domingo, 26 de junho de 2022

Cem anos de solidão

 

Cem anos de solidão

 

Chega e-mail. Ter endereço eletrônico reconhecível não o isenta de arapucas no conteúdo. A entrada de correio virtual é que nem coração inocente que não trava como porta de banco, os farsantes têm acesso irrestrito. A prudência adverte precaver-se, uma vez que a identificação da pessoa como remetente talvez não seja algo criterioso.

Faz anos que não se falam. Seria presunçoso supor que haja traços na escrita que permitam alguma segurança para se afirmar quem tenha enviado o e-mail. Mas escrever e despachar são atos diferentes.

Apesar de muitas chateações e tantos prejuízos, a ingenuidade diz pra acreditar que a leitura da mensagem não provocará nenhum revés, já a tolice faz crer que não verá o provável vídeo de gatinho peralta.

Abrir o e-mail, apagá-lo ou adiar a decisão?

Há muitos modos de lidar com o mundo, eis o e-mail:

Estive doente. Tive a sensação de que estava muito mal, tanto que desconfiava de que escondiam de mim o quanto eu realmente estava doente. E fiz exames, tantos exames, muitos desagradáveis, doloridos, invasivos. Alguns foi preciso de serem feitos mais de uma vez. Precisei de ir de médico em médico, como se houvesse um mistério no estado do meu corpo. Na condição de paciente, eu sabia que não era somente o meu corpo que sofria, minha mente acompanhava ou agravava o que ele estava mostrando, certamente ambos, em interação indivisível.

Estar doente traz uma urgência que beira o insuportável. A falta de diagnóstico exato acelera o processo. Não ter o nome preciso provoca dores, tonturas e vômitos. Vomita-se porque o receio de que a comida cause mais sofrimento abala a ponto de ter-se medo de dormir. É dever do doente comer, dormir, medicar-se e, sobretudo, controlar-se.

Manter-se controlado. E pensar no corpo e na mente como agentes. Controlar a respiração para que corpo e alma trabalhem em harmonia.

Pra que o caminho da doença pra saúde seja curto, é preciso querer a cura. Curar-se de dentro pra fora e de fora pra dentro. Tornar-se ativo no processo. Agir na transição do negativo pro positivo, do péssimo pro excelente, do abominável pro adorável.

Aprendi. Senti que aprendi.

Um dia li esta história muito comovente.

Um homem tinha noventa e nove anos quando um dos filhos morreu num acidente de carro. Ele ficou muito triste. Sua tristeza era tanta que os filhos temeram que o pai fosse morrer.

Os filhos trouxeram papel de seda, tesoura, cola e linha. O pai não quis fazer bandeirolas. Mas os filhos cortavam de qualquer jeito e suas linhas eram de uma só cor.

O pai traçou retas num modelo, cortou as bandeirinhas, colou-as de modo aleatório e cruzou as fileiras pelo quintal.

Vendo o céu colorido, o homem compreendeu que o amor pelo filho morto e por seus filhos vivos não tinha nada que ver com bandeirinhas baloiçando à brisa. Ele nunca mais fez bandeirinhas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de junho de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário