fácil se não sei como evitá-las, são
rugas.
Soltar os cachorros não é algo
indiferente.
Focinho de um na fuça do outro, assombro-me
comigo. A verve das ânsias devora-me. Não espumo. Não escancaro caninos. Raiva
passa, rugas ficam. O grisalho nas têmporas também me acomoda.
Sinto que um espírito jovem late num
velho desalmado.
Corrijo-me. Quero crer que sim.
Não resisto, descuido de mim pra atentar
na vida. Porque viver não custa os olhos da cara. É sério. Quando encanta, é de
graça.
Nem toda ruga é de preocupação.
O problema é perder o rumo, andar ao léu
do que importa, esquecer que o sonho não precisa de hora marcada, quilômetros
rodados.
E cuido de ir lá ꟷ às compras da
dispensa; às oito horas da jornada; ao casamento do amigo que não chora nem mama
ꟷ, vou nisso aí de ganhar o dia na mesmice de suar o tanto que suporto.
E venho para cá, e como o que dá sustento
e durmo o que posso e sonho que o pesadelo dura muito, e fico nessa.
Ando malvisto no pedaço.
Sem meias palavras, a menina dos meus
olhos está mudada. Pelo que vejo, essa menina nem é mais uma menina.
A menina que canta, essa espoleta que
rebola e dança, ela é já uma senhora dada a recatos. Faltam-me desacatos.
Certas rugas riem.
Recordo-me. A menina imaginária é a
serelepe que chupa manga no pé. Espevitada, atira pedras no rio. A sapeca bate
figurinha no bafo. A elétrica apanha pipa nos telhados. A moleca arremessa
tênis nos fios da esquina. A desbocada joga descalça a pelada no terrão bruto.
De panelaço na janela, de arremedo de
sanhaço, de cravo e canela, ela é quem chamo de minha, amada e Gabriela.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 16 de junho de 2022.
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