Mensagem
secreta
Na falta de neve, garoa. Faz frio. Mas,
não me lastimo de que garoe e vente frio. Uma boina protege a careca; o moletom
aquece; mais que as janelas fechadas, são os goles de café que me animam.
A cafeína no meu sangue acorda a alma pra
pensamentos que nem imaginaria necessários ao bem-estar.
Sinto-me bem. Sinto que me é necessário
estar bem, pois posso ter a mente clara, calma, sensível ao instante.
Ainda que eu ache empolgante uma ideia
emendar em outra, estou sereno, pois estou certo de que penso com a clareza dos
cafeinados.
Porque se esforçam em fazê-lo, pessoas
animadas espalham o alto astral de modo benigno.
Pra ser honesto, tenho sorte. Tê-la faz
de mim uma pessoa melhor, porque reconheço que preciso demonstrar o quanto sou
grato.
Quando a gente sabe reconhecer a
gratidão que tem a oferecer às pessoas, o coração entende porque bate feliz,
porque faz essa música que satisfaz sem provocar suor, pigarro ou piscadelas.
Quando se tem este sentimento de que a
felicidade é contaminante, a alegria impele a querer o bem a muito mais gente,
a quem nem pensa que possa captar essas ondas mentais que dão leveza.
Ora essa, sei que opinar é irrelevante;
sentir-me bem enquanto faço o que posso é o que há de mais importante, pois
modifico a sensação negativa só porque está garoando e ventando frio.
Pois, este céu cinzento não me deprime,
me tranquiliza, faz-me ver: garoa é bom para plantas, suas raízes.
Por um momento, um instantâneo
horripilante, acho que a natureza pode tornar inóspito o ambiente onde neva,
chove, venta, cai a energia elétrica, não há aquecimento, o ar a cinquenta
graus celsius negativos, ó miserável horror, mata quem esteja obrigado a respirá-lo.
Eu não fiz um pedido malfeito nem o fiz
pela metade, o meu bendito pedido foi atendido de acordo com o que mentalizei.
Ainda que o tempo esteja ruim em meio
mundo, não vou me culpar por essa garoa gelada, que me permite dormir melhor,
comer melhor e até pensar melhor, pois não me sinto culpado se fui ouvido.
Aliás, garoa não é vírus pra deixar a
gente gripada.
Dezembro dos sonhos? Hum...
Uma vez que ninguém me convidou pra
nenhuma ceia de Natal com algum salmãozinho, que não me desce bem nem quando é servido
cru, acordei em paz com o mundo.
Se houvesse aceitado ir, teria comido e
repetido. Mesmo consciente do muito que seria afetado, culparia a intragável
calda de ameixa sobre aquele peru tenramente assado.
Ora, não estraguei o estômago porque
sequer pensei no assunto.
Estou tomando café, comendo panetone,
olhando a gata que conta comigo pra deixá-la sair. Na maior tranquilidade, permito-a
que saia.
Os pardais voam com o rangido da porta.
A gata solta miadinhos de ansiedade,
pois ela espera que aqueles passarinhos retornem.
Se entre a gata e mim houvesse
entendimento, ela formularia:
ꟷ Pra quê, diabos, eu existo no mundo?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de dezembro de 2022.