Como
me enrolo, paro um momento. Melhor parado do que dar com a cara no batente. Com
o frio, batidinhas doem muito mais.
No
escuro, puxo o cordão para desfazer o laço. Faz-se nó o que era laço. Quero abrir
o capuz; mais o aperto à altura do queixo.
Se
não fosse gente, neste instante de cegueira na madrugada, seria prática a visão
dos morcegos. Das marmotas. Ou das toupeiras.
Mas,
o meu conhecimento de enciclopédia alerta que os morcegos usam o som para não
enfiarem a fuça numa empena.
Nunca
vi uma toupeira. Logo, toupeiras têm olhos?
Eu
conheço uma marmota que enxerga longe, é aquela que ganha a vida saindo da toca
para prolongar o inverno ou encurtá-lo.
De
acordo com o desejo cristalino de quem patrocina tal espetáculo, muita raposa
vira estola em pescoço de pele refinada.
Para
pescoços tão ecléticos, haja raposa, vison e chinchila.
Não
quero virar raposa, vison ou chinchila.
Como
a madrugada anda gelada à breca, me sairia bem hibernando trinta anos nos
próximos três meses.
Hibernar.
Dormir. Talvez roncar.
E
roncaria, tanto e tão fortemente, que acordaria assustado comigo. Despertaria
temeroso. E teria garras para arranhar pinheiros, paineiras e ipês. E abraçaria
com tal vigor que mudaria afetos em desafetos.
Roncar.
Acordar. Deixar o desastroso rastro.
Sem
falar que acordaria uma fome monstruosa. E pra matar a fome, as abelhas teriam
de crescer magicamente, já que estão morrendo.
E
a magia da natureza não está na transformação de lebre em gato; tamborins é que
seduzem os mágicos a arrancar do couro a nota grave que atravessa o toque. Funk
virando rock.
Fedendo
a gambá, dormir. Mas eu não bebo.
Mesmo
sem olhar de lince, tiro o capuz.
Todavia,
como animal que sangra, a unha de uma mão machuca o canto da unha da outra.
Percebo o que faço. Sinto onde dói.
Já
que louro que sonha com gavião despenca do poleiro, quero ir à forra, cair na
farra, subir a serra, zanzar na feira. Pra bicar pera, laranja, goiaba e uma penca
de banana.
Estou
com sono. Preciso deixar de ser banana. Quero acreditar em mim. Quero fiar-me
no que penso. Quero-me liberado da xepa, da xepa toda. Penso, curo. Lavo o
dedo. Haverá feira, e pastel de queijo.
Não
bato no peito como gorila. Não temo nas sombras os sombras. Não hei de correr de
cobra. Sonho, não aguardo. Semeio e colho.
Sei a que riso a minha pantomima de mico estimula.
A
névoa da noite não zurra, umedece. Se apetece, amolece.
Pois ao largo, à espreita, a caravana não disfarça. São hienas e são lobos. Vão em matilhas os matreiros nos descampados das campinas.
O corvo não se espanta com o tamanho do milharal.
A barriga ronca na madrugada fria. Faz muito frio.
Num átimo, percebo que é preciso cobrir a careca. E cubro.
Vejo no espelho o reflexo do rei alce empacado no vão que realço: o luar que me acode acorda o joão-de-barro que traz a aurora: menos aspirina, mais purpurina.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de junho de 2022.