Até
babando
O domingo amanhece com nuvens tímidas a
salpicar o horizonte. Na veia aberta ao sentimental, a combinação do azul com a
leveza do rio, é razoável admitir que o mundo segue encantador.
Nem só de encantamentos vive uma pessoa
sensível.
Em certas ocasiões, não é natural querer
matar um desejo.
Pense: lamber sorvete ao assobiar La Vie
En Rose?
Não dá.
Sem as finuras de meio-tom, não há abafa
que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da desventura.
De tanto se achar em uma pintura de
Munch, a restrição se impõe: ou vai preparar o almoço ou vai a um restaurante.
Faz bem encontrar gente. Trocar umas
palavras sobre o tempo.
É obvio: xingar o governo tem que entrar
na pauta.
A este brasileiro não falta humor. Como
bom imaculado que ele é, os seus erros não passam de enganos.
Em sã consciência, ninguém se vê como digno
disso que o mundo vive impondo: dor, sofrimento, um futuro de indefinições.
O presente já não é uma página que, nos
dias de internet discada, rodava aquele: CARREGANDO.
Ficasse nisso, a manhã travaria. Contudo,
as maritacas gracejam, os amigos papeiam.
Para ouvir o disco Até Sangrar, dispenso o
almoço.
No banco de sempre, vejo os fiéis que terão macarronada e frango assado. Sim, eles oraram para tomar só dois copos de refri.
Áurea Martins canta: “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”.
Já os mendigos... Não temo que carreguem
o meu telefone.
E aí: “fica às vezes tão sisudo, porque
não compreende tudo”.
Sem pedir autorização, o ar circula da
cabeça aos pés.
A mulher amada “ficou para impedir que a
loucura fizesse de mim um molambo qualquer”.
Ciclistas vêm, circundam a praça e vão
por onde vieram.
E você “há de ver cheio de horror que no
fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que a gente “vive uma vida de
louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”.
Tudo está ligado. A sua mente não solta
do nada:
Tire o pijama!
Como não tem nenhum, comprará um.
Ele será 100% algodão. Terá estampa floral
que seja calmante. O tamanho precisa levar em consideração o físico desta
criatura.
“Acho engraçado quando um certo alguém
se aproxima de mim”, a Áurea está falando comigo?
Ninguém está vindo...
Só a minha cara baterá no assento do
banco.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2026.