quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fator humano

 

O fator humano

 

Quando a tevê transmite um evento em que alguns seres humanos agigantam a passada, sento-me de costas.

Vim comer um hambúrguer. Pedi batata frita.

Um convidado, especialista em engenharia aeroespacial, comentou que um terço dos brasileiros não acredita que o homem tenha pisado na Lua. Como prova de que caminhamos sobre o solo lunar, ele citou que há dezenas de fotografias das pegadas.

O sal das fritas me fez acenar. Ao garçom, eu disse que o suco de abacaxi era o par que faltava. E a perfeição seria o suco de manga vir o mais rápido operacionalmente possível.

A falta de polpa de abacaxi não era nenhum sinal. O rapaz não me disse para sentar de frente para a transmissão. Já que tudo era ao vivo, menos desejei escutar justificativas.

Na mesa diante da minha, mãe e filha sorriam, brincavam com uma batatinha. O foguete espacial fazia evoluções a um palmo da boca da garotinha. Nhac!

Quando o suco chegou, foi por um beirute que troquei o x-salada ― que eu nem tinha pedido.

O mesmo comentarista falou que a bandeira estar desbotada é por causa dos raios UV. Não há camada de ozônio que proteja o chão do nosso satélite natural.

Derrubo a faca. O funcionário me entrega outra.

Há uma interrupção. Embora o oxigênio líquido já tenha preenchido totalmente o tanque, faz dez minutos que os motores esperam para ser ligados. A fumacinha é evidência de que haverá lançamento.

Abocanho um pedaço do sanduíche.

Em tradução simultânea, informam que há um problema.

As fantasias não me impedem de mastigar.

A apresentadora fala em falha mínima. O comentarista diz que hoje os computadores fazem cálculos complexos numa rapidez espantosa. A apresentadora fala que os técnicos conseguirão corrigir as falhas. E o comentarista retoma a sua fala.

Atualmente os cientistas não precisam lançar na máquina o que era feito no papel. Os cérebros humanos estão preparados para delegar o que antes era um atributo da nossa espécie.

Com equipamentos evoluídos, um zero a menos não será culpa da nossa cachola.

A mãe e a menina vão embora.

A tradutora diz que o sistema de ejetamento está consertado.

A jornalista americana diz que o aquecimento está diminuindo.

O jornalista da tevê brasileira confirma que a contagem regressiva de dez minutos está iniciada. Com sucesso.

Tomei o copo todo. Comi o sanduíche.

Sem saber se selenitas têm carta na manga, desvio dos buracos a caminho de casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2026.

terça-feira, 31 de março de 2026

Os rocamboles do Anacleto

 

Os rocamboles do Anacleto

 

No dia 23 de fevereiro, a pessoa mais velha que eu conheço fez 97 anos. Fui abraçá-la, claro. Principalmente, fui escutá-la.

Este amigo tão querido é mesmo um sujeito ímpar. Pelo destemor em contar histórias que fazem dele o mais inventivo seguidor do Barão de Münchausen, o Anacleto é uma das sensações de uma cidadezinha mineira chamada São Francisco do Belo Monte.

Como saímos depois do almoço, pernoitamos em Mariana.

De tão exausto, dormi depois das três. Modo de dizer, pois os pios de uma coruja eram assombrosos. Assim, meio vigilante, meio vigiado, a aurora entrou sem bater.

E foi bom, já que meu estado mental pedia que Hélio corresse tirar de mim os augúrios mais tenebrosos.

Da cama do hotelzinho em Mariana ao abraço no meu aventureiro camarada, até a minha enfermeira poderia vencer a jornada a pé.

São vinte e quatro quilômetros que ela faria em cinco horas, mesmo tendo de parar num posto ― para fazer o número um.

Além de cuidar de mim, a Eurídice é a irmã mais nova do Anacleto. Vivemos juntos o bastante para que nosso filho caçula nos pedisse que batizássemos o Aurélio, o nosso primeiro bisnetinho.

Ela e eu já temos planos pro futuro: vamos nos casar antes de 2029, ano em que ela fará setenta anos.

Minha amada entrou na história quando Ganimedes, o avô paterno do Anacleto, voltou para Minas. Tuberculoso, o grego mais dionisíaco que tive o prazer de servir em Petrópolis foi para casa disposto a morrer na cama em que seus pais o geraram.

