domingo, 19 de junho de 2022

Danado de doido

 

Danado de doido

 

Sabe aquela sensação esquisita de que algo de ruim vai acontecer, a pessoa sente que a calma está por um fio e o danado do fiozinho não aguentará a pressão. Diante do instante, arranque-se pela raiz.

Se for para não cutucar os monstros da cachola, dá para segurar a onda ao mudar de assunto, ir cuidar da vida alheia, ir fazer compra, ou mentir um pouquinho, que lagartixa perde o rabo pra se defender.

Perder o rabo pra escapulir de uma vassourada dos infernos é bem diferente do que reagir de maneira apropriada, proporcional, sem ficar caçoando de mão molenga que nem tem força pra desfecho sério.

Tal sentimento, o estranhamento do mundo que aturde de repente, diz que o necessário pulso firme para comportar-se como pessoa nem um tanto amalucada é um beco sem saída quando o fingimento de ser quem não se é fica patente na fraqueza da paciência.

Pra salvar a lavoura, sangue frio. Mas saúvas são a culatra.

O estúrdio, que não consegue esconder a cara de pau, é bola que se oferece à dividida, a toda dividida. Chacotas vêm em avalanche, ao desgraçado resta testar o couro de que é feito; e explode, não murcha.

Quando posto em extrema tensão, o imbecil pune-se pela vergonha de rosnar à própria sombra, ganindo de medo do rabo que tem. Sem a malemolência pra improvisar, coça na pata as pulgas já na barriga.

O que se há de fazer?

Espero servir de exemplo.

Ainda ontem, esqueci a consulta. Peguei em apanhar das gôndolas só o que faltava em casa. Manobrista acossado pelo horário marcado, impus-me rapidez. Bateram na minha canela, não foi grave. Tornaram a bater-me na canela, no mesmo lugar. Era demais, que gente estúpida que nem vê direito por onde passa. Premido pelo tempo, deixei barato e larguei o carrinho pelo meio do caminho.

Sem comer nada, faltou-me açúcar. Desmaiei que foi uma grandeza de lindo. Jaca caindo de madura, ri. Não vendo constrangimento, riram também. Riram comigo. E riram pra mim.

Foi tranquilo, rir faz bem pra gente.

Houve quem achou de rir além da graça. Mesmo não tendo motivo pra ficar rindo, teve quem não soube parar.

Não fui só eu que fiquei sem saber onde enfiar a cara, o desconforto foi se espalhando. Um minuto, vá lá que seja compreensível. Dois, três, quatro, cinco, isso, todavia, ultrapassa o razoável.

Que tal um bamba cantar outra canção de outono? Um samba, um tango, um maxixe que mexe com a mente, que tal?

Vai ver a vida acalenta outra ideia, que seja dado ao mofo daninho o sol que quara, viceja e frutifica.

Sereno, gosto de me afinar por outro timbre. E do abacate plantarei o caroço. Que não atropelo a primavera, venha empós ao inverno.

Não sei se sou augusto com o mundo, a vida, comigo. Não desafino o violino. Pego outro bonde, entro no tom da alegria sem alvoroço.

Com um bocadinho de elegância: doideira é a gravata-borboleta vir pousar no meu gogó, que eu até sorrio endiabrado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2022.

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