terça-feira, 8 de agosto de 2023

Murmúrios e sussurros

 

Murmúrios e sussurros

 

A porta da cozinha abrir de repente foi esquisito. Ela abrir por conta de uma rajada de vento que não houve, isso foi assombroso.

Embora a gente fique arrepiada ao sentir uma fantasmagoria, saber que o intelecto não alcança entendimento das coisas sutis do universo faz pensar.

Mesmo quem não liga para sutilezas, pode pensar disparates, como a porta ter sido aberta por alguma força telecinética ou por algum vento imaginário.

Esquisito e assombroso, mas a mim me pareceu fundamentalmente banal aquele evento. Para não cair no ridículo, comigo aterrorizado por algo extraordinário, fui precisamente ordinário ao virar a chave da porta duas vezes.

Se ficasse pasmado pelo choque, talvez puxasse das profundezas da mente o fio caótico que a tudo une e torna real, mas terror fantasioso é cachaça metafísica que mina na gente o tirocínio.

Para quem, ao arrepio das intuições, já quase secou um litro dessa cachaça, difícil é achar resposta plausível que satisfaça, ou inebrie que faça rir da pretensão de permanecer satisfeito comigo mesmo por não entender que o absurdo da vida é já a ambicionada resposta.

Como os pensamentos desembestam quando atiçados pelo súbito, justamente por acreditar que ruídos e sussurros têm origem no mundo, este pobre-diabo não conseguiria parar em pé se fosse ouvir atrás da porta, o jeito era eu seguir refletindo até o último gole.

Com o derradeiro gole, nada de conjeturar sobre espíritos travessos ou almas cachaceiras. Pra que essa pinga não virasse veneno, que eu cortasse o barato de embriagar-me com platonismos vulgares e ficasse realmente bêbado, com a mente deixando-se brotar como licor de anis a quem tanto o aprecia e bebe-o sem interdições.

Entre a realidade e mim, há metáforas.

Penso que a porta que se abriu sozinha me fez retornar ao período que me abalou e fez-me refletir de que maneira eu vivia.

Aqueles dias de Covid-19 foram dias de medo.

Pra não ficar doente, vi-me forçado a isolar-me em casa. As minhas compras eram quinzenais; e foram meses de estocagem de alimentos e remédios. À beira de ataques de pânico, não tive nenhum.

Superei aquilo. Com doses maiores de substâncias que o equilíbrio necessitava e meu cérebro pedia, sobrevivi àquilo.

Consegui porque emergi do poço. Não o escalei borda acima, deixei a água acumular-se e, apesar da ideia de afogamento, fui saindo e vim de volta ao mundo.

Quando não sabia que dia era, se par ou ímpar, se sábado ou sexta, comprei um boneco. Coloquei-o de modo que ao me levantar da cama eu desse com ele. Para não esquecer as reuniões via internet, ele tinha que estar vestido de terno e gravata.

Mas veio o clarão.

Por dias, deixei-o nu. Deixei-o despido até que não precisasse mais saber qual o dia da semana, até que compreendi a inutilidade daquela pessoa de plástico.

Abri outra porta ao pedir demissão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2023.

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