A morada da única família grega de São Francisco fica na Serra das Maritacas. Além dessas barulhentinhas, a fazenda tem bois, riachinho e uma capelinha, dedicada à Santa Bárbara.

As mãos da protetora não desviaram o raio que matou Ganimedes. Apesar dos cento e três anos de intelecto intacto, o ancião foi pescar no açude da propriedade. Ao lado do corpo, tinha uma tilápia.

Também tinha uma tilápia no caminho do Anacleto, que, num lapso de racionalidade extrema, programou-se para atravessar a pé o canal de Corinto.

Um mês depois da morte do avô, meu indomável amigo decidiu-se pela travessia que o pai do seu pai realizou em agosto de 1889.

Heráclito não fraquejou. Não mesmo, já que os tabloides de Corinto checaram a informação com o próprio “protegido de Hera”, que saiu se vangloriando pelo Peloponeso inteiro.

Nesse Século XIX, alguém caminhar sobre o gelo em pleno verão europeu era uma façanha. Bravo, Heráclito!

Assim sendo, é verdade que os vinte e quatro quilômetros em linha reta foram feitos, sem nenhum ziguezague, nas relatadas três horas e quarenta e sete minutos.

Como o número 47 entrou na história, urge mencionar que Anacleto derramou champanhe em Carmen Miranda ― numa festa no Palácio Quitandinha.

Segundo ele, foi naquele cassino que, em 1947, a mais brasileirinha dos marquenses acertou no milhar ― casando-se com um americano, produtor de cinema.

Em uma biografia da cantora, pode ser que isso não se revele mais uma rocambolice do meu amigo.

Já que é pra falar de boca cheia: naquele ano de 1947, ao completar 18 anos, Anacleto, em vez de ir servir o Exército, foi para Maracangalha com o Dorival Caymmi.

Foi dessa realidade que nasceu aquela canção...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2026.

domingo, 29 de março de 2026

Desempate

 

Desempate

 

Minutinhos antes das dez, um caminhãozinho para do outro lado da rua. O motorista confere se estão fechados todos os botões da camisa. De ouvidos treinados, ambos assistirão à missa.

Quando o relógio da matriz passa uma semana inteira badalando os seus sinos com dois minutos de atraso, ele diz aos pés apressadões que as perninhas andam pedindo um chazinho de camomila para não ficarem à mercê de palpitações bizarras.

A principal sequela de gente que abusa das ideias é não crer que as garras dos pombos dão outro ritmo aos ponteiros ― pela trepidação.

― E pelo alvoroço que os coitos produzem, nossa!

O fato da hora certa querer chegar dois minutos depois do momento preciso não é nenhum recurso brincalhão da máquina. Há semana que o relógio da matriz fica endiabrado, isso quando os minutinhos cismam de concordar com o mundo, que avisa:

― Atrasos compensam quando adiantamentos são adiados.

Para corroborar que os ponteiros geraram empatia, nós arrolamos o testemunho daquele cidadão que ouve missas do outro lado da rua:

― Ontem fui pegar uma geladeira. E cheguei adiantado. Assim que me viu, o homem abraçou outro carreteiro. Dei como certo e justo que a culpa era dos pombos.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando seus sinos com três minutos adiantados, é louvável especular sobre o futuro. Já que a copulação dos pombos influencia as pessoas, pululam outras segundas intenções.

Segundo o mesmíssimo motorista que transporta bugigangas:

― Daqui sete dias, virei pegar a geladeira que me será entregue. E chegarei atrasado três minutos. E o homem compreenderá que sempre quis fazer jus aos vinte reais da gorjeta.

Depois de um coito bem-sucedido, o pombo apontará:

― Quanto mais curto o voo, mais longuíssimo é o passado.

Quando os sons dos sinos chegam do passado três minutos antes, os sons dos sinos que chegarão dois minutos atrasados saberão a que se destina o amor dos pombos.

Por outro lado, o homem que premia o motorista do futuro acha que está pagando o certo a quem lhe trouxe a geladeira sem conhecer sua esposa ― nem pelo nome.

Tal homem, cuja esposa não conhece o motorista só pela fama, dá eco àquela trepidação que ocorre no meio da missa:

― Assiiiim seeeeja.

E o caminhãozinho não se abala, apenas se constrange.

Quando o chão da praça sente que os minutinhos são o resultado do embate entre o sexo dos pombos e os vinte reais a quem nem devia recebê-los, então, fica confirmado que o valor do bico está na bicada.

