domingo, 30 de julho de 2023

Futurista

 

Futurista

 

Um grupo passa gritando que é sábado, não outro sábado qualquer, que este sábado é dia de alegria; mas eu sigo suando.

Seguramente hoje é sábado, mas não é porque é sábado que estou suando. De segunda a sexta, e aos domingos, ando suando à beça.

Se me pedissem pra especular sobre o inferno, não diria que o meu corpo é uma serra em chamas, com helicópteros largando volumosas massas de água na testa. Mesmo sendo sábado, seria em vão.

Hoje é sábado, estou preocupado com o calorão e pessoas passam gritando e batendo palmas, como se a alegria fosse o sol a seduzir-me à rua. Porque gritando e batendo palmas, dão a saber que zuretas são os outros, aqueles que não denunciam nem mudam a direção, vão pro abismo, pro caldeirão sem hidromassagem.

Não que pessoas alegres que gritam e batem palmas neste sábado façam jus ao estigma de doidinhas. Parei momentaneamente a leitura, pois palmas e gritos atrapalham-na. Não foi para aplaudi-las ou apupá-las, sequer para divisá-las como as veria se tivesse saído da poltrona: um meme.

Para passar gritando que a alegria é motivo para fuzuê, essa gente alegre deve andar radiante, cujos neurônios, todavia, estão uns graus mais abaixo que a temperatura ambiente.

Como não sou lâmpada fria, de led ou queimada, transfiguro minha irritação num sorriso festivo, que eu me faço gente como aquela gente, a gritar aos circunstantes que alegria é sol de janeiro.

Pessoas que sabem ser farol nem apelam para estimulantes como café, coca ou aumento salarial, vêm agitadas porque nem se lembram de como era a vida nos tempos de Matraca Trica e Fofoquinha.

Carregando sacolinhas plásticas, vindo do supermercado, vejo uma pessoa que conheço de vista, apenas profissionalmente.

Eu, que bebi café sem esperanças de trocar a poltrona por aplausos àqueles que gritavam, saí pra comprar pão, leite e ventilador.

Sentada com as pernas abertas, de bermuda e chinelo de dedo, ela limpa as unhas com um palito de fósforo.

Cumprimento-a de passagem, pois não quero saber que o sábado é dia de tirar sujeira das unhas, vestir-se de aposentado que adora este sol de praia, bem longe da praia.

Passo pelo sujeito das unhas, e dou-lhe bom-dia.

Não é porque ando vagaroso que me alegrarei com a oportunidade de dar bom-dia a quem foi motorista de táxi. É verdade que ele continua um camarada boa-praça.

No inverno passado, ele aguardou que eu terminasse de falar sobre o degelo das calotas polares, o avanço dos oceanos sobre as cidades praianas e a falta de brânquias nos humanos, ele disse:

ꟷ A mão do destino escreve torto porque é sinistra.

Não deveríamos, mas rimos.

E hoje é sábado, um pessoal passou gritando e batendo palmas, eu larguei o livro, trouxe um lenço pra me enxugar de quando em quando e, uma vez que não me manifestei, me corrijo a tempo:

ꟷ A consciência premedita: o amanhã seja feijoada completa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de julho de 2023.

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