domingo, 11 de dezembro de 2022

Volta ao mundo

 

Volta ao mundo

 

Se eu adiantasse as dificuldades, teria ido mesmo assim. Afinal, era pra ser uma estadia curta, precisava que fosse. Sem alvoroços com a agenda apertada, era recomendável que permanecesse sereno ainda que outros rumos desandassem as coisas.

E as coisas simples viram dificultosas quando estou carente de uma boa tarde de paz, daquelas com bem-te-vis cantando, cães latindo nos quintais e amoras no ponto.

Eis o problema para o qual eu não encontro outro desfecho que não seja lógico: amoras no ponto incitam a pular o muro; correr de cachorro bravo excita; definitivamente, assustar bem-te-vis é insignificante.

Ora, ora, juntando lé com cré: se o descrito for fidedigno, a fuga dos passarinhos é coisa à toa, pois chegar a isso é que são elas.

Antes que enverede mais pelo tronco, cuido da referida ida.

De saída, já no carro que me levava ao litoral, foi ao colocá-los que constatei que os óculos certos ficaram na gaveta.

Não me desabona a afobação, pois um dia antes da viagem peguei o estojo e, sem a curiosidade de abri-lo para verificar se as lentes eram nos graus da última receita aviada, deixei-o ao lado da carteira.

Poxa, não pude me fantasiar a caráter. Ainda que eu goste tanto de zanzar pela praia de boné, chinelos de dedo e lentes espelhadas, sem nenhum traço borocoxô, espontâneo feito um caiçara da gema, encarei o calçadão.

Embora não me tomassem por turista, sentia-me um.

Mas ninguém teve dó de mim, mesmo comigo com a mais genuína cara de mané. Sei fazê-la, compondo-a como se aguardasse respostas às perguntas que, no fundo de mim, brotam das tristezas.

Anjinho de chinelo de dedo, óculos de intelectual e boné do Chicago Bulls, ansiava silenciar-me:

ꟷ Gente gentil que goza das gostosuras que não gosto nada, sofro gasturas como vampiro viciado em chá de alho.

Já que o sol tinha ressecado a alegria da minha língua na casquinha mesclada, partiu da carteira dar-me autorização a beirute, duas esfihas de carne, fritas grande e suco de abacaxi de 500 ml.

Não discuti com as merrecas, não debati com minhas caraminholas, recusei as jujubas da turminha à porta ao entrar na lanchonete.

Já muitas vezes estive sentado àquela mesa, no canto direito, tendo às costas e ao meu lado direito as paredes do L.

No salão, sempre lotado antes da pandemia, nós outros éramos: as mulheres numa das mesas centrais e eu.

Uma delas comentou que, depois que lhes deixou comer, o homem recendia um maravilhoso horror.

Era freguesa que pedia pra comer sem que viessem oferecer o que não desejava comprar, ainda mais manjando um maná dos deuses ꟷ batata frita com guaraná.

Como o mundo nem eu paramos, atravessei a avenida.

Sem meus amigos, cônscio de que nas terras interiores da alma há diques formatando-a à felicidade infindável, certo de que haverá de ser doce enquanto for preciso vir de longe, eu saboreei a torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2022.

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