Diz o pombo à pomba que arrulha olhando pra baixo:

― A força da vida está na bicadinha em cima da geladeira.

A pomba nem se volta:

― Pinguins, meu amor. E eles quebram o bico quando caem.

Para apoiar nossa intenção de sermos justos, fomos persuadidos a dar o testemunho do ponteirinho:

― Achar que as chances são maiores quando não fazer nada é dar fé que geladeira, caminhãozinho e padre fazem parte de um jogo maior que a vida.

― Par ou ímpar, pombinhos do relógio? ― matuta o vira-lata, bom maroto.

Para que a missa das dez começasse às dez, demos cinquentinha pro rapaz da manutenção do relógio tomar um trago na feira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de março de 2026.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia. Sem filhos, eram um casal harmônico. Depois que nasceram, a alegria da desestabilização os fez roucos, pelos gritos; descabelados, por apartarem os briguentos; religiosos, por rezarem durante o sexo ― filhos, filhos, filhos.

Mauro Maurício, o primogênito, gosta de pescaria. Nada o demove de ir cedo pro alto-mar. A sua esposa sempre tem outros planos. Desde o casamento, há vinte e dois anos, quer tirar selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser, e Ele há de querer.

Se não orasse mais, estariam divorciados desde que ela foi atacada por uma frota de caravelas no Ano Novo de 2000. E o maridão lhe deu 50 reais pro protetor solar. Nem foram R$ 100!

O do meio, Paulo Patrício, chegou à maioridade jogando games. E por ter herdado um imóvel, viaja semanalmente para Paraty.

A casa foi posta em testamento por conta das suas palhaçadas num hospital oncológico. Ele colocava nariz vermelho e uma peruca de juba roxa, só a sua figura já fazia rir quem nem tinha casa em Paraty.

Já a filha...

Aquela meninota carinhosa com coelhinhos e chinchilas radicalizou na puberdade. Passou a ler autoajuda, a fazer meditações holísticas. Aderiu a uma ONG, cujos protestos oceanos afora a afastaram de seus pais.

Assim que souberam que Cecília Sueli quase morreu em Abrolhos, há quinze anos não pronunciam o nome dela.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha!

Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz.

― Se não bastasse a idade, um surfista!

Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio. E foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista que nunca foi de pegar onda tem o hábito de ficar na beira-mar. Uma hora por dia, lá está ele a admirar as aves.

Ele até gostaria de chamar de gaivotas, atobás e fragatas, se lhes conhecesse as características.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Como o seu nome é Márcia, ele a chama, ou a ela se refere, pelo seu nome ― Márcia.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2026.

terça-feira, 24 de março de 2026

Patropi premiado

 

Patropi premiado

 

O que penso. O que acho que penso. O que eu sinto quando acho o que penso. O que penso quando acredito ter achado o que tanto eu procurava. O que acontece comigo quando acabo encontrando o que eu nem procurava.

O que eu faço quando nem sei o que vou fazer?

Azeitar o ego. Embora minimizá-lo, ajude. A quem me conhece, é a minha marca pessoal ― o uso da terceira pessoa.

Podemos conversar sobre as tragédias brasileiras, tão cotidianas, tão doridas. Poderíamos debater. Podíamos ter dialogado até o limite, até que o tapa na cara nos leve aos tapinhas nas costas.

― É isso. A mão do dissenso é a mão do consenso.

― Dialógico, dialético e diabético. Não me furte o melodrama, que o meu corpo entra na conjuração.

― Melhor não meter açúcar nesta história.

― Eu poderia dosar, se soubesse como.

― Para lá, para cá e um dedo acima do chão.

― Um dedo abaixo.

― Maravilha! Atolar um dedo na lama.

― Para que os minerais façam com minha pele o que não pagarei aos profissionais.

― Rejuvenescer sem botox.

― Sem rejuvenescimento. Falo de levantar-me do lamaçal pra que as pessoas fiquem horrorizadas com o último vilão.

― O último vilão! Ele nunca deixa de salpicar o pântano dentro da nossa média.

― Um palpite de café, três joinhas de leite e uma escarrada.

― A náusea dá o toque para demover mundos.

― Se o mundo é nauseabundo, tiram-me os óculos.

― Não desligo a tevê nem fecho as abas, e engasgo.

― Ciranda, cirandinha?

O que nego. O que sinto quando acho que consigo negar sem que me chamem hipócrita. O que acho quando creio ter negado o que eu tanto queria negar. O que acontece comigo quando acabo negando o que nem percebia enquanto lavo o rosto.

