domingo, 22 de fevereiro de 2026

A velha canção

 

A velha canção

 

Quando eu via filmes no cinema, achava constrangedor sair antes da fita acabar. As pessoas ficariam comentando. Nem bem eu entrasse na padaria, viriam dizer que o final do bangue-bangue foi ótimo.

Pena o herói ter ido embora sem levar a mocinha junto, né?

Né!

Foi-se aquele tempo de sessões de cinema às sextas. Depois tinha a pizza do outro lado da rua. A gente criticava quando o disparate era tamanho que acabava estragando a nossa compreensão.

Aquilo de entrar no avião sem pedir que o galã assobiasse a canção que era só deles, ora, falta de romantismo num filme de amor...

Francamente!

Para ser honesto, acho bom viver o meu tempo. Porque hoje temos o privilégio de ver filmes sem pegar garoa, pagar pela pipoca e falar baixo quando fala ao celular.

E o streaming tem mais esta vantagem: série ruim a gente assiste a todos os episódios de uma vez só.

Assim que percebe que a mocinha vive pedindo para o amor da sua vida ajudá-la quando está metida em enrascada, o jeito é fiar-se de que o mal-estar será maior se não postar comentários negativos no máximo no início da madrugada.

Bem na hora que o pessoal estiver voltando da pizza, ali pela uma, a notificação vai alertar: a série do momento é um lixo que nem vale a pena de ser vista.

Pronto! Agora a turma vai assisti-la até o dia amanhecer.

Levanto cedo, cedinho, corro pro celular porque o mundo precisa ser comentado antes que os outros o façam.

Leio muita coisa. Critico sem parar. Minto, a vida chama: paro.

A vida? Veja só que interessante...

Isso de ter que andar apressado ꟷ já que agora é tempo para viver apressando os outros e a si mesmo ꟷ é tolerar falhas no roteiro.

Como se a vida precisasse ser coerente, plausível, acelerando pro desfecho: inteligente, necessário, maravilhosamente humano.

Já o amor faz doer pelo que falta, pelo que faz falta. Sim, tem certas ausências que estão tão presentes que desnorteiam.

No instante que a gente se vê desnorteada, pedir a canção do amor da nossa vida é o melhor a se fazer.

Feito!

Hoje mesmo. Agora há pouco. Aconteceu.

Eu descia a rua. Vinha com as sacolinhas. Tudo ia bem até que um garotão e eu nos emparelhamos na calçada.

Enquanto eu vinha do supermercado pra minha casa, o adolescente ia adiante. Só que tenho pernas maiores que as dele. Embora eu tenha passadas mais largas, o rapazote nem liga para suas pernas curtas.

Chato ou não, gente de passada maior chega na frente.

Quando tinha a idade dele ꟷ uns doze anos ꟷ, eu já sabia que o mundo sorri quando sorrisos dão espelho à alma.

E a alma do garotão não pedia selfies, pedia games.

Brincando com as sacolinhas, jogando-as pra lá e pra cá, ele tinha aquela leveza que eu também tenho.

Achei mais divertido encurtar as passadas, desacelerar, e passei a sorrir. Mesmo que não estampasse no rosto, eu sorria, sim.

De orelha a orelha, sorri quando ele olhou pra trás: vitorioso!

Com passinhos curtos, respiração nada ofegante e a sensação de que faço menos quando posso, entrei em casa assobiando:

Nada do que foi será do jeito que já foi um dia...


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2026.


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