Diversão
garantida
Porque não brigo por ninharias, eu não discutirei
com quem se acha bem mais patriota do que eu. Saberei ouvir bagatelas e ficarei
de boca fechada. A mim mesmo me prometo: não comerei poeira nem engolirei sapo,
continuarei contente. Até porque não acho que me demonstrarei nacionalista raiz
se me enrolar numa toalha verde-amarela.
Hoje vou sair de casa, não apenas pra
assistir à estreia do Brasil no Catar, irei à luta por cervejas na faixa, pois
não sou de apostar à toa.
Quando o assunto é bola, o jogo pega é
na rua.
Noutro dia, vendo o jogo da calçada
diante da padaria, juntou gente que não parava de manifestar-se. Bola na
arquibancada era motivo pro úúú de quem torcia pra que a pelota entrasse na
gaveta. Mas o máximo foram os gritos ensandecidos a cada gol.
No 1X0, vibrei com o pênalti convertido
pelo Messi. Fui o único.
A cada gol da virada dos sauditas, os
torcedores pularam, gritaram; certos de que nem a Covid resista à alegria em
país tão varonil.
Achei melhor não aglomerar naquela
balbúrdia, saí à francesa.
Há quem diga que não sei perder. OK, talvez
não saiba.
Em 74, no dia em que a seleção canarinho
poria na roda o Carrossel Laranja, achei prudente não revelar o meu poder de mudar
moedinhas em quindim.
Não sei por que mamãe não botou fé na
minha confissão. De fato, era mesmo impressionante o ímã potente que o bueiro
da sarjeta tinha nos seus misteriosos subterrâneos.
Perderíamos na Alemanha; levei bronca
por mentiroso.
Mentiroso, ora essa, mentiroso.
Pra que não digam que não sei perdoar,
lá estava eu na calçada da padaria, torcendo pelos germânicos prepotentes que
nos humilharam no Mineirão na Copa de 2014.
O Japão vira, virou. Outra vez, enfiei a
viola no saco.
Fui o único a sair de fininho, pois eu preferi
dar no pé a ficar batendo boca com quem nem sabia qual a escalação da esquadra
nipônica.
Por favor, senhorzinho bem educado...
É óbvio que fiquei vermelho de raiva. Orra!
Fiquei rubro na hora.
Hoje vai ter jogo. Preciso ficar calmo.
Levemente ansioso.
Ora, vermelho não energiza o espírito da
gente?
Pimpão, garboso, cheio de bossa, vestirei
a minha vermelhinha pra ganhar o mundo.
Sim! Não bateria um bolão se me chamasse
Edmundo.
Sem abstrações: bonita camisa, seu
Rodrigues.
Cá pra nós, a minha camisa vermelha
dá-me porte elegante. Fecho os três botões. Coloco-a por dentro da calça. Ando
de cabeça erguida.
Sem vergonha, exibo-me em minha camisa
vermelha, pois, no lugar do brasão de clube, tem o jogador de polo. Bordada em azul,
sem bola no pé, empunhando um taco, vê-se a figura a cavalo.
Tampinha gentil, a quem vier ralhar
comigo pedirei que não chateie, pois sou apenas um menino.
Menino, não faço por mal o que não faço por
bem, e faço o que faço somente por diversão.
Sem estresse, pô!
No país de Ronaldo e Ronaldinho, ostento
a vermelhinha porque a canarinho está secando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de novembro de 2022.
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