domingo, 18 de janeiro de 2026

Até babando

 

Até babando

 

O domingo amanhece com nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Na veia aberta ao sentimental, a combinação do azul com a leveza do rio, é razoável admitir que o mundo segue encantador.

Nem só de encantamentos vive uma pessoa sensível.

Em certas ocasiões, não é natural querer matar um desejo.

Pense: lamber sorvete ao assobiar La Vie En Rose?

Não dá.

Sem as finuras de meio-tom, não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da desventura.

De tanto se achar em uma pintura de Munch, a restrição se impõe: ou vai preparar o almoço ou vai a um restaurante.

Faz bem encontrar gente. Trocar umas palavras sobre o tempo.

É obvio: xingar o governo tem que entrar na pauta.

A este brasileiro não falta humor. Como bom imaculado que ele é, os seus erros não passam de enganos.

Em sã consciência, ninguém se vê como digno disso que o mundo vive impondo: dor, sofrimento, um futuro de indefinições.

O presente já não é uma página que, nos dias de internet discada, rodava aquele: CARREGANDO.

Ficasse nisso, a manhã travaria. Contudo, as maritacas gracejam, os amigos papeiam.

Para ouvir o disco Até Sangrar, dispenso o almoço.

No banco de sempre, vejo os fiéis que terão macarronada e frango assado. Sim, eles oraram para tomar só dois copos de refri.

Áurea Martins canta: “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”.

Já os mendigos... Não temo que carreguem o meu telefone.

E aí: “fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”.

Sem pedir autorização, o ar circula da cabeça aos pés.

A mulher amada “ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”.

Ciclistas vêm, circundam a praça e vão por onde vieram.

E você “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que a gente “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”.

Tudo está ligado. A sua mente não solta do nada:

Tire o pijama!

Como não tem nenhum, comprará um.

Ele será 100% algodão. Terá estampa floral que seja calmante. O tamanho precisa levar em consideração o físico desta criatura.

“Acho engraçado quando um certo alguém se aproxima de mim”, a Áurea está falando comigo?

Ninguém está vindo...

Só a minha cara baterá no assento do banco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O balde

 

O balde

 

Tenho coisas para resolver. Como todo mundo, aliás. Mas sábado e domingo, tiro-os para pescar, me divertir, ficar na rede só espiando a rua. Como a maior parte da gente, também trato de não fazer nada que desabone.

Falar dos desastres da vida requer o cuidado: chover no molhado é carimbar-se um chato.

Neste final de semana, entretanto, a paz entre as pessoas de boa vontade fugiu. Por onde a graciosa escapuliu, eu vi.

Pela fresta da veneziana, enquanto consegui me segurar, eu fiquei observando o que acontecia.

Fui o chato que não pode perder-se dos detalhes.

Só que as pessoas precisam de vizinhos, tanto quanto este aqui. E lá fui eu. No entrevero alheio, meti a colher.

Quando me viram na cozinha deles, não foram frontalmente hostis nem me deixaram longe do fogão.

Tenho polegares opositores, afinal.

Com a churrasqueira pra limpar, o Epaminondas pediu minha ajuda: deu-me uma latinha. E fomos tirar da grelha o sebo, justo do churrasco a que não fui convidado.

Como vizinho que fará aniversário no mês que vem, Magali e o meu amigo já são os primeiros a encabeçar a lista de espera. Para mim, é ululante: fazer festa sai caro.

Encarecidamente, Epaminondas queria que eu opinasse.

Ontem, ele acordou aflito. Como a sua bexiga não é mais um relógio suíço, foi desesperador não ter o banheiro à disposição.

Magali tem destes hábitos: tomar banho ouvindo música em volume alto, cantar junto e não se ouvir. E chaveia a porta.

Magali, minha amiga, você não devia trancá-lo fora.

Ele choraminga. Não age como um companheiro sensato.

Agora estou numa sinuca de bico.

Para que minha opinião sincera não saia pela boca, seu esposo me oferece outra latinha. Embriago-me. Feito bêbado que tem a desculpa de não ser senhor da própria língua, fecho o bico.

E o que eu faço?

Para que pule o muro, sorrio. Na lavanderia de casa, urino no balde. Falo grosso, eu quero que ele faça o mesmo.

Urinamos.

Homem que pega rápido o sentido da coisa, Epaminondas não pula de volta. Ele vai até a frente da sua casa, toca a campainha.

Magali não acha engraçada a brincadeira.

Ela e ele se encaram.

Eu coço a cabeça de um vira-lata.

Casal que estraga até macarrão instantâneo, quem acha a solução é o Epaminondas.

Não era para ter graça, era para chamá-la ao ponto: se ele não pode usar o banheiro quando precisa, vão ter que comprar um balde só para ele urinar.

O vira-lata foi-se embora. Eu sorri.

Qual é o problema?

Magali olhou para mim.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2026.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Reaçãozinha

 

Reaçãozinha

 

De copo em punho, quis ver a vida além das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do verão, com o sol cantando de galo, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo perna.

Olhei as horas no celular. Passava das cinco.

Das cinco!

Curioso o que ocorre com a gente. Basta ficar ouvindo o jogral dos bem-te-vis, e pronto: serão seis horas.

Depois do almoço, deitei. Não abro mão da soneca no sofá, só que eu ronquei pesado. Quase na hora da janta, acordei babado.

Se corresse, recuperaria a tarde perdida. O tapetinho do banheiro cortou a ilusão. Dei com o peito no batente da porta.

Para não produzir maiores estragos, tomei os meus remédios.

Lavei o rosto. O cara no espelho sequer me fez sorrir.

O mais engraçado é que ontem, no escuro, vim leve pelo corredor. Não temi os fantasmas que dirigem os meus sonhos. Tendo pesadelo, acordo suado. Sem o horror de estar sozinho, fui ao banheiro.

Ébrio dessa felicidade ꟷ de viver para manter-me atento aos entes passados ꟷ, urinei no chão.

Fui relapso, mas não hesitei de limpá-lo, porque mamãe me educou para a higidez das minhas decisões.

Não sendo galinha pra cacarejar diante da ração do dia, penso que sou um sujeito que preza as lições no milho.

Nunca me obrigaram a ajoelhar no milho, nem na igreja. Já que fui coroinha porque achava bonitas as roupas. E tinha a chance de servir ao padre o cálice de vinho.

Não negarei: eu bebia escondido na sacristia.

Numa das vezes que estive bem alegrinho, fiquei olhando o Cristo na cruz. Pisei na bola. Não teve a sineta do Santo! Santo! Santo!

Mas isso são águas que não quero que retornem. Aliás, eu nem sou moinho para remoer os meus descuidos. Mesmo nos meus momentos menos felizes, não mordo os dedos. Gosto mais de pão.

Azar? Que azar?

O meu juízo diz que pata de coelho traz outras prerrogativas.

Salvar o mundo da próxima enchente. Trazer escada para gatinho na árvore. Dar de beber a quem pede pinga.

Prioridades que urgem ser atendidas, coelhinho.

Sem que meus cochilos pudessem impedi-los, os sinos decretaram o começo da noite.

Sim! São seis horas! Sim!

Para enovelar mais ainda meu dia aziago, começou a chover assim que pisei a calçada.

Tocado pelo amor ao próximo, o vizinho da direita deu-me lugar sob o seu guarda-chuva.

Simpático, ele é da direita na rua e de direita na vida.

O barulho da enxurrada. A minha camiseta molhada. Os perdigotos do camarada. Eu não estava preparado para achar que nada haveria de me apatetar. Nem os elogios ao Big Bear.

Hein!?! Cerveja numa hora dessa?

Voltei correndo. Não deu tempo. A urina derrotou-me.

Santa coerência!

O quentinho desceu por minha perna esquerda.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2026.

domingo, 11 de janeiro de 2026

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Com as eleições em outubro, janeiro chegou. Eu mal esperava mais quente. Já que os céus nada têm que ver com a prosa de cada dia, e sabendo que o bafo da entranha de um pastel mais esquentará o meu rosto: mordo-o com gosto.

Na feira de domingo, a comoção não tem mistério: fazendo a sua política, tem candidato beijando toda criança que apareça.

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

Sem se sujeitar às condições socioeconômicas, o beijo vira ideia.

Os tutores têm que ser responsáveis pela ambivalência: conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e fazê-la ver que o terno só vira fralda quando o candidato não faz jus à pureza daquela alminha sem pudor.

Quem assim o crê, engana-se.

O beijo não é ato inocente. Com o santinho colado no lado esquerdo do peito, nem mesmo sendo beijo no próprio filho. No fundo, ao beijar o filho, o candidato está no colo do pai.

