Futurista
Um grupo passa gritando que é sábado,
não outro sábado qualquer, que este sábado é dia de alegria; mas eu sigo suando.
Seguramente hoje é sábado, mas não é
porque é sábado que estou suando. De segunda a sexta, e aos domingos, ando
suando à beça.
Se me pedissem pra especular sobre o
inferno, não diria que o meu corpo é uma serra em chamas, com helicópteros largando
volumosas massas de água na testa. Mesmo sendo sábado, seria em vão.
Hoje é sábado, estou preocupado com o
calorão e pessoas passam gritando e batendo palmas, como se a alegria fosse o
sol a seduzir-me à rua. Porque gritando e batendo palmas, dão a saber que zuretas
são os outros, aqueles que não denunciam nem mudam a direção, vão pro abismo, pro
caldeirão sem hidromassagem.
Não que pessoas alegres que gritam e batem
palmas neste sábado façam jus ao estigma de doidinhas. Parei momentaneamente a
leitura, pois palmas e gritos atrapalham-na. Não foi para aplaudi-las ou
apupá-las, sequer para divisá-las como as veria se tivesse saído da poltrona: um
meme.
Para passar gritando que a alegria é
motivo para fuzuê, essa gente alegre deve andar radiante, cujos neurônios,
todavia, estão uns graus mais abaixo que a temperatura ambiente.
Como não sou lâmpada fria, de led ou
queimada, transfiguro minha irritação num sorriso festivo, que eu me faço gente
como aquela gente, a gritar aos circunstantes que alegria é sol de janeiro.
Pessoas que sabem ser farol nem apelam
para estimulantes como café, coca ou aumento salarial, vêm agitadas porque nem
se lembram de como era a vida nos tempos de Matraca Trica e Fofoquinha.
Carregando sacolinhas plásticas, vindo
do supermercado, vejo uma pessoa que conheço de vista, apenas profissionalmente.
Eu, que bebi café sem esperanças de
trocar a poltrona por aplausos àqueles que gritavam, saí pra comprar pão, leite
e ventilador.
Sentada com as pernas abertas, de bermuda
e chinelo de dedo, ela limpa as unhas com um palito de fósforo.
Cumprimento-a de passagem, pois não quero
saber que o sábado é dia de tirar sujeira das unhas, vestir-se de aposentado
que adora este sol de praia, bem longe da praia.
Passo pelo sujeito das unhas, e dou-lhe bom-dia.
Não é porque ando vagaroso que me
alegrarei com a oportunidade de dar bom-dia a quem foi motorista de táxi. É
verdade que ele continua um camarada boa-praça.
No inverno passado, ele aguardou que eu terminasse
de falar sobre o degelo das calotas polares, o avanço dos oceanos sobre as cidades
praianas e a falta de brânquias nos humanos, ele disse:
ꟷ A mão do destino escreve torto porque
é sinistra.
Não deveríamos, mas rimos.
E hoje é sábado, um pessoal passou gritando
e batendo palmas, eu larguei o livro, trouxe um lenço pra me enxugar de quando
em quando e, uma vez que não me manifestei, me corrijo a tempo:
ꟷ A consciência premedita: o amanhã seja
feijoada completa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de julho de 2023.
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