quinta-feira, 5 de março de 2026

Zunzunzum

 

Zunzunzum

 

Bem na minha frente, sem temer que eu estivesse a dois palmos, tinha um pernilongo na tampa do mel.

Enquanto ele se alimentava de mel, meu dedão tornou-o um borrão enegrecido na digital.

Lavar-me interromperia o desjejum. Numa boa, desjejuei.

Sou um ser humano. Preciso de pão. Coloco fatias de queijo Minas, e mordo com vagar. Não me apresso, deixo que as notícias pululem a partir do momento em que me sentar para lê-las.

Quinta-feira de março, outra quinta-feira de mais um mês de março, terei os meus noventa minutos para ler os jornais.

Não vacilo, é rotina, é meu tempo diário para inteirar-me da esquina, do estreito de Ormuz e da volta de um cronista bom de papo a um dos jornais que assino.

Como afirmei, retorno e, sem dar nó, eu ato o fio rompido: como ser humano que se alimenta de pão integral tão somente no primeiro café da manhã, abocanho-o com moderação.

A porção abocanhada é triturada por meus trinta e dois dentes ― os vindo de fábrica e as próteses. E trituro com satisfação. Fecho os olhos. Divago. O pão que mastigo é produto rico em grãos, e gosto de triturá-los com os dentes todos. A maçaroca na minha boca é jogada pra lá e pra cá, porque sou o comandante em chefe da mastigação.

A minha neta corta o meu barato.

Ela diz que o militarismo embrenhou-se no cotidiano. Uma pessoa pacata ― que nem eu ou a que eu imagino ser ― nem percebe o quanto está a serviço da indústria militar, cuja visão bélica, no entanto, torna o Leviatã um monstrinho em pele de lobo.

Ana Catarina, a neta que imagino ter, diz que lobo são animais que precisam de proteção. Não todos os lobos, segundo ela.

Um torpedo que afunda uma fragata é o tipo de lobo que já deveria estar extinto há décadas, cem anos, mil anos, desde Caim.

O drama em curso vem de antes de Caim. Quando o sapiens riscou nas paredes de uma caverna os primeiros bisões abatidos, começou a cruzada da nossa espécie contra as demais.

― E contra si, vovô?

Poxa. Foi por impulso que abri o celular. E Lascaux existe.

Pra tomar café comigo, neta minha fica bem mais interessante com sutileza tão somente sua. No caso, Ana Catarina tem a idiossincrasia de falar como se houvesse nascido em Piracicaba.

É fluente. Comunicativa. De bem consigo, comigo e com a torcida do XV. Justamente por seus erres sugerirem que foi criada no Paredão Vermelho, às margens do Rio Piracicaba, na Quinta da Rosa Barroca, nessa chácara que inventei só para ela.

Se não mata pernilongo, ela come tilápia do jeito que for: em tirinhas cruas, frita, assada ou ensopada. Sendo tilápia, ótimo!

Com zunzunzum, Ana Catarina, este lobo deixa outro pernilongo na tampa do mel. Ele que viva pra sugar mel, seiva de samambaia, até o meu sangue.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2026.

terça-feira, 3 de março de 2026

A pitada de coentro

 

A pitada de coentro

 

Eu estava sentado. E queria continuar sentado.

O que não acarretou menoscabo a quem me mostrou sua caixinha de balas. Na voz do vendedor, meus ouvidos não captaram entretons.

O que me fez comprar as balinhas foi singelo: se alguém que tira o sustento do próprio esforço não tentou me convencer de que a minha boca teria que ser solidária, essa pessoa estava mais abatida.

Puxei conversa.

Por lógica elegante, encadeei: ele e eu estávamos esgotados; ele vendia balas e eu matutava esta crônica; por causas distintas, um ao outro, nós nos entretivemos.

Ele contou que às sete já estava trabalhando. Tinha de aproveitar que o sol ainda não estava forte. Já que a pernada da casa ao centro era puxada, ele corria dos cães que atiçava.

Para abordar as pessoas fora da padaria, ele vendia três salgados pelo preço de dois. Nem assim rendia.

Ele já não tinha mais de uma garrafa térmica. Quando vendia café, tinha de ir e vir de casa com o café tirado na hora. E perdia tempo.

Com duas garrafas, houve uma época em que o seu pai ia e vinha com o café quente. Bastava pegar a cheia.

Das duas, a avó vendeu uma. E o seu irmão ganhou um bolo.

― E nem era o aniversário dele. Se morasse com a gente, a minha mãe impediria uma burrice dessas.

Isso não ajudou a aumentar as vendas. Mas os salgadinhos eram feitos pela sua avó.

Por causa do coentro seco, o que mais vendia eram os quibes. Os simples e os recheados com requeijão. Os simples vendiam bem.

Os dias de feira eram chatos, ele tinha que acordar às seis. Como as pessoas gostavam de garapa, junto elas comiam bolovo.

― Com garapa, mais gostoso é pastel. Só não falo pra ninguém.

A sua mãe foi embora. O pai dizia que a cama de casal ocupava muito espaço. A avó vivia a defender que o beliche juntava os netos. Ele nem sente tanto frio, já que a sua avó faz sopa na janta.

Já a sua mãe...