Amplie-se a leitura: o candidato ideal nunca é perfeito.

A confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho. Como candidato, faz campanha. Usa as imagens. Vende-as. E esta exploração é política.

Para que a foto não seja revelada por inteiro, o candidato que posa de pai precisa do beijo em público. Com a audácia de sentir que a foto tem que ser lida pelo seu viés, já no papel de eleitor, ressalte-se: o voto vire beijo que eleja. E todo eleitor tem ansiedades.

O eleitor identifica: aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo há de tomar para si a luta pelo bem-estar de qualquer criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo ao seu filho e aos filhos de quem o eleja.

Já ao eleitor cabe reconhecer sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo. O jeito, então, é sorrir quando o seu bebê é fotografado por um desconhecido.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Quem pede colo, é consciente.

Já no colo, é direito do eleitor beijar o candidato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Renascimento

 

Renascimento

 

Se ainda desconfia, dou prova de que existo. Como dragão, quero dizer. É que estou cuspindo fogo. E não é de hoje. Há uma semana.

Tirar o mundo pelo mal, isso é comigo. Com pitadas de ceticismo e temperadinhas de ironia, faço por mim o que desejo que me façam.

Sou ético. E transparente.

Não uso o riso para debochar, uso-o no ataque. Não defendo. Os meus ataques que me protejam! Não sou patético, faço uso moderado da obscuridade. Flerto com o controle das pragas ― toco fogo no mato se a pilha de gravetos e folhas lambe a bunda da casa da árvore.

Casa da árvore, por sinal, que está a cinco metros do chão.

Se assim não fosse, eu seria outro exemplar dessa espécie rasteira, que medra satisfeito ali onde a brasa está extinta.

Ressentido dessa extinção, o fogo, em vez de fagulhas, dá patadas, passa o pé. Péssimo exemplo, faz cama de gato. E o inocente útil, tão ingênuo, vira bucha de canhão.

Para melhor atingir o meu alvo, que é falar sem agravar a situação, disparo silêncios de quando em quando.

Mais apurado, calo a matraca para só tagarelar quando as minhas palavras não chamusquem. Enfim, não flambo o bocó que me derruba quando estou calculando o quanto preciso medir a mecha para que eu não detone tudo ao meu redor.

Ser ético, portanto, é avisar: cuidado com o dragão, ele cospe fogo como quem serve Crepe Suzette. É delícia que sai caro.

Tudo isto posto: aos fatos!

Tudo acabou às 15h30 de um sábado, dia 20 de janeiro de 1996, lá em Minas Gerais, naquela cidade chamada Varginha.

Debaixo de chuva e ventania, três mulheres pararam subitamente. Ainda que chovesse e ventasse, elas perderam a pressa.

As mineiras viram o que viram porque tinham olhos para, mais bem, divisar o que a realidade queria que não percebessem o que era real, e não ilusão de alucinado que enxerga o que não quer pelo que não vê e acha graça onde não tem.

As três mineiras viram uma pessoa agachada.

Quando a pessoa agachada junto ao muro do terreno baldio virou-se, quem sabe para pedir um cigarrinho ou um isqueiro, os seus olhos avermelhados não tinham lágrima.

Que furdunço!

As três mineiras correram. Contaram que viram o diabo em pessoa. Que ele estava fazendo as suas necessidades como cão que faz o que faz sem atinar para o instituto que o ato tem...

Defecar em público é ato obsceno.

Houve na cidade um tal burburinho que o rastilho não apagou nem com os perdigotos da gente a fofocar o que a verdade pedia que fosse fofocada.

A verdade dita como a verdade que é: ninguém fofoca.

Já que o diabo em pessoa cagava no mato, as três mulheres viram o que a chuva e o vento não conseguiram camuflar, eis que o evento é ainda lembrado como o acontecimento que ele é.

Depois que toma conhecimento do fato, ninguém é mais o mesmo.

Todo mundo ganha alguma coisa.

Uma vez que não alcancei a fé que me daria vaga na astronave pra Kappa Ceti, admito: esta crônica não exorciza.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2026.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Adeus às ilusões

 

Adeus às ilusões

 

Corro. Enfrento-me, e não paro. O mundo melhor depende de mim. A vida nova foge. A realidade menos injusta aguarda que o idealista vá ao banheiro. De madrugada, o copo d’água não vira sopa. O espelho está limpo. O romântico passa que nem olha para trás.

O poeta conta moedas debaixo da cama. Vamos, pensador, durma de vez. A autoestima do lírico anda tão soberba que as baratas fazem cafuné. Já que o seu amor-próprio não descerá de cima do carrinho de pastel, a Utopia clama que pule. Distante a uma piscadela, a Ilha dos Amores envia garrafas vazias. Não as recolha nem mande ao mar os poemas que escreveu aos vinte anos.

Posso pôr em ordem crescente os boletos que tocam a campainha de casa. Nenhuma dúvida apaga a luz do quarto.

Não há pulga que me faça cócegas na barriga. Ouço quieto quem passa sermão. Sei com quem estou lidando.

De agora em diante, meu orgulho vai mancar. Pisei a latinha que fiz questão de pisar. Subirei a escada, me forçarei.

A vítima da rede ganha mais força a cada joinha. E eu não carrego página alguma. O meu celular dorme ao lado da cama.

Vivo para comer pelas beiradas o que somente é beirada. A razão precisa de um antiácido.

Uma vez que o sangue não esquece julho de 2013, o meu coração, pleito de 2018, precisa de outro turno. Na boca, a língua serve de isca a fantasmas surdos, que nem votam.

As ansiedades estão latindo no peito. As contradições denunciam os garranchos ainda sem garrafa. O perfume noctívago do olíbano se apega a desejos indômitos. Estou sublimando.

Miragens de shopping abarrotado assombram o cartão já abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção de fritas que recende a óleo rançoso. Finjo que não invejo a tulipa balançando por mais um chope. Há garçons, e o ar-condicionado engole meus gestos.

Os becos sem saída da calada da noite geram um apagão na Itaipu das sinapses tão lerdinhas. O sofá que me acolhe é o que me entorta o sono. Viajo deitado. Nem a sala rodopia nem as mãos atiram garrafas na porta.

Ó poodle a unhar o cercado que o barra, pule, vá para a sacada do apartamento. Lá na rua o mato cresce. Há paralelepípedos.

Ó gatinho que mantém a curiosidade, entre no guarda-roupa. Veja que o quarto é o mundo. E o mundo precisa de naftalina.

Ó frenética serra elétrica que corta o ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua, toque outra canção. Não peça que o coro das crianças esgoele o Hino Nacional.

A rua, esta rua, ela leva o nome de gente de carne e osso. A placa é tributo a quem é dado como exemplar. Mas este preito à pessoa que devia ter as finanças em dia... Cadê vacina a perdulário?

Não paro para pensar nem penso em parar para pensar.

Sei que o mosquitinho miserável que inocula os labirintos da febre está na sala, quer dar sua picadinha. Sei, é preciso mais médicos, mais professores, e bem mais arroz com frango sem picadinho. Sei, o arroz com feijão que seja servido com purê de mandioquinha.

Sim, o Quincas Borba vive latindo da estante. Sim, lato de volta.

Dou a letra: os aviões que pousam em Congonhas decolam; vou a Congonhas, lá a pedra-sabão traduz o engenho do Aleijadinho.

Pelo que sei, até onde sei ou acho que sim, faço questão ― a saber: corro. E não chego. E isso não chega, não basta, não evolui.

Caramba! Por que tudo isso?

Uma vez que agosto está vindo, eis o porquê.


Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.

  

 

PS – Neste Dia de Reis, agora você compreende o que eu quero dizer com: FELIZ 2026!

domingo, 4 de janeiro de 2026

Cumplicidade

 

Cumplicidade

 

Para se entender com os simples do mundo, é preciso aprender a improvisar. O senso dirá para segurar-se do riso, mas uma besteirinha espontaneamente amável pede para rir junto.

Se me permite glosá-lo, Montaigne: filosofar é aprender a rir.

Quando a mão que afaga é a que belisca... Meu bom filósofo, tudo bem. Não se faça de gracioso... Beba a garapa. Coma o pastel. Se for somente uma gentileza, pague a conta. Ora, a feira é livre.

Vá embora. Volte aos seus afazeres.

Quando estiver disposto, mesmo que nem esteja preparado, retome a crônica. Um dia, Seu Rodrigues, você não se deixou valsar ao sabor de arengas e milongas?

Hoje não. Baile ao sabor da cachola.

Deixe estar. Ainda que as formigas continuem na cadeira, sente-se e escreva o que o texto pede. Ouça as entrelinhas do texto. E antes de apagar, alterar ou confirmar a palavra seguinte, pense.

Vá em frente. Permaneça ao computador. Escute o que a razão diz, mesmo que a boca murmure. Aproxime-se da tela. Passe os dedos. O calorzinho é bom, ele indica que tudo funciona como deveria.

Sem a iminência de um desastre, respire.

Você se lembra da Páscoa de 77... Que jocosidade é essa?

O padre escalou-o para badalar os sinos. Você deitou cedo, dormiu o sono dos esperançosos e, às seis horas em ponto, achou divertido a confirmação daquela lei de Newton: ao puxar a corda pra baixo, a força contrária o puxava para cima.

E o padre e os paroquianos ouviram dos sinos que a Casa de Deus estava aberta. Viessem. A missa era comum e não era.

Nesse dia, o menino, em saia verde e na camisa de gola e punhos rendados, cuja beleza fora crochetada pelas mãos da sua mãe... Esse coroinha, cujo espírito moldava-se a cada evento em que se havia de intuir que corpo e alma são um...

Seu Rodrigues de agora, vamos lá... Dê razão a si quando afasta melancolias nostálgicas, pois aquele dia 10 de abril de 1977 escapa à areia do tempo... Ele é seu.

O coração bate, o sangue circula ꟷ recordar é filosofar com veias e artérias, em eterno fluxo.

A mão que digita é a mão que segura o copo de café.

Beberique. Sê inteiro enquanto beberica.

A tevê do quarto continua desligada. Ao se esquecer da insônia que o levou a encarar o fantasma na tela às três da matina, recorde-se: não tinha nenhum pernilongo.

Vá. Encha o copo novamente.

Concentre-se. Vem aí o momento de decidir-se pelo ponto final.

A crônica terá permitido que seja lida como mais um registro do que é transitório? Terá o cronista se permitido o tolerável num texto de sua lavra?

Deite a crônica para que descanse. Deixe o leitor se aproximar.

Respire. Relaxe. Revigore-se.

É domingo. Os sinos batem. Vem aí a missa das dez.

E o cronista sorri. Ele respira. Seu Rodrigues, está relaxado.

Diante do computador, sozinho frente ao texto: o conhecimento diz: o que não é espelho é reflexo.

O café, todavia, revigora?

Todavia, ele é revigorante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2026.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Bingo!

 

Bingo!

 

O primeiro dia do ano veio. Depois que tomei banho, o dia começou para valer. Estou pronto para enfrentar o que o momento põe na mesa: vou ver TV ou recolher as folhas do jardim?

Olho pela janela, os ipês continuam altaneiros.

Vou à varanda, constato que terei muito trabalho.

Ato contínuo: fecho o saco, tiro os joelhos do chão.

Seria o momento para um cigarro. A minha boca enche d’água. Mas há pessoas passando, e a fumaça iria incomodá-las.

Viver a dar razão a quem não tem é aprendizado difícil?

Mais que fazer balanços e promessas, a dificuldade para aprender é bem maior quando chega o tempo de eu usar uma vassoura.

Nem o suor me detém: jogo o lixo na caçamba.

O morador que cuida do beco não está. Mas há caixas com garrafas de espumante e vinho, conforme eu próprio confiro.

O morador que mora ao lado da caçamba chega. Ele me repreende: deixar o beco limpo não é serviço meu.

Se a janela do meu quarto capta as energias da virada?

Não é porque o ano está começando que optei pela boa ação. Um impulso tomou-me pelas mãos. Resolvi lavar o beco sem nada que ver com o cheiro de urina seca ou o aumento do vaivém dos ratos.

Para dar fim ao jogo, volto para casa.

O sorteio da Mega da Virada não foi feito. Aí tem coisa... Já que as seis dezenas nem seriam sorteadas ao vivo...

Quantas vassouras dá pra comprar com um bilhão de reais?

Esta manhã poderia ser outra, só não apostei.

A repórter está na rua. Aos aparecidos que a rodeiam, ela pergunta sobre os sentimentos pelo adiamento do sorteio.

Adiaram?

Vou tomar café. Antes, tomo outro banho.

Preciso dar uma olhada no quintal atrás da casa. Preciso realmente confiar em mim, que conseguirei tomar mais um banho.

Como quem empunha Excalibur...

Não pego a vassoura pra subjugar os inimigos da Távola Redonda. Sou apenas um homem que se dispõe a erguer um montinho de folhas, e depois, só depois, é que meterei fogo no bicho.

Pingue: a fumaça se espalha.

Pongue: o morador do beco grita comigo.

O terceiro banho desta manhã confirma que o primeiro dia do ano é prenúncio de que a boa sorte tem este recadinho: azar de quem não trabalha pelo mundo melhor.

Conhecendo o poder do vento, fecho as janelas de casa.

O morador do beco bate palmas. Vou ver o que ele quer. Ele entra, senta-se na cadeira de balanço, pede uma cerveja.

Como bom vizinho que eu sou, não rateio de ir pegá-la.

ꟷ Trouxe uma só? Tá me estranhando?

Para que não comecemos um bate-boca sem noção, evito a história do adiamento do sorteio do Bilhão da Virada...

Falamos do aguaceiro que caiu tão logo escureceu. Falamos ainda da ventania que nem durou dois minutos.

Sabendo que eu não conseguiria me segurar... Já que é preciso ter muita bufunfa para viajar para o outro lado do planeta...

ꟷ Você soube da maior? Que este ano o Réveillon chegou primeiro na Austrália?

ꟷ Isso é balela. Eu vi na tevê que o primeiro foguetório da virada foi em Sidney.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de janeiro de 2026.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em chamas

 

Em chamas

 

Apressados ou atrasados, não se enganem, pois não camuflo que construo uma arapuca ꟷ diante dos eventos, confiança é tudo.

Em paz consigo, desfrutem do espelho em cacos. Pra cumplicidade bem escanhoada, assegurem: a raiva sangre.

Corto-me ao fazer a barba. Mas não fico nisso: indo por aí, dou com gente mais idiota que feliz.

O infeliz que encontro nem me é conhecido. Só o vi num churrasco de nem sei lá quem fosse, justamente por isso: acena, vem, me abraça como quem me carregou no colo.

Ao amigo do amigo do meu pai eu poderia propor algo que o fizesse pensar, um fogacho que incendeie o que é palha.

A troco de nada, a senha da fortuna poderia ter sido dita. Todavia, ele foi comigo sacar uns dinheirinhos no caixa eletrônico.

Sacar na amplidão do meio-dia, isso me põe atônito.

Já que os olhos têm calor quando o que importa são os dedos que digitam, ao cronista não sejam atribuídos o testemunho contábil nem a guarda mnemônica do hipotético crime cometido.

Conversinha é areia nos meus tímpanos...

Esta ideia me pegou: nenhum almoço vire jantar, pago o almoço pro amigo do amigo do meu pai.

Pelo mundo a levar-me, observo. Sim, há quem peça que me afaste da bomba de gasolina, já que eu nem tenho carro.

Noto: entre posto de gasolina e caixa eletrônico, o valor da dívida, exibindo a pérola, acaba distorcendo o que seja ostra.

Amigo do amigo do meu pai, não lhe enviarei a imagem por e-mail, pois ela ainda é esboço...

Vem o Álvaro de Campos me desnortear, prefiro por isso o nada de ser apenas esse ser nada.

Não é o dinheiro que paga a cerveja, o caminhão que a transporta e o pedágio de uma ressaca, é a boca que não para de beber.

Cachola cheia de vozes, tenho a minha.

Meus demônios, são tantas as mentiras que escuto que o caminho pra chegar aqui é íngreme. Sem outras explicações, me enfurece quem foge de perguntas incômodas.

Não sendo sonâmbulo que nem penso o que falo: é provocado pela realidade que faço o que faço sem me abster das consequências. Sim, a voz que incendeia é: precária, provisória. Portanto, única.

Como eu não vivo um instante duas vezes, Heráclito: nem sei o que dizer sobre a arte.

Entre fogo e espelho, boca e garfo, nem tudo que seduz é arte, mas é preciso nominar arte o que se faz como sendo arte, pelo artesanato de fazê-lo.

Censor do artista, diz o rigor: quando salva, a arte condena.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2025.

 

 

 

 

PS – No livro SOPA DE SAPO, o título da crônica é Arquivo Morto, mas os amigos dos amigos do meu pai continuam serelepes. Daí que, rindo um bocado ao revisitar meus chavões, reescrevi o texto.

 

PS.2 - 2026, tenha dó da gente e vire, rapidinho, 2030, para que se possa celebrar o bicampeonato da nossa pátria de chuteiras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo. Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu. Dói-me quem sou, pois poderia deixar de ter a papada sobre o peito.

Nem ri nem chorei nem rezinguei, pois não me perdi argumentando. A favor ou contra mim, perderia tempo.

Ao perceber a minha incapacidade para impedir a cabeça de querer pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal.

Se saí sem calombo na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, ele foi útil para proteger os fundilhos. Por fugir do “marcha soldado”, eu sorri.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. Adoro viralizar as besteirinhas.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que eu fui dormir. Ainda nem tive o prazer de bebericar um frugal copo d’água acompanhado de bolachinha água e sal.

ꟷ Barriga vazia é oficina do demo, professa o faquir que nem é da família; e não é por ser magro de ruim, é pela pachorra de persuadir a gente que o inferno é não comer na hora, ficando na vontade.

Que diatribe!

Como ânsia minha, salivo.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada.

Insatisfeito, sucumbo: meu corpo é um gato tocando cuíca.

A coisa é tão ridícula que me escapole um riso, bem alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. Quem está perto nem me ouviu soltinho.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Esboço um interesse no homem que pinta.

Excelente! Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo: o homem pinta uma menina num balanço.

Cuidando para parecer desinteressado, já que não quero aborrecê-lo, ponho um olho no quadro e outro na menina.

Tem coisa que não bate. O colorido da tela parece que não retrata a cena. Forço o pescoço. O quadro tem algo esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

ꟷ Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2025.

 

 

PS ꟷ A crônica foi publicada originalmente no dia 11 de janeiro de 2022, mas a reescrevi. E a reescrita veio por me sentir motivado pelo desejo de um Ano Bom, um 2026 com o olhar afinado pelo que não se vê, e machuca.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Lixo marxista

 

Lixo marxista

 

Disciplinar-me ao irrefutável dos exemplos faz-me acolher a cautela dos desvalidos que não dispensam como lixo o que é descartável para restaurantes, lanchonetes, bares e carrinhos de garapa.

Fuço as gôndolas de supermercado; caço o que o bolso alcança se a mão não tira o escorpião junto com gordura e sódio condizentes com o que posso digerir sem maiores estupefações.

Para já, cônscio também das restrições gástricas, pesquei um tema menos pesado para deleite de quem lê.

Na real, a rede de neurônios capturou uma vibração, causada por uma palavra nova, coruscando estranhamentos.

Minha mente pulsava. Eu poderia especular sobre a proeminência de anfisbena, cuja existência tomei conhecimento por meio de Jorge Luis Borges.

Borges? Aquele Borges?

Sim, o visionário portenho que via no invisível a névoa traiçoeira, à qual, embevecidos, sujeitamo-nos ao sem-fim de miríades de filigranas que conhecemos por realidade.

Cabeça a cabeça, vou pela minha, que me deleita ao pulsar.

Quando dei conta, as pegadas me enveredaram por uns caminhos labirínticos. Não temi os chifres nem a espada. Quis o centro, o Aleph. Fui adiante. Eu previa o monstro, que era mais que chifres e habilidade com espadas, o monstro era feio.

Feiura por feiura, o espelho me acha no banheiro.

Com cara de bobalhão que até entende Arquimedes, acho que virei dublê de curupira a cruzar riachinhos. Não a figura bem conhecida. Eu era um ser de quatro pés ─ dois para frente, dois para trás.

Para me perder no rastro que deixo na caminhada, embrenho-me a salivar pelo prato feito, querendo mais que arroz com feijão.

Penso, e palpito, sobre o quanto de riqueza é gerado pelas mais de 170 mil microempresas que operam com as quentinhas.

Que tuítem os que têm estômago pra confronto besta.

Sem outras demoras, no intuito de municiar com petiscos o Governo agora em vigor, jogo as luvas no fogo. Como código, ordene-se:

1. “O segredo do sucesso é a honestidade. Se você conseguir evitá-la está feito!”

2. “Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E, atrás dela, existe a mulher dele.”

3. “Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas, custam tanto.”

4. “Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: é mesmo um idiota!”

5. “Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio.”

6. “Inteligência militar é uma contradição em termos.”

7. “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”

Serei deveras leviano ao afirmar que as iguarias acima constam de GROUCHO E EU, livro marxista que não lerei integralmente.

Groucho Marx, dou fé das minhas honestas intenções.

Que o famigerado volume fique empoeirando em livrarias, sebos e bancas de jornal. Que os supermercados, os mercadinhos de esquina e o escambau, nenhum queime o estoque pra agradar gente que lambe os beiços diante de uma banana.

No mais, levo muitíssimo a sério a pessoa que tem por epitáfio:

Perdoem-me por não levantar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2025.

 

PS – Para hoje, reescrita, eis a crônica publicada no dia 10/01/19.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Um segredinho...

 

Um segredinho...

 

Quando o senhor der as caras, Bom Velhinho, como boas crianças que dormem de olho aberto: seremos pegos no contrapé.

Por sermos arteiros, adorarmos uma fuzarca, nós juramos que não é por mal que nem lembramos o que fizemos nos natais passados.

Em que pé estamos, criançada?

Como não nos desviaremos do fuzuê que nós vimos fazendo pelos natais futuros, haveremos de nos empanturrar.

Suplicando um sal de fruta, feito pavê que sobrou da ceia, dou-lhes como nova esta crônica publicada em setembro de 2021:

 

O segredo

 

Com vontade de tomar laranjada: espremi algumas laranjas.

Sentindo o azedinho da laranjada, deu gosto bebê-la.

Sem questionar a essência do propósito, tomei nas mãos o bagaço da meia laranja que não havia jogado no lixo.

Era o crânio de um rei, segurei-o à altura dos olhos.

Estremeci, ele pedia algo simples. Queria uma verdade que soasse agradável. Entendi que eu não declinasse de escutar-me dizer o quão feliz um homem pode sentir-se.

Escutei o que iria dizer. Estudei como haveria de dizê-lo. Esperei o momento. Pelo instante que a alma sabia ser o certo, esperei.

Pra não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o mal-estar. Não sou formiga para dar ao prosaico a medida da justeza do que eu pedia: quero ser laranjada, uma laranjada bem azedinha.

Afinal, ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra: meia laranja, vá pra lixeira.

Dos subsolos desta estupidez que pulula na cachola, subi ao sol da praça. Porque lá sou amigo do banco, sentado sem chapéu, deixei-me ser engolfado pelos desconcertos do mundo.

Algumas pessoas conversavam miudezas.

Outras sustentavam-se, a iluminar a Baía da Guanabara.

As vaporosas, pessoas que vivem para estar de bem com o mundo, elas vinham, vinham, e não iam...

Não foi por prudência, ou medo, que os meus olhos, boca e ouvidos funcionaram como antenas, sondas.

E uma esponja, somente.

Pelas chagas que a compaixão fareja nesses animais humanos, tão meus semelhantes, prefiro abrir o jornal.

Ainda que vislumbrasse a meia laranja coberta de formigas, no lixo da cozinha, estimulei-me. De cabo a rabo, iria ler o jornal.

Como as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação dos pombos que não virei um resmungão.

Bufei sem discrição. Dei-me a ver como sendo o cara mais solitário na praça. Sentado ao sol, com a careca meio avermelhada, era eu.

E os pombos nem ligaram.

Foram chegando. Bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete, eram vários, e muitos.

Ora bolas, pombos!

Entendam-me. As desgraças lidas animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos lúgubres, ou só vocês, pombos. Nem sei se, terrificados, vocês arrulhariam depois de expostos.

Os dramas da vida?

Comum a cordatos, ansiosos, dissimulados, os dramas da vida irão ficar circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída alguma catástrofe iminente.

Que um cachorro veio pra cima deles. E eu falo sério.

Encurralado entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco. Foi mesmo, ele deu com o bico no banco.

Coitado do bichinho.

O mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza espiritual, tão humana: fui lento.

Sorte do bruto.

Como tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na presa atordoada, o cão virou um corisco.

Entre a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou mordida. Irrefutavelmente: fui outra vítima inocente.

Me escapuliu um azedo de laranja, que susto!

E o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos. Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga, que nem era comigo.

Fui à farmácia. Paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse minha.

Posso uma indiscrição?

Despertando tranquilizado, nem prestei atenção. Agora, percebo o erro que cometi. Raios! Não se deve ignorar um tremendo sinal.

Ao descer da cama, pisei o chão com a canhota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2025.