terça-feira, 22 de novembro de 2022

Coisa louca

 

Coisa louca

 

E o que ela falou pra você ficar assim, tão nervoso?

Ela disse que a paranoia bateu; mais do que impressão, estava sob vigilância. Estava constrangida, pois o monitoramento dos seus passos a obrigava a pensar dia e noite. Sem paz, sentia que não se dominava, e isso era um baita, um tremendo incômodo.

O medo a afetou tanto que a sua preocupação com o estado mental passou a ser um problema. Ela não queria ser chamada de louca, uma pessoa que perde as referências de gente que vive o dia a dia sem que o futuro pareça ameaçador. Ficou temerosa de que o colapso ganharia vez no próximo segundo.

O sentimento era de que estava à mercê de alguma coisa sobre a qual não tinha controle, nem da sua eclosão nem do seu alcance.

Não parava de pensar. Queria relacionar as coisas.

A abertura da janela. A fechadura da porta. Os óculos esquecidos. As chaves perdidas. O livro no banheiro. A página que não marcou. Os latidos a qualquer momento. As folhas varridas pelo vento. Devia juntá-las pra atear fogo. Tinha que fechar a janela. Todas as janelas.

Cadê o fósforo? Queria fósforo e álcool. Não tinha álcool?

Engana-se quem pensa que fumaça expulsa pulgas da casa. Quem vasculha gavetas não acha as chaves, os óculos, as cartas de um amor já superado. Acha aquela barata seca, cujo cheiro é nauseabundo.

Bateu o pressentimento de que tinha mais gente dentro. Os ruídos revelavam a tal presença. Estranho, o barulho vinha daqui, dali, de todo lugar, nem sabia de onde, da gaveta com poucas fotos.

É paranoia não parar de pensar que a barata morta na gaveta tinha antenas, que essas antenas ainda se moviam, até provocavam nojo.

Como a fumaça irrita olhos, boca e nariz, o jeito é cobri-los com um lenço úmido ou sair, ir lavar o rosto no tanque.

Por que a água não podia ser usada pra apagar o fogo?

Sedenta de tranquilidade, essa pessoa rebelde abre uma cerveja e pede efeito imediato, que o próximo gole seja apenas mais um, não o último, que ela queira dormir, que seja vista a porta da cozinha, que o seu olhar a encaminhe pro quintal, que seja aberta para que o ar cheio de fumaça escape pro céu, a tosse passe, a irritação da boca passe, a carcaça cansada não fique paralisada, que o medo de ser devorada a faça correr dali, voltar pra cá, a porta da casa não tenha sido arrancada, que não haja batente sem folha, que a calma não camufle o medo.

Disse que estava intoxicada pela fumaça. Que jogou álcool na pilha. Disse que só saiu do quarto depois de queimadas todas as fotos. Disse que a janela ficou fechada, que o vento uivava o temporal vindouro.

Ela mantinha a casa trancada, de janelas fechadas, com um tanque para afogar pulgas e baratas. Era uma casa avariada, a fachada pedia lixa, massa corrida e demãos de tinta.

Silvava o vento: pintada de branco; nos trinques por fora, horrorenta por dentro; no capacho estava escrito: de volta ao lar, sacana?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de novembro de 2022.

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