― Se ela fazia sopa, eu não lembro. Ela deixou a gente quando eu tinha três anos. Só lembro da vez que me pôs no colo. A gente andou no carrossel.

Na melhor vez que andou no carrossel, uma prima o beijou.

― Não foi beijo de boa noite, arrepiei de tão gostoso.

Por causa das festanças da emancipação do município, na cidade estava montado um parque de diversões.

Ele ficava babando era com o bate-bate.

― Todo ano, saio batendo o mais que consigo. Nunca enjoo. Pode ser que um dia eu pare. Quando ficar mais velho, não sei do que vou gostar de fazer. Só vou saber quando eu tiver quinze anos, né?

Disse-lhe que gostava de nadar. Divertido pra caraca era fugir. Era uma barafunda dos diabos. Correr, vestir-se e não olhar para trás: era muito engraçado escapulir dos funcionários do clube.

― O senhor nadava onde nem era sócio?

Até pensei em falar que nadava pelado, mas veio um freguês.

O homem comprou as dez balas da oferta do dia. Do outro lado da rua, uma mulher acenou. E lá se foi o insípido.

O rapaz não azedou. Nem foi tinhoso:

― Tenha um dia bom, senhor.

Olhei no relógio. Eram onze e meia.

― Valeu o papo, rapaz.

Escrevendo isso aqui, vim temperar o meu cansaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2026.

domingo, 1 de março de 2026

A fila manda

 

A fila manda

 

Lá vem o cronista falar de acontecimentos prosaicos. Aos mísseis contra escolas, sabão e leite. De novo, ele toca a sua flauta para que as palavras fiquem organizadas. Outra vez, o escriba do chão da vida piscará que as entrelinhas sangram.

O seu método é sentar a bunda, escrever e, terminado o trabalho, deixar-se à vida. Por três vezes na semana, põe gosto de indicar que a vida é isso, e isso passa.

No batidão irreparável, a crônica trata de reciclar clichês?

Foi o que houve ontem. Ele preparava o almoço. Tinha a frigideira, o fogo e o bacon. A campainha soou. A prioridade ficou sendo ir ver o que queriam. Na volta à cozinha, teve que abrir a janela.

Como o contratempo o chateou, largou o que podia terminar. Saiu. Não tinha bacon onde almoçou. Na televisão, tinha as medalhas dos generais.

Já que houve dias que era preciso usar uniforme, reconheceu uma das suas professoras. Ambos com rugas. A rua nem reparou.

Ela disse que dirigir não era um problema. As confusões surgiam por causa do controle do alarme: o dono corria impedi-la de levar o carro que nem era dela.

Por falta de carro, o cronista tinha pés. Se dirigia pra onde queria. Podia inventar uma finalidade de momento.

Que alívio. A cidade levou-o ao endereço exato.

Sem drones a marcá-lo, entrou na farmácia. Comprou o que tinha acabado. Incluiu dois itens em promoção: lâmina de barbear e band-aid. Como não é alvo: não fez a barba ali mesmo.

Por conta de uma antologia que anda preparando, passou a tarde reescrevendo. Risca daqui. Rabisca dali. E a guerra continuava.

Os pernilongos deram a deixa: as janelas ainda estão abertas.

Atento aos pernilongos que têm voz quando precisam ser ouvidos, fechou as janelas, ligou o repelente e foi tomar banho.

A irritação sumiu com a água; os fios de cabelos, não.

Depois de limpo, o ralo tascou-lhe:

― Vai, amigão. Com a coluna em pandarecos, tente fugir do xis na sua testa.

Antes o tivesse ouvido. Uma vez desafiado, pôs-se ereto. O tal xis havia se deslocado, ao estralar: dói a cerviz. Agora ereta.

O ralo? Ora essa. O ralo fez o que um ralo fanfarrão sabe fazer de melhor: gargalhou.

E gargalhada assim faz o palerma se mijar. O cronista não mijou, ele tinha trabalho a fazer. Aí, mijou. O xis que vá pro caramba.

Achando que podia sentir-se aliviado, o cronista escolheu encurtar a travessia. É sério. Ele não tem preparo mental pra vestir a carapuça de salvador do mundo. Ele escreve, e não se salva.

No supermercado, a professora da véspera recomenda o seguinte procedimento: compare-se este produto com os concorrentes, leia-se os rótulos e a escolha seja feita pelo que é avaliado menos danoso.

Ao abrir a carteira, a nota ignora o cronista.

A caixa pega a nota, verifica se a onça é verdadeira e dá o troco.

Antes que ela o chame, o freguês seguinte se adianta.

Até o general da tevê sabe de antemão: é óbvio falar que a pressa tem sempre razão, só que mais rentável é vencer.

Honra ao mérito?

O xis da questão: os mísseis não erram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de março de 2026.

 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O bom ouvinte

 

O bom ouvinte

 

Falo ao telefone. O meu amigo e eu deixamos de fora da conversa os pormenores disso e daquilo que fizemos ontem. Gostamos um do outro. Não nos aporrinhamos. Piadas surgem sem forçarmos. Rimos. Somos leves. O nosso papo termina sem anunciarmos o que faremos. Só replicamos: até mais ver.

