Quando
eu via filmes no cinema, achava constrangedor sair antes da fita acabar. As
pessoas ficariam comentando. Nem bem eu entrasse na padaria, viriam dizer que o
final do bangue-bangue foi ótimo.
Pena
o herói ter ido embora sem levar a mocinha junto, né?
Né!
Foi-se
aquele tempo de sessões de cinema às sextas. Depois tinha a pizza do outro lado
da rua. A gente criticava quando o disparate era tamanho que acabava estragando
a nossa compreensão.
Aquilo
de entrar no avião sem pedir que o galã assobiasse a canção que era só deles,
ora, falta de romantismo num filme de amor...
Francamente!
Para
ser honesto, acho bom viver o meu tempo. Porque hoje temos o privilégio de ver
filmes sem pegar garoa, pagar pela pipoca e falar baixo quando fala ao celular.
E
o streaming tem mais esta vantagem: série ruim a gente assiste a todos os
episódios de uma vez só.
Assim
que percebe que a mocinha vive pedindo para o amor da sua vida ajudá-la quando
está metida em enrascada, o jeito é fiar-se de que o mal-estar será maior se
não postar comentários negativos no máximo no início da madrugada.
Bem
na hora que o pessoal estiver voltando da pizza, ali pela uma, a notificação
vai alertar: a série do momento é um lixo que nem vale a pena de ser vista.
Pronto!
Agora a turma vai assisti-la até o dia amanhecer.
Levanto
cedo, cedinho, corro pro celular porque o mundo precisa ser comentado antes que
os outros o façam.
Leio
muita coisa. Critico sem parar. Minto, a vida chama: paro.
A
vida? Veja só que interessante...
Isso
de ter que andar apressado ꟷ já que agora é tempo para viver apressando os
outros e a si mesmo ꟷ é tolerar falhas no roteiro.
Como
se a vida precisasse ser coerente, plausível, acelerando pro desfecho:
inteligente, necessário, maravilhosamente humano.
Já
o amor faz doer pelo que falta, pelo que faz falta. Sim, tem certas ausências que
estão tão presentes que desnorteiam.
No
instante que a gente se vê desnorteada, pedir a canção do amor da nossa vida é
o melhor a se fazer.
Feito!
Hoje
mesmo. Agora há pouco. Aconteceu.
Eu
descia a rua. Vinha com as sacolinhas. Tudo ia bem até que um garotão e eu nos
emparelhamos na calçada.
Enquanto
eu vinha do supermercado pra minha casa, o adolescente ia adiante. Só que tenho
pernas maiores que as dele. Embora eu tenha passadas mais largas, o rapazote nem
liga para suas pernas curtas.
Chato
ou não, gente de passada maior chega na frente.
Quando
tinha a idade dele ꟷ uns doze anos ꟷ, eu já sabia que o mundo sorri quando
sorrisos dão espelho à alma.
E
a alma do garotão não pedia selfies, pedia games.
Brincando
com as sacolinhas, jogando-as pra lá e pra cá, ele tinha aquela leveza que eu também
tenho.
Achei
mais divertido encurtar as passadas, desacelerar, e passei a sorrir. Mesmo que
não estampasse no rosto, eu sorria, sim.
De
orelha a orelha, sorri quando ele olhou pra trás: vitorioso!
Com
passinhos curtos, respiração nada ofegante e a sensação de que faço menos
quando posso, entrei em casa assobiando:
Nada
do que foi será do jeito que já foi um dia...
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2026.
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