Agradecimentos
De cabeça quente, cerro as pálpebras por
um tempo. Preciso dele, forço-me a tê-lo, embora não lide bem comigo quando me
obrigo a dar-me um tempo. Mal administrador, quero ficar livre de problemas. Se
eu fosse bom em procrastinações, excitar-me-ia menos ter um coringa na manga. Porque
me excita, vejo a bajulação como defeito positivo, pois eu aprendo a valorizar
o diálogo quando fico calado.
O quanto me calo?
Com o peso da mão sobre a barriga, só
então eu percebo que havia adormecido na poltrona. Mas não vou reclamar do
cochilo nem maldirei do almoço, até porque eu nem dormi direito.
De certo mesmo é que comi tudo, pois peito
de frango grelhado com arroz e feijão é combinação que me põe lesado sem atiçar
o estômago.
Agradeço a comida que fiz; e estou
satisfeitíssimo porque nem terei que lavar o prato, já bem limpinho porque o
lambi com gosto.
Prazerosos são esses hábitos que pratico:
tirar uma pestana como se fosse a última; agradecer o básico como se fosse
lógico; cadenciar com esdrúxulas por cacoete Chiquíssimo.
Só que eu estou torto.
Não me notei torto assim que acordei. Desde
antes do almoço; logo cedo, quando lambi a colherinha depois que adocei o café.
Se tivesse lambido sorvete, eu estaria melhor.
Como desejos têm que ser atendidos, vou
ao pote e tiro lascas de flocos. Admiro-me da cachola que sorri, não me jogarei
na poltrona.
Sento-me no vaso; e o celular toca, tranquilamente.
Tentam me convencer. Oferecem desconto na
assinatura do jornal que assino. OK! Querem perder dinheiro. Aflijo-me, quero parabenizar
de imediato quem pensa em gente como eu, que não se incomoda com telefonema
logo quando está sentadinho no vaso sanitário.
Que oportuna maravilha! Tratem de cobrar
menos, pois eu prometo assinar a cada vez que me ligarem comigo ocupado com
essas coisas de entranhas, intestinos e excrementos.
Agradeço-lhe, telefone, pelo seu
perfeito entrosamento comigo.
Telefone, não basta tocar bonito, porque
aparelho decente mantém a ligação e não sofre com ruídos, interferências ou
linhas cruzadas.
Pacifica-me ouvir quem fala com
segurança.
Ter voz firme é atributo de quem sabe o
que tem para dizer. Quem conhece a arte da comunicação está treinado. Artista
da comunicação é quem passa adiante a realidade como se falasse a um amigo.
Artista que telefona, agradeço-o por me
fazer crer que nem preciso falar que sou mesmo o seu melhor ouvinte.
Agradeço por deixá-lo esfriar minha
cabeça, por me fazer ouvi-lo a falar de mudança de planos, por não falar
somente que arroz com feijão é coisa boa para toda gente.
Agradeço-o, portanto, por não me
irritar, por não me fazer acreditar que o mundo anda desafinando pra caraca.
Que caramba!
De coração eu agradeço, pois não é fácil
encontrar pessoa que não esconda que a solução mais simples teria sido tirar o
capuz e não vestir a carapuça.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de julho de 2023.
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