Como o telefone toca em seguida, disparo contar-lhe que havia me esquecido de comentar a decisão de um amigo nosso.

Ele me disse que iria tirar férias.

Contou que passará uma semana nas Minas Gerais. Acrescentou que a chácara fica no interior. Disse um nome de cidade que me soou inventado: Maquiné.

Como eu queria que a conversa fosse espirituosa, fiz graça. Ele não gostou quando perguntei se o dono era vampiro. Paciência, eu não tive como me segurar. Além de ficar num lugar cujo nome é trocadilho com “máquina”, a propriedade era Sagarana.

Para me fazer gargalhar, o proprietário se chama João. Ele trocou a medicina pela pecuária. Ele tem vacas, bois. O meu amigo é tinhoso. Deixou o ápice para o fim: o dono da Sagarana, destes palmos de chão de Maquiné das Minas, esse João que trocou o consultório pelo pasto, é sua maestria com a palavra que o faz famigerado como o demo.

― Deixe de disparate! Só porque ele também é diplomata, você não tem que confundir o João com o Guimarães Rosa.

Tratei de falar sério. Mostrei-me curioso. Não fui irônico ao afirmar que o tal João deve ter trocado o estetoscópio por um berrante porque os seus pulmões têm potência. Em vez de auscultar as cavidades das gentes, agora ele gosta de se fazer ouvir por bestas e abestados.

― Pare com pilhérias. O João é um homem prestimoso.

Dia ou noite, muitos aflitos procuravam-no para que desse cabo de certa doença. O mal se espalhou rápido. Gente pobre e gente rica, toda gente viu-se afetada.

Ele olhava nos olhos. Dizia que “cefaleia” e “dor de cabeça” eram a mesma coisa. Lembrava que mãos sempre têm que ser lavadas. Dava copo d’água pro remédio ser tomado na hora. E entregava a cartela do analgésico. Passando os polegares sob os suspensórios, o João nem cobrava pela consulta. Sorria, e pronto.

Um homem maravilhoso, esse João.

Se não tivesse ligado de volta, eu perderia a chance de lhe falar a verdade. Nós sabemos que estas “férias” não programadas deviam ser tratadas como “tratamento de saúde”. É mesmo! Já que a cidade toda jura que ele anda “mal das pernas”.

― Ei! Você escutou? Eu disse: mal das pernas!

Finalmente, a mulher pode falar:

― Senhor, estamos ligando porque temos uma oferta que é válida apenas se for aceita durante este telefonema.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O beabá

 

O beabá

 

Dedo a dedo, ela contava em voz alta. Para a contagem não acabar errada, usava o indicador.

Como a caçula sorria ao bater outra vez o dedinho em cada um dos dedos da outra mão, a irmã achou-se mais esperta.

― Sabia que eu sei contar até dez?

E demonstrou como. Com o indicador de ambas as mãos, foi do um ao dez. Confirmou-se: ela tinha mesmo dez anos.

A menina de cinco anos, porém, tinha muito mais imaginação. Quis o mundo ordenado, conquistou-o: havia cinco postes até a praça, cinco lixeiras até a padaria, cinco degraus até o dentista.

Por causa da injeção, ela odiava ter dor de dente.

A irmã que sabia contar até dez resolveu. Iria ampliar o mundo que a menor considerava completo. Ou iriam rir da sua criancice. Sendo mais velha, mais experiente.

Assim, a garota de dez anos falou que a rua tinha dois lados. Cada lado tinha dez ruas. Pela direita, se não errasse o caminho, dava para chegar na casa da avó e na igreja. Indo pela esquerda, a gente até chegava na escola, só que a padaria ficava no meio do caminho.

― Não existe padaria que não venda pão de queijo.

― A tia falou que cinco reais dá prum montão de pão de queijo.

A maior disse que a vida era mais bonita se a gente tinha dinheiro para comprar pão de queijo. Além de dois lados, dez ruas, a igreja e a padaria, havia a praça. Só que ninguém jogava moeda no chafariz.

O lugar mais gostoso de ficar era a praça. Tinha bancos. Não tinha apenas pombas. As andorinhas e bem-te-vis cantavam. O passarinho mais bonito era o joão-de-barro. Ele fez a sua casinha no ipê amarelo. Tinha muitas árvores, só que precisava das tias para varrer as folhas. Só o ipê tinha as flores mais bonitas, tão amarelas.

― Cê precisa ver como a árvore amarela é linda, Claudinha.

Claudinha estava espantada com o tanto de coisa boa que a irmã dizia. Ela conhecia bicho pelo nome. Assobiou que nem o bem-te-vi faz e voou igual ao joão-de-barro. Se voava de braços abertos, ela era que nem o próprio passarinho.

Só que até passarinho voa com gritaria. Ora, que gritaria...

Quem chegou foi a irmã mais velha de todas, a Carol.

O tio dizia que ela era melhor que uísque. A menininha não achava nada disso. O tio bebia uísque, ela nem tinha doze anos para já poder beber.

O tio levava a Carol para tomar sorvete. Ela nem tinha que esperar que fosse sábado. Podia tomar sorvete quando ela quisesse. Bastava pedir. O tio nunca deixava de fazer o que a Carol queria.

