Pimpão
à pampa
Sem mais nem menos, fui interpelado por
um menino:
ꟷ Com esse frio, por que o senhor não
usa peruca?
Seu Rodrigues, por que não?
Porque peruca à la Jack Sparrow não
melhora a imagem: quem usa parece que não é chegado a banho; o jeito é passar
longe de pessoa ensebada, não só pelos piolhos, certamente pelo cheiro.
Embora escove os dentes e gargareje com
antisséptico, o meu bafo nunca fica imune ao cheirinho. Com toques de cigarro e
caninha, nem eu aguento inspecionar o meu sarro matinal.
Acordo na cama, mas desperto mesmo é quando
lavo o rosto, à pia. Se não desinfecta de pesadelos, a água fria recauchuta-me pro
dia.
Vivo numa era em que bugigangas elétricas
tornam o mundo menos sofrido; embora tantas vezes dolorosa, a vida dispensa dramas
épicos que me façam recorrer a valentões de espada em punho.
E tomo banho porque eu gosto. Banho-me
todos os dias. Relaxo no chuveiro. Aproveito bem a chuveirada. Eu, todavia, não
fantasio: o que for pequeno que continue pequeno; o que não preciso remoer, eu não
remoo, que isso acaba esquecido.
Sem me gabar de que evito desperdícios, quiçá
um bocó comedido, confesso que eu acho bastante divertido encher a boca,
bochechar-me com a água quente e cuspi-la com bastante energia.
Já que eu me referi às cabeleiras
emblemáticas da série Piratas do Caribe, se fosse para pinçar uma dentre
as várias, eu elegeria a exibida pelo Geoffrey Rush em A Vingança de Salazar.
A quem ainda não viu o filme, descrevo-a:
fios brancos, cacheados, longos, de nobre isabelino, cortesão empoado, cujo
cotidiano civilizado acena a diabruras alcoviteiras, mesuras galanteadoras,
maquinagens em torno da coroa, minuetos de manjadíssimas contradanças.
Ruim no requebrado, péssimo para chás de
cadeira, entre os piores na dança das cabeças, por justiça a uma peruquinha
maneira e porque rir sem modos é infantil, eu não ridicularizo quem ri diante
de um solene representante da pompa.
É legal rir junto.
Seu Rodrigues, não empaque nas contas.
Você rirá sozinho caso acredite que a
criança também rirá. Pense com cuidado, é evidente que o menino não tem rodagem
suficiente pra imaginar quem são Johnny Depp do Pérola Negra ou Hector Barbossa
a soldo de Sua Majestade.
Embora possa fazer graça com os
glamourosos guardiães do fausto sobrevivendo em cortes forenses, não creia que
a garotada vá a sítios eletrônicos para virtualmente descobrir que peruca de
advogado ou juiz pode ser comprada no boleto ou no cartão.
Como não sou doutor causídico nem
meritíssimo arbitrador, o bobo aqui pode achar fantástico haver guris vestidos
como o Bozo, devendo, entretanto, pedir às mamães pra que corram do topete
laranja de certo espantalho, daquele nada engraçado espertalhão gringo.
Sem patati nem patatá, eu falei uma
verdade cabeluda:
ꟷ Garotinho, não uso peruca para ficar bem
mais simpático.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de julho de 2023.
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