Danado
de doido
Sabe aquela sensação esquisita de que
algo de ruim vai acontecer, a pessoa sente que a calma está por um fio e o
danado do fiozinho não aguentará a pressão. Diante do instante, arranque-se
pela raiz.
Se for para não cutucar os monstros da
cachola, dá para segurar a onda ao mudar de assunto, ir cuidar da vida alheia, ir
fazer compra, ou mentir um pouquinho, que lagartixa perde o rabo pra se defender.
Perder o rabo pra escapulir de uma
vassourada dos infernos é bem diferente do que reagir de maneira apropriada,
proporcional, sem ficar caçoando de mão molenga que nem tem força pra desfecho
sério.
Tal sentimento, o estranhamento do mundo
que aturde de repente, diz que o necessário pulso firme para comportar-se como
pessoa nem um tanto amalucada é um beco sem saída quando o fingimento de ser
quem não se é fica patente na fraqueza da paciência.
Pra salvar a lavoura, sangue frio. Mas
saúvas são a culatra.
O estúrdio, que não consegue esconder a
cara de pau, é bola que se oferece à dividida, a toda dividida. Chacotas vêm em
avalanche, ao desgraçado resta testar o couro de que é feito; e explode, não murcha.
Quando posto em extrema tensão, o imbecil
pune-se pela vergonha de rosnar à própria sombra, ganindo de medo do rabo que
tem. Sem a malemolência pra improvisar, coça na pata as pulgas já na barriga.
O que se há de fazer?
Espero servir de exemplo.
Ainda ontem, esqueci a consulta. Peguei em
apanhar das gôndolas só o que faltava em casa. Manobrista acossado pelo horário
marcado, impus-me rapidez. Bateram na minha canela, não foi grave. Tornaram a
bater-me na canela, no mesmo lugar. Era demais, que gente estúpida que nem vê direito
por onde passa. Premido pelo tempo, deixei barato e larguei o carrinho pelo
meio do caminho.
Sem comer nada, faltou-me açúcar.
Desmaiei que foi uma grandeza de lindo. Jaca caindo de madura, ri. Não vendo constrangimento,
riram também. Riram comigo. E riram pra mim.
Foi tranquilo, rir faz bem pra gente.
Houve quem achou de rir além da graça. Mesmo
não tendo motivo pra ficar rindo, teve quem não soube parar.
Não fui só eu que fiquei sem saber onde
enfiar a cara, o desconforto foi se espalhando. Um minuto, vá lá que seja
compreensível. Dois, três, quatro, cinco, isso, todavia, ultrapassa o razoável.
Que tal um bamba cantar outra canção de
outono? Um samba, um tango, um maxixe que mexe com a mente, que tal?
Vai ver a vida acalenta outra ideia, que
seja dado ao mofo daninho o sol que quara, viceja e frutifica.
Sereno, gosto de me afinar por outro
timbre. E do abacate plantarei o caroço. Que não atropelo a primavera, venha
empós ao inverno.
Não sei se sou augusto com o mundo, a
vida, comigo. Não desafino o violino. Pego outro bonde, entro no tom da alegria
sem alvoroço.
Com um bocadinho de elegância: doideira é
a gravata-borboleta vir pousar no meu gogó, que eu até sorrio endiabrado.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 19 de junho de 2022.
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