De uns dias para cá, a Carol deu de vomitar. Falavam de pizza, ela corria. Passava na tevê que bandido foi morto, a Carol virava chorar. E ela vomitava quando o baleado era policial.

O tio vinha de ônibus, porque morava muito longe.

Ele não tirava a roupa da farda. Com o ônibus lotado, ele protegia o motorista. Quando a nota era grande, o motorista não tinha medo de dar o troco. Até por causa da câmera, o tio podia ficar na escada.

A menininha não andava de ônibus nem sabia desenhar.

Um dia ela vai saber qual é o ônibus certo ― falou a tia de todas as meninas e todos os meninos que desenhavam quando ela entregava papel e lápis de cor.

A Carol não desenhava. O tio deu pra ela um diário.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2026.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A velha canção

 

A velha canção

 

Quando eu via filmes no cinema, achava constrangedor sair antes da fita acabar. As pessoas ficariam comentando. Nem bem eu entrasse na padaria, viriam dizer que o final do bangue-bangue foi ótimo.

Pena o herói ter ido embora sem levar a mocinha junto, né?

Né!

Foi-se aquele tempo de sessões de cinema às sextas. Depois tinha a pizza do outro lado da rua. A gente criticava quando o disparate era tamanho que acabava estragando a nossa compreensão.

Aquilo de entrar no avião sem pedir que o galã assobiasse a canção que era só deles, ora, falta de romantismo num filme de amor...

Francamente!

Para ser honesto, acho bom viver o meu tempo. Porque hoje temos o privilégio de ver filmes sem pegar garoa, pagar pela pipoca e falar baixo quando fala ao celular.

E o streaming tem mais esta vantagem: série ruim a gente assiste a todos os episódios de uma vez só.

Assim que percebe que a mocinha vive pedindo para o amor da sua vida ajudá-la quando está metida em enrascada, o jeito é fiar-se de que o mal-estar será maior se não postar comentários negativos no máximo no início da madrugada.

Bem na hora que o pessoal estiver voltando da pizza, ali pela uma, a notificação vai alertar: a série do momento é um lixo que nem vale a pena de ser vista.

Pronto! Agora a turma vai assisti-la até o dia amanhecer.

Levanto cedo, cedinho, corro pro celular porque o mundo precisa ser comentado antes que os outros o façam.

Leio muita coisa. Critico sem parar. Minto, a vida chama: paro.

A vida? Veja só que interessante...

Isso de ter que andar apressado ꟷ já que agora é tempo para viver apressando os outros e a si mesmo ꟷ é tolerar falhas no roteiro.

Como se a vida precisasse ser coerente, plausível, acelerando pro desfecho: inteligente, necessário, maravilhosamente humano.

Já o amor faz doer pelo que falta, pelo que faz falta. Sim, tem certas ausências que estão tão presentes que desnorteiam.

No instante que a gente se vê desnorteada, pedir a canção do amor da nossa vida é o melhor a se fazer.

Feito!

Hoje mesmo. Agora há pouco. Aconteceu.

Eu descia a rua. Vinha com as sacolinhas. Tudo ia bem até que um garotão e eu nos emparelhamos na calçada.

Enquanto eu vinha do supermercado pra minha casa, o adolescente ia adiante. Só que tenho pernas maiores que as dele. Embora eu tenha passadas mais largas, o rapazote nem liga para suas pernas curtas.

Chato ou não, gente de passada maior chega na frente.

Quando tinha a idade dele ꟷ uns doze anos ꟷ, eu já sabia que o mundo sorri quando sorrisos dão espelho à alma.

E a alma do garotão não pedia selfies, pedia games.

Brincando com as sacolinhas, jogando-as pra lá e pra cá, ele tinha aquela leveza que eu também tenho.

Achei mais divertido encurtar as passadas, desacelerar, e passei a sorrir. Mesmo que não estampasse no rosto, eu sorria, sim.

De orelha a orelha, sorri quando ele olhou pra trás: vitorioso!

Com passinhos curtos, respiração nada ofegante e a sensação de que faço menos quando posso, entrei em casa assobiando:

Nada do que foi será do jeito que já foi um dia...


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2026.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Yabadabadoo

 

Yabadabadoo

 

Terminada a apuração, houve uma campeã e uma rebaixada. De minha parte, passo recibo: terei outro ano até o Carnaval vindouro.

Sinto-me vencedor, pois ficarei trabalhando.

Por trabalhar em casa, vou me concentrar. Sei que darei trabalho. No afã de manter a produção em dia, cobrarei de mim outra vitória que seja possível: nada de espiar quem se enxuga depois do banho.

Se cumprir a meta de ficar longe da janela no horarinho de sempre, quero dobrá-la: para que o cachorrinho da vizinha possa brincar com o meu, vou me puxar pela coleira.

Vigiando meus sorrisos e controlando a minha língua, não abrirei a lista de contatos do telefone. Só não atenderei chamada alguma.

Com o dobro alcançado, serei indulgente.

Vou à barbearia para minha barba ser feita por mãos profissionais, cujas habilidades produzirão um rostinho sem cortes.

