terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia, casal feliz enquanto não tiveram filhos, que nasceram para desestabilizar o harmonioso que havia na relação deles dois.

Mauro Maurício, o primogênito, formado em Direito mas que opera na Bolsa de Valores, gosta de pescaria nas férias e nada o demove de sair cedo pro oceano, embora sua esposa sempre diga que tem outros planos, frustrados pela última palavra do marido, ela segue planejando, desde o casamento há vinte e dois anos, de ir a Miami pra fazer selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser e Ele há de querer ― ou estariam divorciados há muito, quando sofreu o trauma de ser atacada pela frota de caravelas no Ano Novo de 2000 em Boraceia.

O do meio, Paulo Patrício, entrou na maioridade trancado no quarto, jogando violentos videogames, viaja sempre para Paraty, e não apenas nas férias, por ter herdado uma casa, cuja família da paciente doadora não contestou em juízo o desejo posto em testamento, evidentemente pela risoterápica presença, estimulada pelo oncologista, dos Bobos de Branco, cujas palhaçadas a fizeram, nos dias finais, rir muito.

A filha, aquela meninota tão atenciosa e carinhosa com coelhinhos, chinchilas e hamsters, ela radicalizou na puberdade, passou a ler livros de autoajuda, a meditações holísticas, às ações de guerrilheira tão logo integrou-se a uma famigerada ONG; foi essa atuação ecologicamente correta da pirralha que a afastou dos pais, que não pronunciam o nome dela há quinze anos, desde que a pequerrucha serelepe quase morreu afogada em um protesto em Abrolhos; não é que eles tenham decidido conscientemente que nunca mais falariam, só não falam mais o nome, é como se Cecília Sueli tivesse sido abduzida por essa tal de Ciça.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha! Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz. Se não bastasse a idade, um surfista! ― Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio, e foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista não é nem nunca foi de pegar onda nem pede dinheiro aos outros. Ele não é de falar a torto e a direito. Até quando ouve ideias debiloides ou pensamentos incoerentes, prefere escutar calado.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Seu nome é Márcia, então, ele a chama ou a ela se refere pelo seu nome.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2022.

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