Dedo a dedo, ela contava em voz alta.
Para a contagem não acabar errada, usava o indicador.
Como a caçula sorria ao bater outra vez
o dedinho em cada um dos dedos da outra mão, a irmã achou-se mais esperta.
― Sabia que eu sei contar até dez?
E demonstrou como. Com o indicador de
ambas as mãos, foi do um ao dez. Confirmou-se: ela tinha mesmo dez anos.
A menina de cinco anos, porém, tinha
muito mais imaginação. Quis o mundo ordenado, conquistou-o: havia cinco postes
até a praça, cinco lixeiras até a padaria, cinco degraus até o dentista.
Por causa da injeção, ela odiava ter dor
de dente.
A irmã que sabia contar até dez
resolveu. Iria ampliar o mundo que a menor considerava completo. Ou iriam rir
da sua criancice. Sendo mais velha, mais experiente.
Assim, a garota de dez anos falou que a
rua tinha dois lados. Cada lado tinha dez ruas. Pela direita, se não errasse o
caminho, dava para chegar na casa da avó e na igreja. Indo pela esquerda, a
gente até chegava na escola, só que a padaria ficava no meio do caminho.
― Não existe padaria que não venda pão de queijo.
― A tia falou que cinco reais dá prum montão de pão de queijo.
A maior disse que a vida era mais bonita
se a gente tinha dinheiro para comprar pão de queijo. Além de dois lados, dez
ruas, a igreja e a padaria, havia a praça. Só que ninguém jogava moeda no
chafariz.
O lugar mais gostoso de ficar era a
praça. Tinha bancos. Não tinha apenas pombas. As andorinhas e bem-te-vis
cantavam. O passarinho mais bonito era o joão-de-barro. Ele fez a sua casinha
no ipê amarelo. Tinha muitas árvores, só que precisava das tias para varrer as
folhas. Só o ipê tinha as flores mais bonitas, tão amarelas.
― Cê precisa ver como a árvore amarela é linda, Claudinha.
Claudinha estava espantada com o tanto
de coisa boa que a irmã dizia. Ela conhecia bicho pelo nome. Assobiou que nem o
bem-te-vi faz e voou igual ao joão-de-barro. Se voava de braços abertos, ela
era que nem o próprio passarinho.
Só que até passarinho voa com gritaria.
Ora, que gritaria...
Quem chegou foi a irmã mais velha de
todas, a Carol.
O tio dizia que ela era melhor que
uísque. A menininha não achava nada disso. O tio bebia uísque, ela nem tinha
doze anos para já poder beber.
O tio levava a Carol para tomar sorvete.
Ela nem tinha que esperar que fosse sábado. Podia tomar sorvete quando ela
quisesse. Bastava pedir. O tio nunca deixava de fazer o que a Carol queria.
De uns dias para cá, a Carol deu de
vomitar. Falavam de pizza, ela corria. Passava na tevê que bandido foi morto, a
Carol virava chorar. E ela vomitava quando o baleado era policial.
O tio vinha de ônibus, porque morava
muito longe.
Ele não tirava a roupa da farda. Com o
ônibus lotado, ele protegia o motorista. Quando a nota era grande, o motorista
não tinha medo de dar o troco. Até por causa da câmera, o tio podia ficar na
escada.
A menininha não andava de ônibus nem
sabia desenhar.
Um dia ela vai saber qual é o ônibus certo ― falou a tia de todas as meninas e todos os meninos que desenhavam quando ela entregava papel e lápis de cor.
A Carol não desenhava. O tio deu pra ela
um diário.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2026.
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