Pessoa que se envaidece das boas obras realizadas, recapitulo as graças: sem cheiro de extravagâncias, brinquei o carnaval molhando o lenço com as lágrimas de alegria pela Portela; depois do banho do fim de tarde, deixei a cortina aberta só para que pernilongos entrassem; e pus papel higiênico para estancar o sangue na carinha de bebê só uma vez, na Terça-Feira Gorda.

Putisgrila! Fiz a trifeta.

Acho que sim.

O que não significa que está lançada a minha candidatura ao posto de brasileiro padrão. Tenho um ano pela frente. Manter o pé no chão é demonstração ajuizada de que há muito que fazer.

Como chefe, supervisor e empregador de mim mesmo, embora eu seja mão de vaca quando me pedem esmolas, estou certo de que viver é batalhar por regalias.

Já que a vanglória faz acreditar que mereço uns trocados por fora, vou à janela. E confirma-se, há um mundo de gente a circular.

Luisinho grita que eu vá atendê-lo.

O tetracampeonato está no papo: não pergunto se tomou banho ou se pagou para que lhe fizessem a barba.

Elogio os novos óculos de aro de tartaruga. Acrescento que parece mais novo, com o cabelo repartido e aqueles óculos. Lembra mesmo o adolescente que se sentava na frente. Aquele CDF que era o primeirão a chutar a resposta. Nas vezes que era gol, nem olhava para trás.

Luisinho pede para eu deixar de bobagem. Precisamos ir até a casa da Dona Cremilda. O Zeca, o Domingos, ele e eu vamos dizer o quanto é gostosa a torta de banana que Dona Cremilda fez pra gente.

Agora, sim. Eis o salto tão aguardado.

À mesa, a vizinha. A dona do cachorrinho que brinca com o meu. A mulher que se enxuga de cortina aberta. A fêmea da espécie que não se chama Eva, Maria nem Madalena.

ꟷ Já conhece a sobrinha da Magali?

É claro que não me seguro. Abano o rabo. Finjo de morto. Rolo no chão. Latindo que nem bobo, hidrófobo de tanto entusiasmo: eu como, como a torta que nem percebo que é com a mão que eu como.

Pedrita!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Nota 10

 

Nota 10

 

Na versão oficial, hoje é o último dia de Carnaval. Para o povo, não há razões para alarde: a festa dura o quanto a gente queira.

A carne é forte. O seu poder é tanto, profundo, vital, que não é nada simples o corpo dizer adeus ao que o torna humano.

A parte fraca da gente suspira, fala baixo quase o tempo todo, acha que vai gritar quando o espinho tira sangue.

Enquanto a mágoa é na pele e nos músculos, dá para suportar. Só não é razoável garantir à vida que vivemos bem, agimos direito, ainda que sejamos panela no fogo.

É preciso ― precisamos ― que haja escape.

Compreendemos: o ano não seria bem-sucedido se não houvesse críticas, censuras ou castrações.

Não somos idiotas para não sacar por que será que não nos deixam fazer o que queremos. Desejamos, mas não cantamos, não dançamos, sequer transamos o corpo numa boa.

Positivamente, redundamos castos.

Como mamíferos de sangue quente, a matéria de que somos feitos tem direito a gozar das liberdades que os trezentos e sessenta e dois dias do ano capacita-nos para a explosão.

Evoé! Explodimos de alegria.

No lugar do pão integral, outro gole de cerveja. Pijama é o ramerrão, tatuagens aquecem mais gostoso. A melhor resposta ao mundo é, na quarta-feira, acordar com mil sabores na boca.

Entretanto: passado o Carnaval?

Já não há plumas nem paetês, temos óculos.

Quando o olho cobiça o patê de atum, a mão que segura o pote de margarina coloca-o de volta na geladeira.

A gente sempre soube: é preciso ler os rótulos.

E não compra o produto com gordura trans. Deixa na gôndola o que vai vencer na semana que vem. E deveria ter cobrado o repositor que coisa vencida tem que ser trocada.

Como gostamos de ser valorizados, disfarçamos. Mas é bom ouvir o quanto somos bons profissionais, bons amigos, bons pais.

Com o cotidiano ditado pelo despertador, voltamos a viver para dar o melhor. E acreditamos mesmo no melhor da gente.

Para não decepcionar as pessoas que suspiram quando nos ouvem dizer: levantamos na hora certa, tomamos banho na hora certa, vamos dormir na hora certa.

E tudo certo.

Como não é todo dia que uso margarina no pão, faço um sanduíche com a muçarela que tem menos sal e menos gordura.

Tomo cuidado pra não morder a língua. Mastigo o sanduba. Já que aproveito pra colocar as notícias em dia, mastigo devagar.

Leio que ninguém proibiu o desfile daquela escola de samba. Dizem que teria havido uma homenagem emocionante. Reiteram que não vão precisar de averiguações. Extasiado, o homenageado sambou, suou e chorou. Juram: Ney Matogrosso não se conteve.

Não sendo jurado para dar nota a quem samba para ser notado, eu assovio e bato palmas: o tempo todo, faz muito bem o Ney Matogrosso ser ele próprio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2026.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Momo dos abraços

 

Momo dos abraços

 

De vez em quando, isso acontece: passa o caminhão que carrega ossos, passa também um que transporta esterco.

