quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Diversão garantida

 

Diversão garantida

 

Porque não brigo por ninharias, eu não discutirei com quem se acha bem mais patriota do que eu. Saberei ouvir bagatelas e ficarei de boca fechada. A mim mesmo me prometo: não comerei poeira nem engolirei sapo, continuarei contente. Até porque não acho que me demonstrarei nacionalista raiz se me enrolar numa toalha verde-amarela.

Hoje vou sair de casa, não apenas pra assistir à estreia do Brasil no Catar, irei à luta por cervejas na faixa, pois não sou de apostar à toa.

Quando o assunto é bola, o jogo pega é na rua.

Noutro dia, vendo o jogo da calçada diante da padaria, juntou gente que não parava de manifestar-se. Bola na arquibancada era motivo pro úúú de quem torcia pra que a pelota entrasse na gaveta. Mas o máximo foram os gritos ensandecidos a cada gol.

No 1X0, vibrei com o pênalti convertido pelo Messi. Fui o único.

A cada gol da virada dos sauditas, os torcedores pularam, gritaram; certos de que nem a Covid resista à alegria em país tão varonil.

Achei melhor não aglomerar naquela balbúrdia, saí à francesa.

Há quem diga que não sei perder. OK, talvez não saiba.

Em 74, no dia em que a seleção canarinho poria na roda o Carrossel Laranja, achei prudente não revelar o meu poder de mudar moedinhas em quindim.

Não sei por que mamãe não botou fé na minha confissão. De fato, era mesmo impressionante o ímã potente que o bueiro da sarjeta tinha nos seus misteriosos subterrâneos.

Perderíamos na Alemanha; levei bronca por mentiroso.

Mentiroso, ora essa, mentiroso.

Pra que não digam que não sei perdoar, lá estava eu na calçada da padaria, torcendo pelos germânicos prepotentes que nos humilharam no Mineirão na Copa de 2014.

O Japão vira, virou. Outra vez, enfiei a viola no saco.

Fui o único a sair de fininho, pois eu preferi dar no pé a ficar batendo boca com quem nem sabia qual a escalação da esquadra nipônica.

Por favor, senhorzinho bem educado...

É óbvio que fiquei vermelho de raiva. Orra! Fiquei rubro na hora.

Hoje vai ter jogo. Preciso ficar calmo. Levemente ansioso.

Ora, vermelho não energiza o espírito da gente?

Pimpão, garboso, cheio de bossa, vestirei a minha vermelhinha pra ganhar o mundo.

Sim! Não bateria um bolão se me chamasse Edmundo.

Sem abstrações: bonita camisa, seu Rodrigues.

Cá pra nós, a minha camisa vermelha dá-me porte elegante. Fecho os três botões. Coloco-a por dentro da calça. Ando de cabeça erguida.

Sem vergonha, exibo-me em minha camisa vermelha, pois, no lugar do brasão de clube, tem o jogador de polo. Bordada em azul, sem bola no pé, empunhando um taco, vê-se a figura a cavalo.

Tampinha gentil, a quem vier ralhar comigo pedirei que não chateie, pois sou apenas um menino.

Menino, não faço por mal o que não faço por bem, e faço o que faço somente por diversão.

Sem estresse, pô!

No país de Ronaldo e Ronaldinho, ostento a vermelhinha porque a canarinho está secando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2022.

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