Nem
pro santo
ꟷ Seu Osman, o que me diz da volta da
cobrança do sindicato?
O homem só moveu o charuto de um canto
da boca para o outro.
ꟷ Romualdo, seu paspalho, o certo não é
cobrança do sindicato, o certo é dizer que é contribuição sindical, não é, Seu
Osman?
De volta pra esquerda, o homem moveu o
charuto.
ꟷ Deixem ele em paz; disse a mulher
atrás do balcão.
ꟷ Dona Josefa, a gente quer ouvir a opinião
do Seu Osman porque ele trabalhou no sindicato até se aposentar.
ꟷ Dona Zefinha, Seu Osman trabalhou por mais
de trinta anos sem nunca ter saído do sindicato, sempre fiel, né, Seu Osman?
O homem tirou-a, bateu-lhe a cinza e
repôs a bituca na boca.
Trazendo em cada mão um menino, o pai
pediu dois pastéis: um de queijo e outro de carne. Mas os filhos queriam, ambos,
pastel de queijo e de carne, os dois. Se tivesse pimenta, queriam. Se tivesse
mostarda, também queriam. Se o pai pudesse, queriam ainda um quibe cada um, desde
que tivesse limão cortado na hora.
Pondo os salgados num prato, a mulher
abriu-se em sorriso:
ꟷ As crianças de hoje em dia sabem bem o
que querem. Dá gosto ver que fazem questão de pedir sem constrangimentos. No
meu tempo da idade deles, era impossível de acontecer. Não se podia abrir a
boca pra dizer qual a vontade que a gente tinha.
Quando ia enfiando na maquininha o
cartão de débito:
ꟷ Não esquece da Coca família, pai.
ꟷ E tem que ser beeem gelada, pai.
Nisso, a TV exibia imagens relativas ao
Primeiro de Maio.
ꟷ Aumenta o volume, Zefinha.
Apareceu um sindicalista, o presidente
do sindicato que era o líder dos operários há mais de quarenta anos. Ele dizia
da importância de o salário-mínimo ter aumentado. Pois os dezoito reais farão a
economia girar. O povo não comprará somente o básico da sobrevivência. Além de
bife, arroz e feijão, irá comprar um par de sapatos novo, realizará o sonho de
ter um celular muito moderno. O mercado ficará satisfeito. A indústria
aumentará a produção. O comércio facilitará o crédito. E todo mundo do Brasil
vai sorrir outra vez. A dignidade do trabalhador estará no sorriso de quem paga
as contas e pode planejar aquela viagem pra praia, pra montanha, pro parque
aquático, pra pizza com a família. Pra dar o animalzinho de estimação pro filho
caçula que tanto pede pra ter um pastor chamado Pequeno Polegar, igual ao do
seu avô.
O homem que permanecera mudo durante a
fala inteira do tal herói da classe trabalhadora, levantou-se, pediu café e
virou o copo de vez; pegou um fósforo da caixa que ficava disponível para os
fregueses em cima do balcão, acendeu o charuto; bebeu outro copo.
ꟷ Ouviu, Seu Osman. O trabalhador ajudará
a reconstruir o Brasil. Ganhando mais, será feliz do jeito que tem que ser. Sem
espertalhão pra doutrinar pra que não seja.
Sem abrir a boca, o homem pegou a gaiola
ꟷ pena que o corrupião não cantou ꟷ e saiu.
Disse a dona:
ꟷ Seus idiotas, o nome dele é Altair,
Altair Filho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de maio de 2023.