domingo, 27 de novembro de 2022

Caverna do dragão

 

Caverna do dragão

 

Parece de propósito. Parece nada, faz mesmo é para irritar. E tanto irrita que o jeito é reagir de pronto. Sem espalhafato, nada de ficar com gritaria, bateção de pé ou soltar bombinhas. Para resolver o problema, é só assobiar. E o cachorro chato, que não para de latir, topa lamber a boca da gente, de mansinho.

ꟷ Não, Manú, não faz isso. Cachorro morde, Manú.

A menina parou de correr atrás do cachorro. Parou, pois viu saúvas. Achou fascinante a fileira daquelas formigas, cada uma transportando pedacinho de folha. E uma a uma iam entrando no buraquinho. Aquilo, puxa vida, era uma façanha dos bichinhos. Pra eles caberem num lugar pequenininho devia ser um lugar mágico. Se não fosse mágico, a gente não ia cair onde dragão voa, solta fogo e protege todo mundo.

ꟷ Mordida de saúva faz dodói, Manú.

A filha tem alergia à picada de pernilongo, à de formiga não sabe se ela tem. Por precaução, a menina fique sentadinha no banco. Pois é preciso evitar o pior, e a solução é a que sempre toma.

ꟷ A mamãe vai tomar sorvete. Você também quer, Manú?

A testa franzida e seus olhos apertados expressam o nojo que a menina experimenta. Ela cospe o que mastigava, que é a plantinha que as formigas estão levando pro buraco. Coisa estúpida é formiga comer algo tão ruim. Melhor é sorvete, é claro!

ꟷ O que é isso, menina!?! Pare já de jogar fora o que custa caro. E formigas comem folhas, não gostam de sorvete, Manú.

A mãe não sabe do que formiga gosta. Ela está inventando. Ora, se sorvete é gostoso, saúva também gosta. Formiga que não experimenta não tem como gostar de sorvete, puxa vida.

A mãe não insiste, porque está preocupada em gravar a mensagem que tem que ser enviada o quanto antes. Enfim, ela manda:

ꟷ Eu não quero chamar a atenção, não quero ser famosa, quero ser feliz, quero celebrar o que tem de bom no mundo, neste mundo em que muita gente, muita gente mesmo, confunde alegria com felicidade, deixando-se cativar pelo que aparenta ser alegre, feliz e verdadeiro, porque é possível, é bem possível mesmo, que a realidade verdadeira esteja na satisfação de olhar no espelho pra se ver na cara honesta de pessoa que não engana pra se safar, que sabe que a felicidade chega a quem valoriza a luta, que luta o tempo todo, luta pela vida, porque o problema é achar que está tudo bem porque não tem ninguém olhando, puxa vida, sempre tem gente olhando, a consciência nem percebe que negar o que o corpo percebe é fingir que não tá sendo controlada pelo que há de esquisito na nossa cabeça, a pessoa faz que sente que vive como se soubesse o que é melhor pra si, acha bom viver pra ser melhor aos olhos dos outros, só que é horrorosa a ideia de viver como acham que a gente tem que viver, puxa vida, viver assim não é bacana, é vida vergonhosa.

Com as mãozinhas nas maçãs da mãe, Manuela Cristina diz:

ꟷ Mamã, a senhora não é meu Uber pra levar de cavalinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de novembro de 2022.


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