domingo, 4 de dezembro de 2022

A lição

 

A lição

 

Se o sol bonito aguentar mais hora, vai dar quente o dia ꟷ matutava o homem agachado sobre os calcanhares.

Com um graveto fazendo a vez de cajado, ele estava equilibrado; e só alternava a perna esticada por causa do formigamento que daria em câimbras, que não queria viessem agastá-lo ainda mais.

Estava como achou que poderia ficar com menor agitação. Tinha já se ajeitado com a espera. Porque sabia esperar que os céus lograssem enviar algum bando, fosse de quero-queros ou andorinhas. Queria ver o voo, é que pela formação assuntaria breve ou longo o tempo.

Punha esperança que chovesse. Que chovesse logo, e por um dia. Mas caísse aquela chuvinha boa pra terra, pros bichos, pra descarrego do ar. Que andava abafado, prenhe de maus sentimentos. E tanto tinha de ruim que nem nuvens vinham, nem leves nem aterradoras.

Havia meio ano de aridez, de preces ignoradas.

Do nada, levantou-se uma nuvem de poeira. E um carro parou.

Do lado do passageiro, um homem de óculos escuros, boné e fones de ouvido desceu, e urinou no mato. Como algumas gotas respingaram na sandália franciscana, bateu-a, xingou alto. Voltou pro carro como se a estradinha fosse o melhor lugar do mundo para amaldiçoá-lo.

O homem de cócoras não dominava a telepatia, só ele soube:

ꟷ Se o calorão atrair mais varejeiras, a carniça está fresca.

Com um lenço, enxugou o rosto e o pescoço.

Ele arrancou capim. Mordiscou a raiz e cuspiu. Fez de novo e tornou a cuspir. Gostou do que fez; e outra vez arrancou o mato, mordiscou a raiz e cuspiu. Faria novamente se outro carro não tivesse surgido.

Do lado do passageiro, toda de rosa, uma mulher de quedes, short e viseira desceu, abriu a porta traseira, e, sentada numa pedra, deu de mamar a um bebê, que berrava até apoderar-se do seio.

Tal acocorado da beira do caminho nem ligava que fosse domingo; em pensamento, sabia que vive tranquilo quem criado tranquilo.

Quisesse entender o mundo pela realidade, estaria sem saída, pois um novo automóvel veio parar a poucos metros de onde ele estava.

De fato, aquilo não era nada razoável.

Nunca, e se tivesse cabeça para reparar nesse tipo de coisa saberia que passara dos setenta anos, enfim, nunca tinha visto tanta gente de fora nem mesmo num domingo.

Desta vez, o motorista desceu de um fusquinha. Não um fusquinha qualquer, era modelo 66. E tudo era original ou parecido com o original: os pneus, as calotas, os espelhinhos, a buzina.

Sim, sim, antes de sair daquela máquina maravilhosa, a mulher que a pilotava deu buzinadinhas de saudação.

Era encantadoramente educada. Disse bom-dia. Pediu a gentileza de uma informação, se a chácara Maritacas da Serra estava perto. Deu a mão ao despedir-se. Sorriu. Acenou. Novamente buzinou e acenou.

Que maravilha de pessoa ꟷ por instantes, o sujeito do caminho não pensou no ônibus que não vinha nunca nem nas costas travadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2022.

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