O que é confessado quando se admite que a alegria depende de a pessoa alegrar-se tanto que já nem tira a moringa do sol?

― Sem gabolices, a moringa vazia é que faz a diferença.

― Como essencial é recriar-se a cada dia, a moringa da gente tem que ser bem tratada. Ela precisa do devido preenchimento.

― Nem pouca água nem pouco sol.

― Pra não mofar nem estorricar, a medida certa.

― Se o milhão de moléculas satisfaz, dobre-se o cobre.

― Porque o zilhão de toneladas consumiu o Cauê, registre-se que a indignação drummondiana corre pelas casas, praças e catedrais.

― Seremos drummondianos até quando Itabira não contribua mais com minérios, mineiros e mineirinhos.

Com quais figurinhas carimbadas fica confirmado que a seriedade do passado nunca negará que o álbum vai se completar amanhã?

― Indivíduos e indivíduas, vamos combinar!

― Sim! Depois da Copa, delatemos uns aos outros!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de março de 2026.

domingo, 22 de março de 2026

A muda

 

A muda

 

Às vezes faço coisas pelas quais prefiro nem me desculpar, de tão vexatórias. Sábado passado, em vez de almoçar na casa de um casal amigo, a Clotilde e o Aristeu, fui tomar cerveja. Se apenas bebesse, não teria voltado para casa tão somente de cueca.

Só que o botequim que frequento tem a estufa dos salgadinhos ao lado do caixa. Quem toma cerveja, precisa ir ao banheiro. A chave da salvação fica no caixa, logo...

As portas da desgraça abriram-se: uma coxinha.

― Põe na conta, Olavo.

Os amigos chegaram. Se vieram cedo, beberíamos muito.

A bexiga ganha prioridade quando tenho que me segurar, batendo os dedões dos pés um no outro. E lá fui eu.

De passagem, só pela chave, vi algo comovente. O quibe era de ontem. O último. Antes de seguir o meu caminho, comi-o. Porque sou um sujeito piedoso, não fui capaz de ignorar o coitado. Com aqueles olhinhos suplicando por uma boca, Olavo acrescentou cinco reais na minha conta.

O papo fluía. A boca não ligava pros mosquitos. A língua deu pinta que sabia falar como os anjos.

Por conhecer os meios para impedir que a conversa desandasse, me inclinei. Ouvi melhor, mas não entendi. E anuí.

Como a urina pressionava, fui pro beco ao lado do bar.

Na ruazinha sem saída, o muro é alto, todo rabiscado. Nele há um grafite. Garanto que há beleza. Ele é a reprodução elaboradíssima, e fiel, da capa do volume 4 da obra Nausicaä do Vale do Vento. Além da princesa guerreira que está no título do mangá, Miyazaki pôs ainda Chikuku, que é uma criança.

Quase urino num cachorro que usava o poste.

Na volta para minha banqueta junto ao balcão, fizeram-me parar. Como não atinei de pronto, mostraram-me que estavam equipados. E levaram o dinheiro que tinha na carteira.

― Graças a Deus! Foram bons contigo.

Tomamos outra garrafa.

― Ainda bem que você não anda com cartões.

Dividimos uma porção de calabresa.

― Fazer o B.O. teria que ser a primeira providência.

Sem escolta, fui ao mictório.

Como eu estava demorando pra voltar, bateram na porta. E nada.

O dono do bar abriu-a.

A cena era deplorável: só de cueca, a barriga dava o apoio que eu achava suficiente para lavar a calça, as meias e a reputação.

Em direção ao ralo, um corregozinho amarronzado ia deixando os restos do que havia saído de mim.

Do jeito que me encontraram, levaram-me pro beco. Como o bar não tinha mangueira, baldes e baldes foram necessários. A faxina foi o bastante para que me despachassem pro pronto-socorro.

Fiquei no soro. Deram pílula. Aplicaram sei lá o quê. Se muito não me engano, fiquei lá só uma hora.

Para não estragar o sábado de ninguém:

― Todo mundo pode ficar tranquilo. Hoje eu vim preparado.

Sim. A sacolinha tem mesmo uma muda de roupa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de março de 2026.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Evolução científica

 

Evolução científica

 

Para não perder o amigo, digo a verdade. Ele acha que relutância é coisa de gente marrenta. Não sou turrão. Mesmo sabendo que não escrevo ficção científica, o Luisinho insiste.

A ideia é simples: como as pessoas são sessenta por cento água e a água não se conforma em ficar acomodada num baldinho de cinco litros, os seres humanos têm que ser enquadrados.

Quem come batata frita sabe que ela fica mais saborosa quando bem salgadinha. Só que o sal aumenta a pressão. O problema é que a pessoa que come batatinha precisa de guaraná pra tirar a salmoura da boca. E tal combinação ― do sal das fritas com a cafeína do refri ― reforça a lógica da autossabotagem:

― Mais com mais sempre dá menos.

― E isso te leva a deduzir o quê?

Que começam as abelhinhas nos ouvidos. Os pés imploram que o chão não goste de ser o convés do Titanic depois que o barquinho foi abalroado pelo iceberg. O nariz resolve que sangrar é o melhor modo de diminuir a falta de ar. Como a coisa tende a ficar pior, a dorzinha no peito cai bem com o desmaio.

― E o rosto assegura: quando a gente perde os sentidos, tudo que é sólido machuca sem dó.

― Onde estão os benditos robôs que não nos acodem?

― Eis o papel das benditas máquinas: obrigar os seres humanos a serem menos compulsivos.

― Malditos comedores de batata frita!

Luisinho me encara com o desdém de quem conhece a verdade, e precisa dizê-la sem interrupções. Afinal, a verdade só libertará aquele que aceitá-la como o veneno bem dosado que fortalece.

― Foi isso que a tia Maricota te disse, Luisinho?

Ao antever que abrir e fechar geladeira faz bem pros bíceps:

― Pois é, gente que fica abrindo e fechando geladeira está perdida entre o sorvetinho de chocolate e de flocos.

Já que a primeira lei da nova era robótica é a preservação da vida humana, as geladeiras só serão abertas com biometria. Isso impedirá que a pessoa coma torresmo antes de dormir.

Em milionésimos de segundo, o cérebro eletrônico pescará a ficha médica do inconsequente e, sem detença nem trapaças, determinará: nada de comida gordurosa.

― Luisinho, quem come torresmo na hora de dormir?

Para que meu amigo não acabe desterrado no limbo de gente que não confia na inteligência dos seres humanos, recorro ao ChatGPT:

Quando conheceremos geladeira com leitura biométrica?

E a resposta do robozinho é: Entre 3 e 8 anos você deve começar a ver geladeiras com biometria sendo vendidas ― mas como recurso opcional, não padrão.

Luisinho tira o boné, coça a cabeça e completa:

― Para comprar essa geladeira de rico, vou ter de ficar sem fritas por um baita tempo.

Se o ouvisse, Tia Maricota seria certeira:

― E o guaraná também?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2026.

terça-feira, 17 de março de 2026

Jararaca assanhada

 

Jararaca assanhada

 

O bar não estava cheio. A tevê estava ligada. Sem que eu tivesse pedido, o sujeito começou a comentar o que a TV falava.

Com seriedade, não titubeio. Juro que estou disposto a projetar as consequências. Assim que começam a falar na TV, paro o que estou fazendo. Eu podia ter pego papel e caneta, mas a minha mente tem o dom de decorar o que a tevê mostra.

De acordo com os gráficos, os números não alucinam. Já que eles conseguem arquitetar o que estão dizendo, noto que minha sanidade fica imunizada.

Com os anticorpos da realidade, fico bem.

Compenetrado com o momento, não cochilo. E reafirmo que estou comprometido a respeitar o que soa lógico, e sagrado.

Embora me escape o comportamento da inflação, ouço o que é repetido na televisão. Ouço que nem pisco.

Escapa-me tal piscadela: cadê os nomes dos artistas gráficos que formularam a maravilha que traduz o que matutam os economistas?

Sim, a maravilha funciona: tem o verde a indicar que os dados são positivos; tem o vermelho a arredondar para baixo o que podia sugerir fumaças de pessimismo.

Sendo x o eixo de um amanhã sensacional, com o bolso cheio, e y o eixo em que o passado era muito mais sombrio, como outro ônibus queimado.

Assim, na tela, eis a maneira encontrada para dar a público o que tem que ficar exposto o tempo que for suficiente para que a economia pareça agir como ciência racionalmente produtiva.

Pra felicidade irrestrita, às pessoas que sentem que a felicidade é aquele sentimento de ter feito o gol da virada antes do intervalo digo que não vou reforçar o traço que serpenteia no telão.

Olha aí! (Olho nada) Caraca!

A serpente apresentada na TV é a evidência da tentação do bem. Vou ter de mandar um áudio pro grupo da minha família. A gente tem que acentuar os benefícios da credulidade.

Sou crédulo porque confio. E confiança é escudo a me proteger de quem não venera ovos classe A.

Se ainda não sei no que boto fé, virá o dia em que atacarei quem me ataca. Será minha melhor transfiguração: por dar à luz pela boca, serei bela; jararaca, caçarei saruês.

Gordos, magros, rabudos, focinhudos – todos saruês.

Só espero que não me matem com celulares quando eu solicitar a minha participação. Quero anunciar ao vivo que tudo correu bem com a gestação.

Como bons indivíduos da espécie, minhas doze jararaquinhas irão colaborar. Caçando saruês, serão instrumento pra maior sensação de segurança.

Já que tanto ambicionamos que o eixo de noites bem dormidas vá para cima sem enovelar com besteirinhas, o espectro de boletos a ser pagos subirá com igual vigor.

O que é seguro enfatizar?

A televisão não diz que ter mais dívidas é o índice mais realista de que jararaca não economiza botes quando está faminta.

Não estou certo?

Antes que o sabichão dissesse o que era o melhor para mim, pedi a conta. Paguei só a minha, claro.

Para não acabar envenenado pela bile do indignado especialista, voei embora. Pro meu sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2026.

domingo, 15 de março de 2026

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Faz sessenta e dois anos que o futuro foge de mim. Ontem quase o avistei às costas. O danado escolheu refugiar-se na minha sombra.

E nem tinha sol.

Se a vida toda estivesse a dedicar-me a observá-lo tão fugidio, eu próprio me esqueceria numa cela. Isolado, e não vencido. Ainda que a solitária sequer janelinha tivesse, seguiria a escarafunchar os meus silêncios.

Othon Bastos, o Paulo Honório do filme São Bernardo, diz ser um afinador de silêncios.

Por que não digo que ele encarna o Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol? Ou, aos noventa e dois anos, o ator é o protagonista do espetáculo Não me rendo?

Alto lá! O título da peça é outro: Não me entrego, não!

Por meu turno, “render-se” em vez de “entregar-se” diz o tanto que a minha cachola tem feito gracinhas.

Trocar nomes, esquecer os fatos, encafifar com um rosto que bem me parece ser amigo, rodar em falso sobre alguma coisa sem muita importância, isso é o bastante para apontar o tanto que tenho tomado “desvios” e não “atalhos”.

É gostoso quando me incentivo a checar uma informação. Só que sorrir à gente que nem me conheça é impróprio, pois estou a sugerir: ei, você aí, vai me negar a esmola de um sorriso?

Não esmolo os bons modos de quem não sabe que sou assim. Me critico pelo jeito que, eventualmente, uso os meus sorrisos.

Às vezes, preciso que parem um instante, topem papear comigo, nem que seja pra fazer de conta de que me conhecem, ou, por saber quem eu sou, livrar-se da minha chatice com um sorriso.

Quando sorriem para mim, o sol faz maior a minha sombra.

Justamente ela, a que camufla o futuro.

À sombra de mim, sem me acanhar ao sorrir de volta, vou indo por aí afora: olá, é sempre um prazer encontrar quem sorri.

O prazer que tive, o que terei, o que me escapa agora.

Othon Bastos reaparece. No telefonema, falei dele. A minha amiga nem precisou me lembrar que nós não conhecemos o ator.

Tive que falar da crônica. Falei dos verbos trocados. E mencionei que uma frase do Lobo Antunes estava correndo de mim.

Queria as aspas. Fui às inteligências artificiais.

Uma saiu-se com: “o futuro é o tempo que me resta”.

Outra admitiu que não tem acesso ao Livro de Crônicas, ou seja, a minha solicitação pela frase exata não pode ser atendida.

Ao léu das minhas benquerenças, fui proseando com as crônicas, vim me enveredando até chegar ao encerramento que dou como bem apropriado:

“O meu drama consiste em ter demorado de mais a entender que os verdadeiros fantasmas são os vivos.”

Como não corro publicar antes de nova leitura, o meu fantasma dá aquele sorrisão.

Volto às aspas do Lobo Antunes, e sorrio à página que nem datei. Falta a palavrinha “tempo” no trecho “ter demorado de mais”.

