O
bode na sala
Algumas pessoas, por certo, vivem na confiança
de que vieram ao mundo para mudá-lo conforme o que pensam; outras há, sem
dúvida, que nasceram para batalhar por um minuto a mais na cama; tem ainda
aquelas que não queimam muito a pestana, levantam quando sentem que um minutinho
a mais é render-se à preguiça e, mesmo que o façam só por intuição, elas não veem
TV pela magreza das atrizes nem pelos desesperos dos humilhados, mas pelo gol
de placa da rodada.
Deve ser pela influência benéfica no
moral da gente que tem rodada todo dia, e isso não deixa de ser um tento a mais
na goleada aplicada em toda gente, seja a que vê TV ou a que dorme em busão.
Quando o sono cativa as pálpebras, não
basta eu lavar o meu rosto, tomo aquele banho.
Posso ter nascido para escrever, antes,
asseguro-me de ter nascido para tomar banho pelo que seja, até pra ver a água
indo pelo ralo.
O quanto os possa tomar, tomo-os. Uma
vez que banhos produzem em mim diversos efeitos. Quando busco relaxamento, quero-o
pela boa noite de sono. Para reflexões racionais quando dilemas me fazem suar
mesmo parado, banho-me pela duração que me faça menos passional. Se o
empoderamento é mais do que uma palavrinha na moda, o banho me permite escolher
a hora que convém começá-lo.
Na plenitude da prática, banho é
exercício de cidadania.
A felicidade, o bem-estar, a energia
positiva, a paz interior, a visão da tempestade que sobrevém à bonança. Sim, sei
que sou uma pessoa cuja presença no mundo pode ser melhor pelos banhos que
toma.
O destino veio marcado: que eu vá tomar
banho.
Quando dizem para ir tomar banho,
imediatamente cheiro o sovaco. Preciso mesmo? Quando verifico que não preciso, tudo
bem. Quando falam pra me cortar o raciocínio, digo que vou, e peço que venham.
Tomando banho, penso um tantico: se é
para fazer a mesma coisa, faça diferente. Eu faço. Procuro fazer. Quero fazê-lo.
Que seja feito do meu jeito. Desejo tanto que o banho me permita a criatividade
de achar o caminho que aperfeiçoe, minimize meus rancores, maximize os meus
risos e sorrisos, e faça-me veículo à felicidade.
Não alegro quem se quer feliz? Fico
cheiroso.
Quando quero ser encontrado pelo cheiro,
ensaboo-me. Deixo que a espuma perfumada fique em mim por mais que cinco
minutos. Relaxo com o cheiro bom que o sabonete tem.
No banho, sozinho, percebo e sinto. Acho
dispensável, não preciso da solidão. Solitário, penso e raciocino: dane-se a
conta de luz, pois a pessoa nascida para tomar banho tem mais que praticá-lo com
ou sem alinhamento de seis planetas do sistema solar.
Se sigo pelo rastro que alicia por
segui-lo?
Feito astrólogo com farta inexperiência,
guardo o controle: se banho não suaviza bafo nem lava intestino, menos ainda quando
as notícias sufocam de tanto metano dando coices na fuça, mudo de canal até dar
com um que exale a dama-da-noite dos meus desejos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de junho de 2024.