terça-feira, 1 de agosto de 2023

Vacinados

 

Vacinados

 

Eu passeava com o cachorro.

Não é pelo gosto de zoar comigo, ele não resiste a um poste desde que o peralta era filhote. Quinze anos depois da sua entrada na minha vida, a euforia segue parecida. Por razões que ainda ignoro, o bichinho se esforça o quanto pode para que não o impeçam de fazer o que tanto o convulsiona. Cheira que cheira, roda que roda, e, abanando o rabo e latindo, batiza-o.

Era outra de nossas caminhadas noturnas.

Ficamos no quarteirão. Mesmo que não nos apressemos, fazemos a volta em pouco tempo. É raro levarmos mais de meia hora pro trajeto ficar completo: da porta de casa à porta de casa.

Assim que a garoa parou, saímos.

Marx e eu mantemos a rotina. Todos os dias, depois do café e após o jantar, caminhamos. O quanto podemos, vamos devagar.

O mais que posso, procuro andar sem pressa. Não é porque tenha comido demais que gosto de ir com calma, vou devagar pra não perder o fôlego. Se eu preciso puxar pelo ar, a coisa vai mal.

Dá uma paúra danada me descabelar pelo que seja. Sinto a fisgada; antecipo agulhadas. A boca fica amargosa, ela seca, fica ressequida.

Nestas circunstâncias, um banco me abalaria como um poste, mas não fico apavorado com a distância que me separa da praça. Sem que a coleira machuque-o, refreio o meu basset.

Ele não banque o companheiro atencioso do sujeito desmaiado. Ele não invente de lamber a boca de quem demora um pouquinho pra abrir os olhos. Se acha que pode agir como um bom animalzinho amestrado, ele que lata e não pare de latir até que mãos humanas apareçam para erguer o coitado caído na calçada.

Como nunca fui marxista, não confundirei desmaio com morte.

Caminhávamos quando uma pessoa veio falar comigo.

Durante a pandemia, a tal não foi vista de máscara de jeito nenhum. Era desnecessário, porque o corona não era perigoso como pregavam. Era uma vergonha que os boatos pegavam entre indivíduos instruídos. Era uma invenção pra prejudicar o comércio. Com os empresários sem renda, tinha mesmo que inflacionar o número de desempregados. Mas, pessoa inteligente, ela soube ligar os pontos.

Marx e eu paramos, antes não o tivéssemos feito.

Ela não deixou por menos. Quanta bobagem disseram os cientistas. Começaram com álcool nas mãos. Era necessário desinfetar bananas. Ninguém podia abraçar. Um espirrozinho que fosse podia matar. E era um tal de SARS-Cov 2 pra cá e RNA mensageiro pra cá. Sempre para cá, pro lado mais frágil.

Com a graninha de quem se assusta com gente que fala difícil, uma cambada astuta vai tratando de encher a burra.

Ela não tomou vacina alguma, pois pessoas vacinadas com drogas cientificamente transfiguradas estão espalhando calamidades que nem os laboratórios conhecem. Sem dúvida, tem muito risco no mundo. Não importa se condenam, quem atualmente usa máscara continua do lado certo da verdade.

À vera, Marx e eu seguimos em frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2023.

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