A
lição
Se o sol bonito aguentar mais hora, vai
dar quente o dia ꟷ matutava o homem agachado sobre os calcanhares.
Com um graveto fazendo a vez de cajado,
ele estava equilibrado; e só alternava a perna esticada por causa do
formigamento que daria em câimbras, que não queria viessem agastá-lo ainda mais.
Estava como achou que poderia ficar com
menor agitação. Tinha já se ajeitado com a espera. Porque sabia esperar que os
céus lograssem enviar algum bando, fosse de quero-queros ou andorinhas. Queria
ver o voo, é que pela formação assuntaria breve ou longo o tempo.
Punha esperança que chovesse. Que chovesse
logo, e por um dia. Mas caísse aquela chuvinha boa pra terra, pros bichos, pra
descarrego do ar. Que andava abafado, prenhe de maus sentimentos. E tanto tinha
de ruim que nem nuvens vinham, nem leves nem aterradoras.
Havia meio ano de aridez, de preces
ignoradas.
Do nada, levantou-se uma nuvem de poeira.
E um carro parou.
Do lado do passageiro, um homem de
óculos escuros, boné e fones de ouvido desceu, e urinou no mato. Como algumas
gotas respingaram na sandália franciscana, bateu-a, xingou alto. Voltou pro
carro como se a estradinha fosse o melhor lugar do mundo para amaldiçoá-lo.
O homem de cócoras não dominava a
telepatia, só ele soube:
ꟷ Se o calorão atrair mais varejeiras, a
carniça está fresca.
Com um lenço, enxugou o rosto e o
pescoço.
Ele arrancou capim. Mordiscou a raiz e
cuspiu. Fez de novo e tornou a cuspir. Gostou do que fez; e outra vez arrancou
o mato, mordiscou a raiz e cuspiu. Faria novamente se outro carro não tivesse
surgido.
Do lado do passageiro, toda de rosa, uma
mulher de quedes, short e viseira desceu, abriu a porta traseira, e, sentada
numa pedra, deu de mamar a um bebê, que berrava até apoderar-se do seio.
Tal acocorado da beira do caminho nem
ligava que fosse domingo; em pensamento, sabia que vive tranquilo quem criado
tranquilo.
Quisesse entender o mundo pela
realidade, estaria sem saída, pois um novo automóvel veio parar a poucos metros
de onde ele estava.
De fato, aquilo não era nada razoável.
Nunca, e se tivesse cabeça para reparar nesse
tipo de coisa saberia que passara dos setenta anos, enfim, nunca tinha visto
tanta gente de fora nem mesmo num domingo.
Desta vez, o motorista desceu de um fusquinha.
Não um fusquinha qualquer, era modelo 66. E tudo era original ou parecido com o
original: os pneus, as calotas, os espelhinhos, a buzina.
Sim, sim, antes de sair daquela máquina
maravilhosa, a mulher que a pilotava deu buzinadinhas de saudação.
Era encantadoramente educada. Disse
bom-dia. Pediu a gentileza de uma informação, se a chácara Maritacas da Serra estava
perto. Deu a mão ao despedir-se. Sorriu. Acenou. Novamente buzinou e acenou.
Que maravilha de pessoa ꟷ por instantes,
o sujeito do caminho não pensou no ônibus que não vinha nunca nem nas costas
travadas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2022.
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