terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O beabá

 

O beabá

 

Dedo a dedo, ela contava em voz alta. Para a contagem não acabar errada, usava o indicador.

Como a caçula sorria ao bater outra vez o dedinho em cada um dos dedos da outra mão, a irmã achou-se mais esperta.

― Sabia que eu sei contar até dez?

E demonstrou como. Com o indicador de ambas as mãos, foi do um ao dez. Confirmou-se: ela tinha mesmo dez anos.

A menina de cinco anos, porém, tinha muito mais imaginação. Quis o mundo ordenado, conquistou-o: havia cinco postes até a praça, cinco lixeiras até a padaria, cinco degraus até o dentista.

Por causa da injeção, ela odiava ter dor de dente.

A irmã que sabia contar até dez resolveu. Iria ampliar o mundo que a menor considerava completo. Ou iriam rir da sua criancice. Sendo mais velha, mais experiente.

Assim, a garota de dez anos falou que a rua tinha dois lados. Cada lado tinha dez ruas. Pela direita, se não errasse o caminho, dava para chegar na casa da avó e na igreja. Indo pela esquerda, a gente até chegava na escola, só que a padaria ficava no meio do caminho.

― Não existe padaria que não venda pão de queijo.

― A tia falou que cinco reais dá prum montão de pão de queijo.

A maior disse que a vida era mais bonita se a gente tinha dinheiro para comprar pão de queijo. Além de dois lados, dez ruas, a igreja e a padaria, havia a praça. Só que ninguém jogava moeda no chafariz.

O lugar mais gostoso de ficar era a praça. Tinha bancos. Não tinha apenas pombas. As andorinhas e bem-te-vis cantavam. O passarinho mais bonito era o joão-de-barro. Ele fez a sua casinha no ipê amarelo. Tinha muitas árvores, só que precisava das tias para varrer as folhas. Só o ipê tinha as flores mais bonitas, tão amarelas.

― Cê precisa ver como a árvore amarela é linda, Claudinha.

Claudinha estava espantada com o tanto de coisa boa que a irmã dizia. Ela conhecia bicho pelo nome. Assobiou que nem o bem-te-vi faz e voou igual ao joão-de-barro. Se voava de braços abertos, ela era que nem o próprio passarinho.

Só que até passarinho voa com gritaria. Ora, que gritaria...

Quem chegou foi a irmã mais velha de todas, a Carol.

O tio dizia que ela era melhor que uísque. A menininha não achava nada disso. O tio bebia uísque, ela nem tinha doze anos para já poder beber.

O tio levava a Carol para tomar sorvete. Ela nem tinha que esperar que fosse sábado. Podia tomar sorvete quando ela quisesse. Bastava pedir. O tio nunca deixava de fazer o que a Carol queria.

De uns dias para cá, a Carol deu de vomitar. Falavam de pizza, ela corria. Passava na tevê que bandido foi morto, a Carol virava chorar. E ela vomitava quando o baleado era policial.

O tio vinha de ônibus, porque morava muito longe.

Ele não tirava a roupa da farda. Com o ônibus lotado, ele protegia o motorista. Quando a nota era grande, o motorista não tinha medo de dar o troco. Até por causa da câmera, o tio podia ficar na escada.

A menininha não andava de ônibus nem sabia desenhar.

Um dia ela vai saber qual é o ônibus certo ― falou a tia de todas as meninas e todos os meninos que desenhavam quando ela entregava papel e lápis de cor.

A Carol não desenhava. O tio deu pra ela um diário.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2026.

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