Caverna
do dragão
Parece de propósito. Parece nada, faz
mesmo é para irritar. E tanto irrita que o jeito é reagir de pronto. Sem espalhafato,
nada de ficar com gritaria, bateção de pé ou soltar bombinhas. Para resolver o
problema, é só assobiar. E o cachorro chato, que não para de latir, topa lamber
a boca da gente, de mansinho.
ꟷ Não, Manú, não faz isso. Cachorro
morde, Manú.
A menina parou de correr atrás do
cachorro. Parou, pois viu saúvas. Achou fascinante a fileira daquelas formigas,
cada uma transportando pedacinho de folha. E uma a uma iam entrando no
buraquinho. Aquilo, puxa vida, era uma façanha dos bichinhos. Pra eles caberem
num lugar pequenininho devia ser um lugar mágico. Se não fosse mágico, a gente não
ia cair onde dragão voa, solta fogo e protege todo mundo.
ꟷ Mordida de saúva faz dodói, Manú.
A filha tem alergia à picada de
pernilongo, à de formiga não sabe se ela tem. Por precaução, a menina fique
sentadinha no banco. Pois é preciso evitar o pior, e a solução é a que sempre
toma.
ꟷ A mamãe vai tomar sorvete. Você também
quer, Manú?
A testa franzida e seus olhos apertados
expressam o nojo que a menina experimenta. Ela cospe o que mastigava, que é a
plantinha que as formigas estão levando pro buraco. Coisa estúpida é formiga
comer algo tão ruim. Melhor é sorvete, é claro!
ꟷ O que é isso, menina!?! Pare já de
jogar fora o que custa caro. E formigas comem folhas, não gostam de sorvete,
Manú.
A mãe não sabe do que formiga gosta. Ela
está inventando. Ora, se sorvete é gostoso, saúva também gosta. Formiga que não
experimenta não tem como gostar de sorvete, puxa vida.
A mãe não insiste, porque está preocupada
em gravar a mensagem que tem que ser enviada o quanto antes. Enfim, ela manda:
ꟷ Eu não quero chamar a atenção, não
quero ser famosa, quero ser feliz, quero celebrar o que tem de bom no mundo,
neste mundo em que muita gente, muita gente mesmo, confunde alegria com felicidade,
deixando-se cativar pelo que aparenta ser alegre, feliz e verdadeiro, porque é
possível, é bem possível mesmo, que a realidade verdadeira esteja na satisfação
de olhar no espelho pra se ver na cara honesta de pessoa que não engana pra se
safar, que sabe que a felicidade chega a quem valoriza a luta, que luta o tempo
todo, luta pela vida, porque o problema é achar que está tudo bem porque não tem
ninguém olhando, puxa vida, sempre tem gente olhando, a consciência nem percebe
que negar o que o corpo percebe é fingir que não tá sendo controlada pelo que
há de esquisito na nossa cabeça, a pessoa faz que sente que vive como se soubesse
o que é melhor pra si, acha bom viver pra ser melhor aos olhos dos outros, só
que é horrorosa a ideia de viver como acham que a gente tem que viver, puxa
vida, viver assim não é bacana, é vida vergonhosa.
Com as mãozinhas nas maçãs da mãe, Manuela
Cristina diz:
ꟷ Mamã, a senhora não é meu Uber pra levar
de cavalinho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de novembro de 2022.
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