domingo, 6 de agosto de 2023

Pregação idiota

 

Pregação idiota

 

A primeira coisa a ser dita é que o sol ficou curioso. Como não é de deixar por menos, a lua ostentou a mesma curiosidade e permaneceu onde estava. Porque só prestam atenção quando incitadas a tanto, as pessoas foram correr na praia sem notar nada de diferente. Entretanto, as aves marinhas perceberam, os golfinhos e as baleias perceberam, os corais perceberam, só a gentarada que corria à beira-mar é que não deu ouvidos à conversa aberta pelos astros.

Os pobres bípedes sem penas continuavam a tocar a vida como se a aurora de escol fosse mais uma, outra reles alvorada.

A improbabilidade de que ninguém tenha intuído que o esplendor a estupeficar quem o notasse singularmente belo era um erro de cálculo, pois houve quem percebesse a cena idílica como paraíso mental.

Embriagado de tanta luz, o Zeca acordou disposto a tirar o dia para divertir-se com coisas divertidas. Não seria divertido andar na orla, pois não havia mar nem maresia, não voavam gaivotas nem albatrozes, não havia surfistas nem banhistas.

Se não havia possibilidade de tsunami, havia a escolha pro dia: ele não faria as coisas chatas que o obrigavam a fazer porque falavam que tais coisas chatérrimas moldá-lo-iam pros desafios do futuro.

Cansado de ficar parado, não esquentaria a moringa: sairia à praça; vagamundearia sob o sol; escutaria um joão-de-barro, os bem-te-vis e os pardais alvoroçados; até esqueceria o relógio.

Uma vez que o Zeca não era fácil, ele não se admirava de perceber o truque do sol com a lua no céu àquela hora. Ele gostava de perceber o calor do sol, e percebia-o com a sensualidade à flor da pele.

A segunda coisa a ser dita é que o Zeca não era pessoa indicada a entender-se: com os prazeres que o seu corpo proporcionava-lhe; com a mente puxando ideias pelo rabo: se tem mar, tem praia; se tem praia, tem esteirinha na areia; se tem esteirinha, tem o sonhador mergulhado na imaginação que tanto o satisfaz; se está satisfeito, ele não quer mais borrar o que vê; é óbvio, que ele seja punido, condenado, julgado pelos desejos de estar na praia, à beira-mar, vendo as sereias que saltam da água, rodopiam no ar e mergulham no mar mais fundo.

O Zeca falava sério. Ele disse que o céu não desabaria na cabeça de ninguém. Ele repetiu diversas vezes que o casamento do sol com a lua era um fato atordoante. Disse que o sol e a lua estavam agindo em prol da humanidade. Que nós humanos continuássemos a perpetuar a espécie. Que aumentássemos o domínio sobre a natureza, dos átomos ao cosmo. Entusiasmado, ele defendia que a lei do amor prevalecesse, pois o amor move, e comove, as entranhas.

A última coisa que o Zeca podia negar-se a dizer é que o sol e a lua não sabiam que eram seis horas da manhã, que os muros e os postes não sabiam que o rádio esgoelava para o mundo: “quem trabalha, trata da sua vida; quem está ocioso, trata da vida alheia”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de agosto de 2023.

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