Volta
ao mundo
Se eu adiantasse as dificuldades, teria
ido mesmo assim. Afinal, era pra ser uma estadia curta, precisava que fosse.
Sem alvoroços com a agenda apertada, era recomendável que permanecesse sereno
ainda que outros rumos desandassem as coisas.
E as coisas simples viram dificultosas
quando estou carente de uma boa tarde de paz, daquelas com bem-te-vis cantando,
cães latindo nos quintais e amoras no ponto.
Eis o problema para o qual eu não
encontro outro desfecho que não seja lógico: amoras no ponto incitam a pular o
muro; correr de cachorro bravo excita; definitivamente, assustar bem-te-vis é
insignificante.
Ora, ora, juntando lé com cré: se o
descrito for fidedigno, a fuga dos passarinhos é coisa à toa, pois chegar a
isso é que são elas.
Antes que enverede mais pelo tronco,
cuido da referida ida.
De saída, já no carro que me levava ao
litoral, foi ao colocá-los que constatei que os óculos certos ficaram na
gaveta.
Não me desabona a afobação, pois um dia antes
da viagem peguei o estojo e, sem a curiosidade de abri-lo para verificar se as
lentes eram nos graus da última receita aviada, deixei-o ao lado da carteira.
Poxa, não pude me fantasiar a caráter. Ainda
que eu goste tanto de zanzar pela praia de boné, chinelos de dedo e lentes
espelhadas, sem nenhum traço borocoxô, espontâneo feito um caiçara da gema,
encarei o calçadão.
Embora não me tomassem por turista,
sentia-me um.
Mas ninguém teve dó de mim, mesmo comigo
com a mais genuína cara de mané. Sei fazê-la, compondo-a como se aguardasse
respostas às perguntas que, no fundo de mim, brotam das tristezas.
Anjinho de chinelo de dedo, óculos de
intelectual e boné do Chicago Bulls, ansiava silenciar-me:
ꟷ Gente gentil que goza das gostosuras
que não gosto nada, sofro gasturas como vampiro viciado em chá de alho.
Já que o sol tinha ressecado a alegria
da minha língua na casquinha mesclada, partiu da carteira dar-me autorização a
beirute, duas esfihas de carne, fritas grande e suco de abacaxi de 500 ml.
Não discuti com as merrecas, não debati
com minhas caraminholas, recusei as jujubas da turminha à porta ao entrar na
lanchonete.
Já muitas vezes estive sentado àquela
mesa, no canto direito, tendo às costas e ao meu lado direito as paredes do L.
No salão, sempre lotado antes da
pandemia, nós outros éramos: as mulheres numa das mesas centrais e eu.
Uma delas comentou que, depois que lhes
deixou comer, o homem recendia um maravilhoso horror.
Era freguesa que pedia pra comer sem que
viessem oferecer o que não desejava comprar, ainda mais manjando um maná dos
deuses ꟷ batata frita com guaraná.
Como o mundo nem eu paramos, atravessei
a avenida.
Sem meus amigos, cônscio de que nas
terras interiores da alma há diques formatando-a à felicidade infindável, certo
de que haverá de ser doce enquanto for preciso vir de longe, eu saboreei a
torta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2022.
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