Fala,
Célio
O doutor Honório foi casado com dona
Márcia, casal feliz enquanto não tiveram filhos, que nasceram para
desestabilizar o harmonioso que havia na relação deles dois.
Mauro Maurício, o primogênito, formado em Direito mas que opera na Bolsa de Valores, gosta de pescaria nas férias e nada o demove de sair cedo pro oceano, embora sua esposa sempre diga que tem outros planos, frustrados pela última palavra do marido, ela segue planejando, desde o casamento há vinte e dois anos, de ir a Miami pra fazer selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser e Ele há de querer ― ou estariam divorciados há muito, quando sofreu o trauma de ser atacada pela frota de caravelas no Ano Novo de 2000 em Boraceia.
O do meio, Paulo Patrício, entrou na
maioridade trancado no quarto, jogando violentos videogames, viaja sempre para
Paraty, e não apenas nas férias, por ter herdado uma casa, cuja família da
paciente doadora não contestou em juízo o desejo posto em testamento, evidentemente
pela risoterápica presença, estimulada pelo oncologista, dos Bobos de Branco,
cujas palhaçadas a fizeram, nos dias finais, rir muito.
A filha, aquela meninota tão atenciosa e
carinhosa com coelhinhos, chinchilas e hamsters, ela radicalizou na puberdade, passou
a ler livros de autoajuda, a meditações holísticas, às ações de guerrilheira
tão logo integrou-se a uma famigerada ONG; foi essa atuação ecologicamente
correta da pirralha que a afastou dos pais, que não pronunciam o nome dela há quinze
anos, desde que a pequerrucha serelepe quase morreu afogada em um protesto em
Abrolhos; não é que eles tenham decidido conscientemente que nunca mais
falariam, só não falam mais o nome, é como se Cecília Sueli tivesse sido
abduzida por essa tal de Ciça.
Dona Márcia e o doutor Honório
organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo
súbito.
― Que vergonha! Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz. Se não bastasse a idade, um surfista! ― Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.
Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça
não aguentou ficar em silêncio, e foi de madrugada que ela telefonou:
― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.
O tal surfista não é nem nunca foi de pegar
onda nem pede dinheiro aos outros. Ele não é de falar a torto e a direito. Até quando
ouve ideias debiloides ou pensamentos incoerentes, prefere escutar calado.
Célio, o novo companheiro, não é dado a
chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Seu nome é Márcia, então,
ele a chama ou a ela se refere pelo seu nome.
― Fiz picadinho do pôster do Médici que
aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2022.
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