Chega
e-mail. Ter endereço eletrônico reconhecível não o isenta de arapucas no
conteúdo. A entrada de correio virtual é que nem coração inocente que não trava
como porta de banco, os farsantes têm acesso irrestrito. A prudência adverte
precaver-se, uma vez que a identificação da pessoa como remetente talvez não
seja algo criterioso.
Faz
anos que não se falam. Seria presunçoso supor que haja traços na escrita que permitam
alguma segurança para se afirmar quem tenha enviado o e-mail. Mas escrever e
despachar são atos diferentes.
Apesar
de muitas chateações e tantos prejuízos, a ingenuidade diz pra acreditar que a
leitura da mensagem não provocará nenhum revés, já a tolice faz crer que não verá
o provável vídeo de gatinho peralta.
Abrir
o e-mail, apagá-lo ou adiar a decisão?
Há
muitos modos de lidar com o mundo, eis o e-mail:
Estive
doente. Tive a sensação de que estava muito mal, tanto que desconfiava de que
escondiam de mim o quanto eu realmente estava doente. E fiz exames, tantos
exames, muitos desagradáveis, doloridos, invasivos. Alguns foi preciso de serem
feitos mais de uma vez. Precisei de ir de médico em médico, como se houvesse um
mistério no estado do meu corpo. Na condição de paciente, eu sabia que não era
somente o meu corpo que sofria, minha mente acompanhava ou agravava o que ele
estava mostrando, certamente ambos, em interação indivisível.
Estar
doente traz uma urgência que beira o insuportável. A falta de diagnóstico exato
acelera o processo. Não ter o nome preciso provoca dores, tonturas e vômitos. Vomita-se
porque o receio de que a comida cause mais sofrimento abala a ponto de ter-se
medo de dormir. É dever do doente comer, dormir, medicar-se e, sobretudo,
controlar-se.
Manter-se
controlado. E pensar no corpo e na mente como agentes. Controlar a respiração para
que corpo e alma trabalhem em harmonia.
Pra
que o caminho da doença pra saúde seja curto, é preciso querer a cura. Curar-se
de dentro pra fora e de fora pra dentro. Tornar-se ativo no processo. Agir na
transição do negativo pro positivo, do péssimo pro excelente, do abominável pro
adorável.
Aprendi.
Senti que aprendi.
Um
dia li esta história muito comovente.
Um
homem tinha noventa e nove anos quando um dos filhos morreu num acidente de
carro. Ele ficou muito triste. Sua tristeza era tanta que os filhos temeram que
o pai fosse morrer.
Os
filhos trouxeram papel de seda, tesoura, cola e linha. O pai não quis fazer
bandeirolas. Mas os filhos cortavam de qualquer jeito e suas linhas eram de uma
só cor.
O
pai traçou retas num modelo, cortou as bandeirinhas, colou-as de modo aleatório
e cruzou as fileiras pelo quintal.
Vendo
o céu colorido, o homem compreendeu que o amor pelo filho morto e por seus
filhos vivos não tinha nada que ver com bandeirinhas baloiçando à brisa. Ele
nunca mais fez bandeirinhas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de junho de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário