Murmúrios
e sussurros
A porta da cozinha abrir de repente foi
esquisito. Ela abrir por conta de uma rajada de vento que não houve, isso foi
assombroso.
Embora a gente fique arrepiada ao sentir
uma fantasmagoria, saber que o intelecto não alcança entendimento das coisas
sutis do universo faz pensar.
Mesmo quem não liga para sutilezas, pode
pensar disparates, como a porta ter sido aberta por alguma força telecinética
ou por algum vento imaginário.
Esquisito e assombroso, mas a mim me
pareceu fundamentalmente banal aquele evento. Para não cair no ridículo, comigo
aterrorizado por algo extraordinário, fui precisamente ordinário ao virar a chave
da porta duas vezes.
Se ficasse pasmado pelo choque, talvez
puxasse das profundezas da mente o fio caótico que a tudo une e torna real, mas
terror fantasioso é cachaça metafísica que mina na gente o tirocínio.
Para quem, ao arrepio das intuições, já
quase secou um litro dessa cachaça, difícil é achar resposta plausível que satisfaça,
ou inebrie que faça rir da pretensão de permanecer satisfeito comigo mesmo por
não entender que o absurdo da vida é já a ambicionada resposta.
Como os pensamentos desembestam quando
atiçados pelo súbito, justamente por acreditar que ruídos e sussurros têm
origem no mundo, este pobre-diabo não conseguiria parar em pé se fosse ouvir
atrás da porta, o jeito era eu seguir refletindo até o último gole.
Com o derradeiro gole, nada de
conjeturar sobre espíritos travessos ou almas cachaceiras. Pra que essa pinga
não virasse veneno, que eu cortasse o barato de embriagar-me com platonismos
vulgares e ficasse realmente bêbado, com a mente deixando-se brotar como licor
de anis a quem tanto o aprecia e bebe-o sem interdições.
Entre a realidade e mim, há metáforas.
Penso que a porta que se abriu sozinha me
fez retornar ao período que me abalou e fez-me refletir de que maneira eu vivia.
Aqueles dias de Covid-19 foram dias de medo.
Pra não ficar doente, vi-me forçado a isolar-me
em casa. As minhas compras eram quinzenais; e foram meses de estocagem de alimentos
e remédios. À beira de ataques de pânico, não tive nenhum.
Superei aquilo. Com doses maiores de
substâncias que o equilíbrio necessitava e meu cérebro pedia, sobrevivi àquilo.
Consegui porque emergi do poço. Não o
escalei borda acima, deixei a água acumular-se e, apesar da ideia de
afogamento, fui saindo e vim de volta ao mundo.
Quando não sabia que dia era, se par ou
ímpar, se sábado ou sexta, comprei um boneco. Coloquei-o de modo que ao me
levantar da cama eu desse com ele. Para não esquecer as reuniões via internet, ele
tinha que estar vestido de terno e gravata.
Mas veio o clarão.
Por dias, deixei-o nu. Deixei-o despido
até que não precisasse mais saber qual o dia da semana, até que compreendi a inutilidade
daquela pessoa de plástico.
Abri outra porta ao pedir demissão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de agosto de 2023.