Se nem os passarinhos suportam, voamos para longe.

E ficamos lá até que a nossa volta dê-nos esta garantia: meia hora é tempo o bastante pro ar ter retornado a oferecer-se inodoro.

É normal que a gente goste de respirar sem que nosso estômago se manifeste. É bom quando a gente nem precisa avaliar a qualidade do ar. Basta respirar; a natureza faz o resto: funciona como esperado, sem chamar a nossa atenção para os seus mecanismos.

Uma vez que o nariz esteja na parada: ou o aroma é agradável ou a gente tem mais é que sumir no pé.

Se a coisa ficasse no olfato, encontrar um lugarzinho arejado seria suficiente para a gente papear sem proteger a boca com as mãos em concha, mas o impulso de olhar a sola dos pés tem força irracional.

Já que andar descalço faz parte da fantasia de índio, a gente olha a sola dos pés quando a inhaca desperta em nós a aula adormecida de Ciências: olfato é um dos cinco sentidos do ser humano.

É um dos cinco diz a razão, mas é a visão que ganha a prioridade. E a gente olha a planta dos pés. Como o cheiro está impregnado, não é nenhum despropósito olhar outra vez.

Se os pés estão limpos, e continuam limpos a trinta metros, o jeito é trocar de fantasia. Uma que não nos faça pensar nos pés, nos force a olhar a limpeza da sola. Mais ainda: ela traduza o nosso tempo, em que temos mesmo de trocar os pés pelas mãos.

Sem mãozinhas leves. Sem mãozonas levianas.

A gente conta que nos reconheçam pela graça de estar fantasiado como pessoa legal. A gente sabe que um camarada bacana faz sorrir quem o abraça.

Bacanas e legais, um abraço!

Quando o abraço não nos envergonha, tiramos selfie.

Quando as mãos nas nossas costas não pesam, tiramos selfies.

Quando sorrimos, compartilhamos mais de uma selfie.

E o joinha vai para quem nos aprova.

Importantíssimo: esclarecemos que nossa fantasia incorpora itens pra que a patotinha do bloquinho bem efusivo fique apresentável: pra recauchutagens salomônicas, o martelinho; sobre terninho belamente cinzento, a capa preta; o chapeuzinho escoa chãos: o Monte Caburaí, o Arroio Chuí, a Baía dos Guanabaras, o Rio Branco do Barão do Rio Branco, os Tietês da Paulista, os agronegócios ruminantes, a Floresta Caprichosa dos Parintins e a caninha dos Pitús.

Pra que percebam a profundidade intensa da nossa alegria, já que somos diversamente alegres de ponta a ponta, o ouro deste carnaval é a gente brincar que perdoa quem a nós nunca nos deixa de obrigar-nos a perdoá-los.

Com a pressa de finalmente o Ano Novo chegar, a gente não sorri para quem regula o semáforo!

Nas Cinzas da Quarta-Feira, depois de tomar um sal de fruta, em verdade, este folião vai dar a freadinha:

Brasil, meu Brasil Brasileiro, perdoe-os que eles sabem muitíssimo bem o que andam fazendo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Chamada a cobrar

 

Chamada a cobrar

 

De crachá no peito, a pessoa acredita que, por estar uniformizada, tem o direito de opinar sobre deus, o diabo e a ordem do mundo.

Às ordens do mundo está a funcionária, cuja função na empresa é atender os clientes e os colegas, sem que haja emperramentos.

Não basta bom-humor, é preciso malemolência.

Esta ginga de quadril não é para tirar o corpo fora, é para manter a máquina rodando sem rangidos. Até porque gerente e segurança não têm subordinação hierárquica.

Na vida, é preciso respeitar o quadrado alheio. Não é de bom-tom meter o bedelho na cumbuca de terceiros. Sem permissão para tanto, o bicho pega. E a coisa azeda.

Nos comércios do mundo, convém não haver desperdício.

Um gerente é uma banana. Um segurança é um abacaxi. A firma é liquidificador. Para a vitamina ser servida ao público: a energia tem que vir de cada um dos ingredientes.

Para que a vitamina não passe do ponto, é recomendável que as colheres de açúcar sejam suficientes para adoçar.

Quando é preciso mascarar o gosto pronunciado daquele ou deste fruto, não basta seguir a receita ― fundamental é ser criativo.

Já que o tópico é criatividade: crianças são proficientes.

Nos meus tempos de menino, uma das minhas especialidades era fazer o que os adultos faziam. E como eu gostava.

Passar trote, por exemplo.

Se adultos telefonavam para bombeiro salvar gatinho encurralado a três metros do chão, eu era o menino preocupado com a segurança da esposa do vizinho.

E as chamas da minha infância ainda ensinam: para se defender, a gata nem precisava arranhar as costas do seu bombeiro.

Dito de outro modo: viver é fogo.

Agora que estou crescido, passei a receber telefonemas de gente que não fala nada. Que coisa mais sem graça, ficar muda. Eu atendo, e nada. Fica aquele silêncio. Nem para imitar gente ofegando. É coisa de marmanjo acuado pela infância.

Se não ligam para inspirar sonhos eróticos, procurem quem queira comprar o silêncio broxante que têm para oferecer.

