A
doce vida
A Mariana que encontrei ontem estava
radiante. De modo nenhum, ela não me encantou por estar fazendo compras. Prefiro
segurar esse comentário ― que bugigangas nos fazem esquecer do mundo que nos arruína
a pouco e pouco. Ao contrário, da minha amiga emanava o quê de sapeca, de
pimentinha, que ela, já garçonne gris, soltava um frescor da Liza
Minelli por seu baita sorriso Cabaret.
Apesar de sapatilhas, collants e tiaras
comporem uma das gêmeas na alegria bailarina de uma vovó toda orgulhosa, na
cena eu vislumbrei a minha semana: os dias sorriram e eu sorri de volta.
Até me contenta a constatação: a semana
foi tranquila.
Os pequenos percalços não apagaram em
mim a alegria de sorrir. Nenhuma topada em quina foi impedida por gesto brusco,
pois transitei suave pelas esquinas. Eu não me vi entristecido por frustração
alguma, eu fluí, fui esse rio a passar discreto, murmurante, benfazejo.
De segunda a sexta, o meu mundico foi
essa extraordinária avenida de semáforos abertos. Não tive que buzinar a cães,
não precisei xingar ciclistas, não atravanquei as veredas de pardais, joaninhas
e abelhas.
Caramba! Também estou orgulhoso. Putz! Sem
afetar vaidadezinha vulgar, fui bom. Cáspite! Ontem e hoje, sou outro exemplar
de pedestre que se preocupa em respeitar regras e malabares.
Posso dormir em paz, pela certeza de ter-me
responsabilizado pelo mandamento cívico: não atropelar nem ser atropelado, ter
mais um dia de cidadão civilizado.
Afinal, a civilização nos dá a cultura
do diálogo, do abraço afetuoso, da palavrinha amiga no gesso de quem chuta o pé
da trave.
Não faço pouco dessa gente tão sincera
que nunca solta capucheta porque acha coisa de pobre empinar papel que embrulha
pão ― óbvio, se houver filões e haja, mais óbvio ainda, moleques.
Que semana! Eu consegui não ser moleque
nem fazer molecagens. Nem parece que sábado foi ontem, que nem comi pizza nem
vi futebol na TV. Vivi uma semana diferente, que nem paguei bebida a ninguém,
nem fui ao bar nem tomei uma caipirinha na feijoada. Que sábado!
A semana é de segunda a sexta, o sábado
é pro descanso.
Já o domingo, hein? Eu não enfio o
domingo na matemática do dia a dia. É espaço fora do tempo, das rotinas
cósmicas, porque o domingo eu tiro para cortar as unhas, manter a careca careca
e cochilar quando o cochilo chega. Não passo aperto com domingo algum.
Carambolas! Ao fim e ao cabo, eis a que
conclusão eu chego: estou vivendo um momento único, vivo uma semana de sete
domingos, algo que nunca tinha vivido, uma fenda na minha vida, um domingo que
não exige que outro o siga.
Isso faz crer que, já que mergulhei
neste instante, voltei a mim que não olho pra trás, não cantarei rosas murchas,
não dissecarei bezerra morta, nem negarei que a felicidade é um domingo tão
meu, sem praia, solidão nem tédio.
Que belo domingo, bem regado a Pimentinha
Sessions.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de junho de 2024.