quinta-feira, 16 de junho de 2022

Cara menina

 

Cara menina

 

Não tento entender por que estou fazendo essa cara. Quero saber como um cara pacato que nem eu só a vê de tempos em tempos.

Espelho não mente.

Faz um bocado que ele está refletindo, tanto e profundamente, que nem me reconheço. Não caiu no ensimesmamento assim que me pus diante dele, foi necessário negar-me refletido nos meus traços para lhe facilitar as cogitações, as mais provocantes.

Reparei que eu distorcia a realidade que se me apresentava porque desejava projetar-me no que sentia. Porém, sem reciprocidade.

Sentimentos confundem a mente.

É divertido encarar as caretas. Faço-as com alegria. Elas costumam ser hilárias, bobinhas, brejeiras, variando ao sabor das patacoadas que lembro espontaneamente. As caraças de infelicidade representam-me melancólico, triste, bem jururu, até tão patético. Daí que dramatizo.

Esta diversão dispensa incentivos, mas forço a barra.

Massageio o rosto. Faço bicos. Ponho pra dançar as sobrancelhas. Noto que o manto da insensibilidade tem furos, os olhos.

E vejo que cubro mal a presença que me leva à minha identificação como um relapso bicho-papão. De tão chata, lamento que esta pujante carranca seja irremovível.

Mergulhar na minha carne me faz agudo, machuco-me, dói-me ver como estou. Dores vêm fácil se não sei como evitá-las, são rugas.

Soltar os cachorros não é algo indiferente.

Focinho de um na fuça do outro, assombro-me comigo. A verve das ânsias devora-me. Não espumo. Não escancaro caninos. Raiva passa, rugas ficam. O grisalho nas têmporas também me acomoda.

Sinto que um espírito jovem late num velho desalmado.

Corrijo-me. Quero crer que sim.

Não resisto, descuido de mim pra atentar na vida. Porque viver não custa os olhos da cara. É sério. Quando encanta, é de graça.

Nem toda ruga é de preocupação.

O problema é perder o rumo, andar ao léu do que importa, esquecer que o sonho não precisa de hora marcada, quilômetros rodados.

E cuido de ir lá ꟷ às compras da dispensa; às oito horas da jornada; ao casamento do amigo que não chora nem mama ꟷ, vou nisso aí de ganhar o dia na mesmice de suar o tanto que suporto.

E venho para cá, e como o que dá sustento e durmo o que posso e sonho que o pesadelo dura muito, e fico nessa.

Ando malvisto no pedaço.

Sem meias palavras, a menina dos meus olhos está mudada. Pelo que vejo, essa menina nem é mais uma menina.

A menina que canta, essa espoleta que rebola e dança, ela é já uma senhora dada a recatos. Faltam-me desacatos.

Certas rugas riem.

Recordo-me. A menina imaginária é a serelepe que chupa manga no pé. Espevitada, atira pedras no rio. A sapeca bate figurinha no bafo. A elétrica apanha pipa nos telhados. A moleca arremessa tênis nos fios da esquina. A desbocada joga descalça a pelada no terrão bruto.

De panelaço na janela, de arremedo de sanhaço, de cravo e canela, ela é quem chamo de minha, amada e Gabriela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário