Minutinhos
antes das dez, um caminhãozinho para do outro lado da rua. O motorista confere
se estão fechados todos os botões da camisa. De ouvidos treinados, ambos
assistirão à missa.
Quando
o relógio da matriz passa uma semana inteira badalando os seus sinos com dois
minutos de atraso, ele diz aos pés apressadões que as perninhas andam pedindo
um chazinho de camomila para não ficarem à mercê de palpitações bizarras.
A
principal sequela de gente que abusa das ideias é não crer que as garras dos
pombos dão outro ritmo aos ponteiros ― pela trepidação.
―
E pelo alvoroço que os coitos produzem, nossa!
O
fato da hora certa querer chegar dois minutos depois do momento preciso não é nenhum
recurso brincalhão da máquina. Há semana que o relógio da matriz fica
endiabrado, isso quando os minutinhos cismam de concordar com o mundo, que
avisa:
―
Atrasos compensam quando adiantamentos são adiados.
Para
corroborar que os ponteiros geraram empatia, nós arrolamos o testemunho daquele
cidadão que ouve missas do outro lado da rua:
―
Ontem fui pegar uma geladeira. E cheguei adiantado. Assim que me viu, o homem
abraçou outro carreteiro. Dei como certo e justo que a culpa era dos pombos.
Assim
como o relógio da matriz tem semana que passa badalando seus sinos com três
minutos adiantados, é louvável especular sobre o futuro. Já que a copulação dos
pombos influencia as pessoas, pululam outras segundas intenções.
Segundo
o mesmíssimo motorista que transporta bugigangas:
―
Daqui sete dias, virei pegar a geladeira que me será entregue. E chegarei
atrasado três minutos. E o homem compreenderá que sempre quis fazer jus aos
vinte reais da gorjeta.
Depois
de um coito bem-sucedido, o pombo apontará:
―
Quanto mais curto o voo, mais longuíssimo é o passado.
Quando
os sons dos sinos chegam do passado três minutos antes, os sons dos sinos que
chegarão dois minutos atrasados saberão a que se destina o amor dos pombos.
Por
outro lado, o homem que premia o motorista do futuro acha que está pagando o certo
a quem lhe trouxe a geladeira sem conhecer sua esposa ― nem pelo nome.
Tal
homem, cuja esposa não conhece o motorista só pela fama, dá eco àquela
trepidação que ocorre no meio da missa:
―
Assiiiim seeeeja.
E
o caminhãozinho não se abala, apenas se constrange.
Quando
o chão da praça sente que os minutinhos são o resultado do embate entre o sexo
dos pombos e os vinte reais a quem nem devia recebê-los, então, fica confirmado
que o valor do bico está na bicada.
Diz
o pombo à pomba que arrulha olhando pra baixo:
―
A força da vida está na bicadinha em cima da geladeira.
A
pomba nem se volta:
―
Pinguins, meu amor. E eles quebram o bico quando caem.
Para
apoiar nossa intenção de sermos justos, fomos persuadidos a dar o testemunho do
ponteirinho:
―
Achar que as chances são maiores quando não fazer nada é dar fé que geladeira,
caminhãozinho e padre fazem parte de um jogo maior que a vida.
―
Par ou ímpar, pombinhos do relógio? ― matuta o vira-lata, bom maroto.
Para
que a missa das dez começasse às dez, demos cinquentinha pro rapaz da
manutenção do relógio tomar um trago na feira.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 29 de março de 2026.