Embora as minhas costas andem carecendo de ser massageadas, não tenho escada Magirus. Aliás, nem telefone fixo.

O jeito é espiar pela janela. Pode ser que algum vizinho precise de uma mãozinha. Pode ser que eu ache quem tope me acudir.

Pelas barbas do profeta! É carnaval.

Com as luzes acesas, ficarei em casa. Como é da vida encontrar o que a gente desistiu de encontrar, a lista telefônica dos meus tempos de garoto aparecerá. Nela encontrarei nome e endereço. A casa onde morei vai ter novamente as luzes acesas.

É da vida que nem voltem a brilhar. E elas brilham.

Saberei esperar que a mulher do vizinho erre o número. Farei uma voz tranquila, segura. Esperto o bastante para não cair num trote, hei de ser o homem responsável que tenho fé que sou.

Uma vez que não jogo areia para cobrir as minhas necessidades, visto a fantasia. Não rasgo nem ponho de molho, envergo-a.

Digo ao Rei Momo que, em casa, ficarei. Quando o telefone tocar, vou atender. Quando o bloco passar, aplaudirei. Depois de dormir, aí, apagarei. Dormindo, sonharei. No melhor dos sonhos, vou acordar.

E na hora agá, seja em que hora for, eu te acudarei:

― Bombeiro tartamudo, miau!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Vacina pra raiva

 

Vacina pra raiva

 

Passo diante de uma loja. Pessoas cantam Parabéns a Você.

Em vez de querer tomar parte do coral, a minha mão verifica se a carteira está no bolso. Automaticamente, suspiro.

Acontece que estou encafifado. Desde cedo, quando pediram para eu ter menos raiva. Como se minha vida fosse espalhar o baixo astral pelo mundo. Sem noção de que deixo as pessoas mais tristes depois de me encontrarem, talvez eu vá por aí sugerindo que elas verifiquem se o bolso não está furado.

Sintomaticamente, suspiro.

Não vou parar. Estagnação é morte. Vida é rio. Rio estagnado vira limo. A água fica verde. E começa a feder.

Para não feder, eu ando. Movimento-me. Me agito.

Só que agito com muita intensidade, ou por tempo demasiado, vai dar no contrário do desejado. Aí a gente fica pê da vida.

Pra não trotar ou sair em desabalada carreira, o melhor a se fazer é diminuir a marcha. Enquanto é marcha.

Sabendo que pode merecer punição, a pessoa que pratica marcha atlética respeita esta regra básica: um dos pés sempre tem que tocar o chão. Já os desobedientes, esses ganham a desclassificação.

Como não quero ser tirado do páreo, faço bom uso das narinas: o desodorante não está vencido.

Já que me sinto apresentável, posso pensar.

Ressabiado, leio no dicionário que “raiva” é uma palavra latina que significa “doença”. Como a gente fica furiosa, frenética e violenta, não se cura a raiva com chá verde.

Não creio que me falte coragem para experimentar o chá verde. A erva pode ser orgânica, a internet pode multiplicar seus benefícios, só que, como aprendi ainda menino, vou de mate.

Valorizo o chá mate que eu bebo. A erva nem precisa ser orgânica para me convencer a cultivar a fidelidade a este chá, que tanto me fez bebê-lo há seis décadas.

Os maledicentes dirão que uma criança criada à base de chá mate está condicionada. E sempre se bandeará para o lado dos bebedores dessa infusão maléfica.

É aqui que as raízes têm que ser esmiuçadas.

Há que se revolver o chão onde a erva cresce. Sem o veneno dos ofensivos, as mãos que preparam a terra são humanas. No trato com o planeta, as alegrias e as tristezas têm unhas e dedão. As enxadas ou tratores são instrumentos para que a lavoura cresça, seja colhida e eu beba o meu chá.

Diabinho que jamais morde a língua: mate é só outro chá.

Tomado o chá, a alma dá parabéns pela decisão. Ele me satisfaz, me acalenta, me faz sentir que tem ação imediata.

Que escolha feliz!

Da próxima vez, quando eu passar em frente de loja onde cantem Parabéns a Você, ou alguma música conhecida, também quero sorrir, bater palmas e cantar junto.

Vacinado, feito querubim boa-praça, vou dar petelecos nas minhas bochechas, nas rosadas bochechas de cidadão que controla a raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2026.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Um mundo de fantasmas

 

Um mundo de fantasmas

 

Tive uma semana de muita correria. Diferente da semana anterior, período em que precisei correr só uma vez, quando buzinaram.

Naqueles sete dias de calmaria, sem que me tomem por afrontoso à verdade, acho digno mencionar que havia um ônibus quebrado bem no meio da pista.

E foi no meu ouvido que buzinaram. Eu era o ônibus.

Fui convidado para um aniversário. Como raramente vou a festas, eu podia ter enviado um zap. Só que o churrasqueiro da vez merecia mesmo um abraço.

Na festa deste amigão, as pessoas sorriam, bebiam, comentavam os absurdos do cotidiano, eram bonitas, festeiras. Gente sem nódoas, eram lindamente triviais.

De um camarada bombado ouvi que a academia é mais que ferros e esteiras, é garantia de uma velhice saudável.

