Zunzunzum
Bem na minha frente, sem temer que eu
estivesse a dois palmos, tinha um pernilongo na tampa do mel.
Enquanto ele se alimentava de mel, meu
dedão tornou-o um borrão enegrecido na digital.
Lavar-me interromperia o desjejum. Numa
boa, desjejuei.
Sou um ser humano. Preciso de pão.
Coloco fatias de queijo Minas, e mordo com vagar. Não me apresso, deixo que as
notícias pululem a partir do momento em que me sentar para lê-las.
Quinta-feira de março, outra
quinta-feira de mais um mês de março, terei os meus noventa minutos para ler os
jornais.
Não vacilo, é rotina, é meu tempo diário
para inteirar-me da esquina, do estreito de Ormuz e da volta de um cronista bom
de papo a um dos jornais que assino.
Como afirmei, retorno e, sem dar nó, eu
ato o fio rompido: como ser humano que se alimenta de pão integral tão somente
no primeiro café da manhã, abocanho-o com moderação.
A porção abocanhada é triturada por meus trinta e dois dentes ― os vindo de fábrica e as próteses. E trituro com satisfação. Fecho os olhos. Divago. O pão que mastigo é produto rico em grãos, e gosto de triturá-los com os dentes todos. A maçaroca na minha boca é jogada pra lá e pra cá, porque sou o comandante em chefe da mastigação.
A minha neta corta o meu barato.
Ela diz que o militarismo embrenhou-se no cotidiano. Uma pessoa pacata ― que nem eu ou a que eu imagino ser ― nem percebe o quanto está a serviço da indústria militar, cuja visão bélica, no entanto, torna o Leviatã um monstrinho em pele de lobo.
Ana Catarina, a neta que imagino ter,
diz que lobo são animais que precisam de proteção. Não todos os lobos, segundo
ela.
Um torpedo que afunda uma fragata é o
tipo de lobo que já deveria estar extinto há décadas, cem anos, mil anos, desde
Caim.
O drama em curso vem de antes de Caim.
Quando o sapiens riscou nas paredes de uma caverna os primeiros bisões
abatidos, começou a cruzada da nossa espécie contra as demais.
― E contra si, vovô?
Poxa. Foi por impulso que abri o celular.
E Lascaux existe.
Pra tomar café comigo, neta minha fica bem
mais interessante com sutileza tão somente sua. No caso, Ana Catarina tem a
idiossincrasia de falar como se houvesse nascido em Piracicaba.
É fluente. Comunicativa. De bem consigo,
comigo e com a torcida do XV. Justamente por seus erres sugerirem que foi
criada no Paredão Vermelho, às margens do Rio Piracicaba, na Quinta da Rosa
Barroca, nessa chácara que inventei só para ela.
Se não mata pernilongo, ela come tilápia
do jeito que for: em tirinhas cruas, frita, assada ou ensopada. Sendo tilápia,
ótimo!
Com zunzunzum, Ana Catarina, este lobo
deixa outro pernilongo na tampa do mel. Ele que viva pra sugar mel, seiva de
samambaia, até o meu sangue.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 05 de março de 2026.