terça-feira, 21 de junho de 2022

Domingos, o sensato

 

Domingos, o sensato

 

Pelo calcanhar doendo, Cremilda sabe: é inverno.

Dias atrás foram lavados edredom, luvas de lã, cachecóis, moletons forrados. Já que fazia sol, uma montanha de roupa foi pro varal.

O frio vem, vista-se de acordo. É natural cuidar-se. Pelo preço dos remédios e pra esquentar a pança com pinhão e vinho quente.

Não foi penando com as cascatas de quem repudia neve e bonecos de neve que ela sentiu uma veia do peito agulhar o coração, foi lavando aquele gorro de motoqueiro.

Gorro ou toca? Uma balaclava de crochê. Bem bonita. Xadrez, com losangos em degradê. Vermelho, laranja, amarelo: e a série se repete por faixas pela cabeça toda. Desce pela nuca, cobre os ombros, só os olhos ficam à mostra.

Faz tempo que ganhou essa peça do Domingos.

Se bem recorda, havia um terreno baldio entre as casas.

O amigo era muito caprichoso. Cuidava bem da sua horta. Limpava o terreno com enxada. Arrancava matos que brotavam nos canteiros. Borrifava pesticida feito por ele. Tinha horror a agrotóxico, temia matar sem querer joaninhas, formigas, abelhas, os insetinhos de que nem sabia os nomes. E nem só isso, vivia preocupado com beija-flor, borboletas e os vários tipos de passarinhos que vinham esbaldar-se com o que o seu paraíso oferecia. E atarefado, Domingos passava o dia quieto, sem tempo para mexericos irrelevantes.

Dizem que seu pai tomou formicida quando ele era criança. Embora ninguém saiba os porquês de sua mãe tê-lo levado à porta de mosteiro franciscano quando ele era bebezinho. Até hoje muito se especula que seu hábito de comer rabanete teria começado por imitação à carmelita descalça que o batizou num monastério de terra distante. Dizem tantas histórias que isso beira a fábula.

Como pessoa predisposta a fugir de fanfarronices, Cremilda afirma que uma coisa louvável no amigo era o baú debaixo da cama.

Foi em uma noite generosa de frio polar que ele abriu a arca com a chave de bronze que trazia junto ao peito.

Mostrou um pergaminho cheio de ilustrações. Nele, a assinatura era difícil de ser lida. Parecia Founes, porém a forma da maiúscula também sugeria que fosse Nounes.

Uns arabescos góticos ou rococós podem ser bonitos de ver, mas, para embaraçar ainda mais, aquilo estava escrito em latim.

E a vizinha maravilhada com tão precioso tesouro não duvidou que o papel fora lavrado no século 17.

Domingos era senhor do que dizia. Abominava mentiras, mesmo as passadas em latim. Era digno e sério.

E descendo o indicador, o homem foi contando em pormenores que tal árvore mapeava muitas gerações de sua família. No cume daquele triângulo invertido estava o nome de um parente famoso, nascido num lugar chamado El Hogar.

Que ele cobrisse a careca com boina, batesse longas distâncias em bicicleta e se orgulhasse do seu sangue anarquista de La Mancha, ela, como boa amiga, não o vigiava por inveja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de junho de 2022.

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