Gente
do céu
Ainda que a honestidade me submeta à
dolorosa consciência, conto a verdade. Digo que sou decadente a quem me vê em
cima da escada. Mesmo que não entenda como não tenha previsto que uma maçaroca de
folhas secas, pedrinhas, terra e fezes de pombo iria acumular-se na calha, trato
de retirá-la com minhas mãos nuas.
Além de relapso, imprudente. Dói-me
confessá-lo, mas anuo.
Nem parece que a casa foi limpa ontem. É
óbvio que eu sei que as aparências revelam que jogo contra o patrimônio. Se
tiver que perder quinze minutos, cuido eu do que é meu. Não aceito que a
sujeira toda seja jogada na minha cara, como se eu nem ligasse pra imundície. Pois
é uma questão de honra eu mesmo limpar de novo o que a tempestade de verão tinha
deixado limpinho há menos de vinte e quatro horas.
Pelo sim pelo não, orientado pelo rastro
imundo, faço correr a água da mangueira pela luz da calha e o quintal fica
limpo.
Não dou graças à alma humilde que
aprende observando o mundo, pois, pessoa humilde que eu sou, não o faço para
que me parabenizem por esta minha tão singela disposição.
Não preciso mentir pra que a mim me
compreendam verdadeiro na minha confissão, que estou mesmo disposto ao bem.
Apesar da dolorosa certeza de que a
verdade dói quando a professo a quem não esteja a fim de ouvir-me dizê-la, não
espalho mentiras nem faço com que os meus opositores estejam certos sobre mim.
Sim, senhor, eu limpei a calha com água
de mangueira porque água corrente tem esse poder de levar pelo ralo o que
houver de levar, ainda que eu bem tivesse notado que cabia a mim manter a casa
limpa.
Visto a malha de bailarino do cotidiano.
Calço as sandálias de gente que batalha por uma vida mais autêntica.
Divertem-me as maritacas lá no telhado. Eu a saúdo, ó realidade que o esgoto não
apaga.
Se posso ir adiante justamente por que não
sei aonde vou indo, eu vou? Estou indo, sim, pois me conduz o próximo passo.
Será que mais ninguém tem medo de
assombração? Ninguém vai aparecer para dar um fim ao barulho das correntes?
Será que terei de ficar apavorado ao extremo pra que venham me socorrer das
aflições? Alguém teria uma vela para iluminar os caminhos à frente?
Pego o meu telefone. Posiciono-o acima
da minha cabeça. Preciso me comunicar. O sinal melhora se aderno num pé.
Pelo amor de Deus!
A noite não para de passar. O sol já foi
faz tempo. A lua não nasce. As estrelas não brilham.
Como? HELP!
Não desperdiçarei a chance de ser ouvido.
Quero que ouçam. Peço que acudam. Cadê que não vêm! Ai caraca, já passa da
hora. Venham, onde estão? Não temam, venham!
Não atendem por que não entendem ou por
entenderem é que não atendem de modo algum, que será?
Se eu tivesse me interessado por
aprender o código, saberia que a diabólica lanterninha muito ordinária pode ter
passado a perna em mim e telegrafado ao carregadíssimo cosmos noturno de
infinito plúmbeo:
V.O.G.O.N.S.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2022.
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