Domingos,
o sensato
Pelo calcanhar doendo, Cremilda sabe: é
inverno.
Dias atrás foram lavados edredom, luvas
de lã, cachecóis, moletons forrados. Já que fazia sol, uma montanha de roupa
foi pro varal.
O frio vem, vista-se de acordo. É natural
cuidar-se. Pelo preço dos remédios e pra esquentar a pança com pinhão e vinho
quente.
Não foi penando com as cascatas de quem
repudia neve e bonecos de neve que ela sentiu uma veia do peito agulhar o coração,
foi lavando aquele gorro de motoqueiro.
Gorro ou toca? Uma balaclava de crochê. Bem
bonita. Xadrez, com losangos em degradê. Vermelho, laranja, amarelo: e a série se
repete por faixas pela cabeça toda. Desce pela nuca, cobre os ombros, só os
olhos ficam à mostra.
Faz tempo que ganhou essa peça do
Domingos.
Se bem recorda, havia um terreno baldio
entre as casas.
O amigo era muito caprichoso. Cuidava
bem da sua horta. Limpava o terreno com enxada. Arrancava matos que brotavam
nos canteiros. Borrifava pesticida feito por ele. Tinha horror a agrotóxico,
temia matar sem querer joaninhas, formigas, abelhas, os insetinhos de que nem
sabia os nomes. E nem só isso, vivia preocupado com beija-flor, borboletas e
os vários tipos de passarinhos que vinham esbaldar-se com o que o seu paraíso
oferecia. E atarefado, Domingos passava o dia quieto, sem tempo para mexericos irrelevantes.
Dizem que seu pai tomou formicida quando
ele era criança. Embora ninguém saiba os porquês de sua mãe tê-lo levado à
porta de mosteiro franciscano quando ele era bebezinho. Até hoje muito se
especula que seu hábito de comer rabanete teria começado por imitação à
carmelita descalça que o batizou num monastério de terra distante. Dizem tantas
histórias que isso beira a fábula.
Como pessoa predisposta a fugir de fanfarronices,
Cremilda afirma que uma coisa louvável no amigo era o baú debaixo da cama.
Foi em uma noite generosa de frio polar
que ele abriu a arca com a chave de bronze que trazia junto ao peito.
Mostrou um pergaminho cheio de
ilustrações. Nele, a assinatura era difícil de ser lida. Parecia Founes, porém
a forma da maiúscula também sugeria que fosse Nounes.
Uns arabescos góticos ou rococós podem
ser bonitos de ver, mas, para embaraçar ainda mais, aquilo estava escrito em
latim.
E a vizinha maravilhada com tão precioso tesouro não duvidou que o papel fora lavrado no século 17.
Domingos era senhor do que dizia. Abominava
mentiras, mesmo as passadas em latim. Era digno e sério.
E descendo o indicador, o homem foi
contando em pormenores que tal árvore mapeava muitas gerações de sua família. No
cume daquele triângulo invertido estava o nome de um parente famoso, nascido
num lugar chamado El Hogar.
Que ele cobrisse a careca com boina, batesse
longas distâncias em bicicleta e se orgulhasse do seu sangue anarquista de La
Mancha, ela, como boa amiga, não o vigiava por inveja.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 21 de junho de 2022.
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