A
nora do Noca
Esbodegado mas satisfeito, com os
cotovelos apoiados no cabo da vassoura apoiada nos joelhos, as mãos enclavinhadas,
o dedão do pé direito ensanguentado, de olho no quintal para limpar e no próximo
gole de cerveja, Noca está consciente de que a casa não irá dispensá-lo de suas
obrigações de bom amigo que ela lhe exige que seja.
Exigências, antecipam-nas o bom amigo Noca.
Mas o Brasil venceu; a carne não faltou;
a vaquinha ajudou na hora de comprar mais cerveja; noves fora: tudo certo, resolvido,
tudo a favor, os alicerces não estão abalados com o placar final.
Se nada há de negativo a constatar,
relate-se o que for positivo.
Se não tem zebra zurrando, o que há é o derradeiro
espetinho a ser comido sem ninguém pra palpitar sobre a brasa ou os palmos de altura
da grelha.
Cadê quem foi atrás de alcatra,
contrafilé e linguiça?
Noca não quer levantar nem pra virar espeto.
O copo é virado. Tem que virar o espeto para os corações não torrarem. Pra que a
garganta não seque, seja aberta outra latinha.
A prova de que o dia está favorável a
vitórias, a geladeira ainda tem muitas latas. E vitórias dão saldo positivo a
quem se envaidece com os três pontos a cada rodada.
Ao lado da geladeira, na expectativa de
logo saírem da reserva, os fardos de cerveja aguardam que sejam chamados a
campo, ou melhor, apurem-se pro consumo mais do que satisfatório, prazeroso.
Que beleza! Noca joga parado, e pelo
quanto quiser.
Dizem que a pessoa vive a liberdade ao deixar
para lá o que nem é essencial na sua vida de pessoa que dispensa saber-se feliz.
Noca não pensa que é livre porque se
sente feliz por tudo que faz ou porque existe para dar satisfação a Deus ou ao
Diabo.
Oxe! O cheiro chama à churrasqueira.
Ele come sozinho. Sem reclamar, ele come
os coraçõezinhos. Abre uma latinha. Ô coisa boa! Come e bebe como bem entende.
Maravilha! Come, bebe, passa a língua no fiapo de frango preso no vão da
frente.
O fiapo não dói.
A linguiça, o contrafilé, a alcatra: esta
carne toda deve ter sido posta na geladeira pelo filho.
E Noca tem apenas uma boca.
Como a seleção jogou bem, tudo bem. Tudo?
Sem nenhuma discussão, a família toda já
foi embora. A ex-esposa não bateu boca nem com ele nem com ninguém. O pessoal
torceu pra valer: pedindo gol; querendo drible; bebendo gim; gritando gol.
Gim? A pessoa ꟷ bebendo gim ꟷ roda e
afunda.
Poderia destacar que a mulher do filho não veio, mas o Noca achou por bem não perguntar. Se não quis vir, tudo bem. Isso não é com ele. Com cada qual tratando de si, tudo bem.
Noca cuidou que não exagerasse na
caipirinha antes de o juiz apitar o início da partida. Depois de começada a
peleja, verteu copo atrás de outro, pois a danada foi feita no capricho.
O limão ter acabado no intervalo não foi
problema, pois todo mundo foi bebendo até que, aos vinte da segunda etapa, ela acabasse.
Mas, acabou?
Alô torcida, ranço é roça.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de novembro de 2022.
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