Em tempo, saiba o futuro: Lobo Antunes morreu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2026.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Sessão de cura

 

Sessão de cura

 

Há três dias chove. Quando parece que vai parar, vem a garoa pra deixar a gente ressabiada. Se o céu não quer brincadeira, a garoinha se transforma em certo chuvisqueiro, daquele tipo que testa a pessoa de bom senso: uma japona impermeável dá conta ou guarda-chuva é item indispensável?

Sendo dilema a ser encarado como mais uma dessas banalidades tão chãs, basta calçar dois pares de meia.

No quentinho, até a tevê fica melhor. A qualquer hora. Mesmo que o cachorro lata que é o seu momento de ir à árvore da esquina, a TV produz calor, sim.

Entre ficar em casa ou zanzar na chuva, sabe-se que muita gente se deixa abalar. Pelo conhecimento que tem de si, a pessoa sensata não desmorona com bobagem.

Quando os tijolos da sensatez não barram os treze graus que a fazem espirrar, é chegado o instante de fazer o melhor. Não é o caso de ignorar a causa da alergia. Nem o chá nem as meias hão de adiar o que precisa ser decidido: ir ou não à farmácia?

O cachorro terá o tronco para batizar por mais uma vez. A pessoa aproveitará para pesar-se. O direito a dar desconto será ofertado pela farmácia. E todos, sem ironia, ficarão satisfeitos.

Ela compra a aspirina. Toma um comprimido ali mesmo. Pede que meçam a pressão. Não desmaiará, mas quase. Vem um espirro atrás de outro. Vai sentar-se na saleta das aplicações. Sente que ruboriza. Pede inalação. Quer que tirem a temperatura. Pede que coloquem o termômetro no sovaco. Ainda bem, não enfiam o treco na boca. Dão uma injeção. Ressaltam que a mais dolorosa tem aquele remédio de resposta ultrarrápida. Deita de bruços. Estranho. Não lhe é dito que a tribal na sua nádega é uma bela tatuagem.

Embora ache que tem nádegas de irrefutável formosura, o juízo da pessoa pede um sorriso. Para que iria se vangloriar de que refeições balanceadas e anos de academia são fatores decisivos para glúteos de boa aparência, seria magnífico se lhe sorrissem.

Há, evidentemente, uma boa explicação para o pug latir que nem pastor alemão. Mal a pessoa o amarrou na lixeira diante da farmácia, apareceram vira-latas cheirar as suas partes bem asseadas.

Já a indiferença de quem precisa fazer a aplicação do antialérgico tem outro fundamento.

Depois de aplicar injeção em bundas dos mais variados formatos, é razoável que funcionário de farmácia nem se comova.

Se fosse pessoa barraqueira, ela iria à gerência. Tintim por tintim, contaria qual a rotina necessária para manter o corpo admirável numa mente admirável.

A esta altura, nem o pug late. A cachorrada se diverte. Não há um cão que não cheire, não seja cheirado, não lamba nem seja lambido.

Pelo tratamento recebido, o cachorrinho vai voltar para casa sem ter reclamações da vizinhança.

Pela pronta recuperação depois de uma sonequinha no banco dos fundos da farmácia, a pessoa poderá garantir que está curada.

Até vir a próxima crise, na semana que vem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2026.

terça-feira, 10 de março de 2026

Banzai!

 

Banzai!

 

Adorável leitor, para não escrever sobre o Brasil que as pesquisas eleitorais vão configurando, eis uma crônica já publicada:

 

Juiz da situação, cabe-nos dizer que as meninas eram gêmeas, as roupas eram idênticas. Elas não tinham dúvidas: tinham unhas.

E exibiam vistoso laço de fita no coque lateral, no campo direito da cabeça. Para os pés estarem à altura da fineza que estampavam, os lustrosos sapatinhos também chancelavam: duas bonequinhas.

Até pelo modo como cada qual adentrou o salão, eram diferentes. Isso chancelou a nossa distinção.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Já que elas eram cativantes, em minutos os convidados estavam ou simpáticos ou antipáticos.

Entretida a contar os feitos da sua prole, nossa jovem senhora se pôs a comer coxinha. Lindamente, falava e lambia os dedos.

Como a garganta secava pelo excesso de opiniões, nosso jovem marido bebia uma cervejinha. Ao que o gás subia das entranhas, não arrotava. Tratava o efeito como pum  o menos ruidoso possível.

Data vênia, nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável da sua elegante figura.

Por nossa graça, admitimos: tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho. Assim que ela o mordeu, aquilo caiu.

Endiabrada como as coleguinhas, Marina não ficaria tomando refri e usando guardanapo para limpar a boca. Sua energia era gritinhos.

Por rebarbativos: roupagem alguma resiste a traquinagens.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Não adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Que ele não fosse destinado a elas, impossível!

Nem pai nem mãe abalariam a certeza: o cão era vítima.

Aquilo era errado. Precisava ser consertado. Devia. O erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio. Elas não eram feias!

O coitado do cãozinho estava nas mãos erradas. O bobalhão era muito criança. Nem cuidaria do pobrezinho, tão indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

E damos fé: como atinada combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote; como intrépida heroína contra os vilões malvados, a Mariana quis apoderar-se do animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio, a realidade era crianças berrando, chorando, saindo no tapa. Nada mais pastelão: o bolo virou torta na cara.

Se pais e mães não podiam rir, teve um bebê que gargalhava.

E por nossa livre vontade, somos taxativos quando afirmamos que o meninão de nove meses no colo da avó fez o que nunca tinha feito.

Abrindo os bracinhos na direção do cãozinho, disse:

Banzé.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2026.

domingo, 8 de março de 2026

Cinco minutinhos

 

Cinco minutinhos

 

De repente, a imagem fica travada. Desligo o aparelho. Tiro o fio da tomada. Acompanharei o ponteiro até que se completem cinco minutos ― tempo para a tevê esquecer-se de que houve travamento.

Imagino que objetos têm habilidades. Eu mesmo tenho esta: perco a paciência quando sou testado.

Destravo fácil: vou à varanda. E topo fumar.

Eventualmente, quando a cachola sussurra que sou um sujeitinho bem impaciente, roo a unha.

Assumo o papel. Quero melhorar a minha atuação. E minha boca é um apontador. Daí a unha ficar pontiaguda e restar cotó.

Coitado do mindinho? Qual o quê!

Engraçado, este lápis não me engana: é um rabinho.

Juiz da situação, movo o dedinho. Delibero. Lembro-me do sal com que tantas vezes salpiquei lesmas, lacraias, minhocas e taturanas.

Sei o que os meus miolos não entendiam: a criança que usava o sal como queria ensinará ao adulto que as lesmas e taturanas espumam, morrem e gritam.

Na plenitude dos meus poderes: continuo surdo.

A saída é abrir uma boca. Ou parafusar um umbigo. Vê-lo banguela. De tanto ser lambido, espanado.

Sem rangidos nem prurido, o meu juízo sentencia: é espantoso uma minhoca subir pela fenda afora.

Não sei de pai que não goste de acariciar o próprio umbigo.

Se tem quem use a unha do mindinho para tirar sujeirinhas, por que meu pai não lamberia o dedo depois de cheirá-lo?

Jamais o vi enfiar sal naquilo. Ele deixava o umbigo por dentro da camisa. E todos os botões ficavam fechados.

Eu olhava. Nem relava o mindinho na goela. Argh!

Ao vê-lo enfiar a mão entre um botão e outro, era óbvio que ele não estava meditabundo. Sem piscar, eu corria. Adorava o Batman, e não um Adam West da vez.

Para negar que ele fosse um Napoleão pinel, a camisa combinava com a gravata. Embora a autoridade dele fosse melhor expressa pelo manejo da cinta.

Como nunca usei camisa com todos os botões fechados, a minha bunda sabia o quanto eu devia amar a cinta de papai.

Mas o grande amor do meu pai era café.

Bater na minha bunda com cinta era tão somente uma paixão: batia e pronto. Nem perdia o sono com isso.

Se um aborrecimento o impedia de tomar café quando era hora, eu sabia que ele ferveria o leite. Por gostar de nata, o leite até derramava da caneca.

Sempre que vem à língua a nata naquele copo, tenho mais certeza de que salivar me perturba. E preciso fumar.

Um moço dá o cigarro, acende-o e vai-se embora.

Vendo-o ir pela calçada, minha mente trava nesta ideia: a televisão é o sal que conserva a juventude.

Não há visualização que se apague quando a conexão liga o dedo que aperta o controle à tela em que Ferruccio Furlanetto manda ver a sua “Madamina, il catalogo è questo”.

Sei, sinto e saboreio: Leporello fuma comigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de março de 2026.