Santa sapiência! Eu sorri.

Penso que “velhice saudável” é um oxímoro. Não acho lógico dizer que ficar velho permita-nos conservar a saúde. Envelhecer é perder o controle sobre o corpo. Pra mim, envelhecimento é o processo natural de arruinar-se.

Sorrateiramente, a natureza toca adiante. Não vai a nenhum lugar, mas a gente acredita que segue em frente.

Para levar as batatas, não chamarei um táxi. Sou forte e não temo os desafios do mundo. Sim! Eu dispenso o fortalecimento dos bíceps, uma vez que nada na vida me proibirá de crer em mim. Sim! Vencerei os cem metros da feira até a minha residência.

Como o mais sábio dos mortais, continuei sorridente. Tudo ia bem. Bebi mais um copo de refri. Fui ao banheiro. Voltei. Peguei outro copo de guaraná. Tudo naquela paz. Só sorrisos.

Quando a gente sente que tem coisa acontecendo, aí tem coisa.

Eu não sou um cara tapado. Mesmo com a cuca entupida de refri, farejei no ambiente que a coisa era comigo.

Começaram a cochichar. Mal chegava com meu copo de guaraná, afastavam-se. Fui beber no quintal, e ninguém topou conversar.

Retornei, e um rapaz falou que sairia pra fumar. Dei uns passos, e outra moça falou que ia fazer xixi.

Com tantos a ter mais o que fazer, resolvi ficar parado. Achei bom abocanhar o último salgadinho de cada uma das bandejas.

Engraçado, o aniversariante solicitou que me retirasse. Eu cometi a gafe de presenteá-lo com uma camiseta.

É claro: sozinha, a camiseta não provocaria tal reação.

Longe de mim querer reacender querelas ultrapassadas. Só achei divertida a estampa: transfigurado por inteligência artificial, Karl Marx tinha as sobrancelhas, o narigão e os óculos do Groucho Marx.

Demorei um tanto para formar uma explicação menos blasé. Após percorrer dois ou três quarteirões, ainda com o pensamento a falsear as variações da mesmíssima ideia, parei e olhei a lua no céu.

Tudo se cristalizou.

No presente dado, faltava a frase primordial; com todas as letras a berrar: um espectro ronda o mundo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A boa preguiça da hora

 

A boa preguiça da hora

 

Só à noite, quando foi dormir, nem deu tempo pra ocorrer-lhe esta ideia: quem sabe o seu corpo trabalhasse como sempre, mas a tevê estava ligada.

Para o fio da meada nem fazer força para levá-lo de volta ao sofá, o seriado já estava passando.

Como seu estômago ronca ao meio-dia, fez o mínimo de esforço: trouxe uma maçã, duas bananas e um copo de água.

Rotina tem hora de almoço.

Sem a percepção de que adotara a dieta dos faquires, ele poderia rolar até o riachinho que corre nos fundos de casa. Se ventasse, até.

Rolaria. Tão manso... Fosse rolando.

Se o copo d’água estava com ele, tudo bem. Ele se sentou. Tinha o streaming. Não se deu ao trabalho de escolher, pois o riachinho de sereias as mais diversas já cantava algo narcotizante.

E o volume baixinho da tevê o fez cochilar.

Seduzido por Morfeu, a história foi se desenrolando de tal jeito que ele nem descascou a maçã. Babando, ele a mordiscava.

Deitado sem nem se dar conta: o episódio contou que uma criança foi sequestrada e uma babá foi acusada.

E veio o segundo episódio, a babá tinha seus motivos. Não estava com a razão, mas o roteiro trazia relances do passado.

Sem prestar conta: a segunda banana foi comida.

A tarde não fez marola... A hora da janta chegou...

No meio da jornada, o policial astuto tinha que alterar o conteúdo de um frasco. Sai oxicodona, entra paracetamol.

São as regras do jogo: o filho com necessidades especiais ganhou a vaga numa escola melhor equipada, com profissionais de finíssimas habilidades e mensalidade para quem possa pagar.

Disseram que vagas nunca caem do céu ꟷ a tal bolsa, sim.

A barriga voltou a roncar. A tevê foi pausada. Pelo que a geladeira lhe oferecia: o sanduíche foi de muçarela e presunto.

Como ao streaming não importa a higiene pessoal de quem segue assistindo, ele não lavou as mãos.

Os episódios avançaram sem que botão algum do controle remoto tivesse sido pressionado.

Mesmo a quem emenda um seriado no outro sem nem guardar os nomes, terem tantas pontas soltas era um final arriscado.

Para ter feito o que fez, a babá tinhas razões incontornáveis.

Na mansão da bilionária, o investigador destrama: não há enigma. A tal leoa proteger suas contas bancárias, isso nem é notável.

E veio o capítulo em que tudo fica esclarecido. Veio a morte que a história pedia. Veio o velório daquela personagem que nem precisava ter morrido. Veio ainda a cena na adega.

Fatal seria redimensioná-la.

O fundamental é que a cabeça no travesseiro nem perdeu tempo com a dúvida. Sim, ele pode ter emagrecido por inércia.

O sono foi pegando. O corpo foi cedendo.

De manhã, o despertador tocou: era o dia seguinte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2026.